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dois passos


1. aumentar o volume do som até ficar surdo pra pensamento triste.

2. ficar de costas para a janela, grudando o corpo na parede e inclinando-o até a cabeça ficar ao contrário e do lado de fora.
ou descabelar o mundo.


(27.04.2007)

desajeito

patética tomou banho à luz de velas com óleo de buriti e se fez uma caipirinha de maracujá. antes, à tarde, comprou dois maços de margarida, o que irritou o vendedor. "dois maços de margarida? dois? por que não um buquê?" explicou, como se devesse, como se pudesse, que eram só pra ela, que o vaso era pequeno e que, assim, dois maços, elas pareceriam mais espivitadas. desistiu no meio da fala com um "é, dois maços mesmo". seguiu o vendedor irritado, que embrulhou sem gosto as margaridas solitárias. em casa, ela levou o vaso à janela, presenteou a favela, sentou no sofá e ouviu o novo do caetano. depois do banho à luz de velas e da caipirinha de maracujá. patética dançou, deixou cair vodca, achou o desajeito maravilha, que onda, que onda, que onda que dá, que bunda. atendeu a melhor amiga, que tinha sido patética quando atravessou uma mesa por cima, por não ter (por não pensar) outra saída. deram risada. ela gravou uma conversa com aquele gravador à pilha que ele insistiu em achar arcaico. limpou a vodca no chão, deitou no sofá, dormiu e sonhou que mandou um sms para o caetano. deve ter escrito da onda, da bunda. não lembra ao certo. à noite, tentou um amorzinho bem seu, guardou os fogos de artifício, trocou de restaurante, vestiu a roupa e chegou tarde. de madrugada, aquele galo fora de hora da favela cantou de novo, e ela fechou a janela. às três e meia, patética ficou sem graça. perdeu a hora da corrida na praia, porque desligou o despertador, como quem fecha a janela para o galo fora de hora da favela. patética trabalhou, viu o sangue da moça que saltou do bonde por desespero em santa teresa. e ouviu toda testemunha dizer que, se não tivesse pulado, ela não teria morrido. patética entendia a moça morta. chorou no fim da tarde (ela talvez tivesse pulado), ajeitou as margaridas com água nova, não fez caipirinha, tomou banho à luz de velas. pegou-se existindo e ficou sem graça. patética sabe que é como uma criança às vésperas de dar um susto, escondida atrás da porta. no susto, ela existe. e fica sem graça e tem um luto e ajeita as margaridas com pequenos arrepios por saber que alguém, ela mesma, a viu atrás da porta às vésperas de existir.




tudo novinho


lembrei de eu conversando: "o que falta, no final, é um noivinho". ela riu. ela sempre ri de mim quando eu sonho alto. era verdade, alegriazinha de descobrir o desejo. um noivinho pra dividir o apartamento novo, que é grande, que é quase vazio, que fica repleto quando o itamar canta aquela que faz pensar em noivinho. "A tua boca me dá água na boca/ Ai que vontade de rasgar a nossa roupa/ Vamos pra qualquer lugar praquela gruta/Pra qualquer quarto de hotel praquela moita."
um noivinho pra rasgar a roupa. um noivinho pra sair do banho e sentar na cama conversando enquanto seca o cabelo com a toalha. pra ver-não-ver o jornal nacional, pra abrir um chandelle às onze e quinze, depois de escovar o dente. pra dançar aquela do itamar. pra descer da janela, pendurar no pescoço. feito aquele filme em que o atorzinho passa o braço no pescoço dela. eu voltei a cena. eu voltei a cena. e, de lembrar, o noivinho já está. e eu posso segurar nele, como a moça ruiva faz quando o atorzinho passa o braço no pescoço dela. o noivinho já está e ele instalou a tv a cabo, ligou o telefone e vai me esperar pra o não-ver jornal, pra o não-existir à noite, pra o contar de estrelinhas do morro, praquela do itamar, pra essa alegriazinha do amor que cabe no diminutivo de ser o noivinho.




(bye bye)




she is leaving home.



inventário para mudança


2 sofás brancos de dois lugares cada um
1 geladeira biplex brastemp (sem caixa original)
1 TV 21 polegadas
1 aparelho de som em funcionamento
2 aparelhos de som queimados por erro de voltagem
12 pares de distrações (ou mais; a verificar na vistoria final)
135 CDs
150 livros de tamanhos diversos
10 saudades concretas e contidas (grande capacidade de compactação)
5 saudades menos compactas, com risco de derramamento
1 binóculo do vô acyr
6 cadernos de capa dura para diários
1 melhor pessoa do mundo (grave, irreversível)
1 máquina de lavar com capacidade para sete quilos (com isopor original da embalagem)
1 banana-pufe
3 quadros
4 amigos irreversíveis
2 colegas de trabalho
1 aparelho de DVD
1 liquidificador
56 esperanças do tipo material frágil (sem embalagem; é necessário plástico-bolha)
6 esperanças (com caixa original, desde a aquisição)
1 jogo de louças presente da tia inês
1 faqueiro de 200 peças (muitas sem uso, ainda na embalagem)
1 revisteiro de vime
1 semana de gripe no sofá
5 meses de passos (incertos) de madrugada a caminho do quarto
5 almofadas (duas capas vermelhas com estampa de bolinha e três florais)
1 escrivaninha pequena
2 anos de observação da luz da tarde no piso claro de madeira
1 cadeira simples
1 poltrona do tipo espanholinha, sem braços (pode ficar; em todas as mudanças, ela sempre correu este risco, o de ficar)
1 sabiá da rua cantando todas as madrugadas de 2007
1 sticker de passarinhos no beiral da janela do quarto
1 janela do quarto
1 porteiro admirador de Caravaggio
2 hábitos dentro da cozinha
4 hábitos debaixo do chuveiro
1 ordem dos copos no armário
1 jogo de copos
1 balde de gelo
1 vaso com um lírio seco desde 2007
1 miniatura de casal apaixonado
5 delírios
4 devaneios
2 torturas (já embaladas)
1 janela que ri - a de quatro metros de largura da sala
1 armário alto para livros e discos
1 armário baixo, duas portas, para calçados
4 anos de memória



uma mulher no vento...



... é uma menina?

conforto



como naquela noite em que eles estavam deitados na cama de um amigo. riam os três. o amigo saiu do quarto. colocou billie holiday antes de sair - o amigo tinha dessas. deitados na cama, os dois olhavam para o teto, rindo, inventando traduções improváveis, treinando gestos (também improváveis) para um palco imaginário. ela se pôs a cantar. aguda, sem mais. ele ria. it had to be you, it had to be youuuu. i wandered around and finally found somebody whoooooo... could make me be true, could make me be blue and even be glad, just to be sad thinking of youuuu. os dois gargalhavam, lágrimas de riso penduradas nos olhos, disseram juntos um "eu me sinto confortável com você".
era como estar a salvo de si mesmo. era como estar a salvo de si mesmo. era como estar a salvo de si mesmo. amém.

*

como um outro amigo, doutor de passarinhos, que fazia vestido respirar. era assim: sua mulher havia viajado para longe. oito meses. oito meses. ele ficou à espera. é o mesmo que dizer que ele a viu chegar todos os dias. sua prova era fazer vestido respirar. toda manhã, ia ao guarda-roupa dela e retirava um a um os vestidos, levando-os ao quintal. ele andava com ela pela casa quando levava os vestidos ao quintal. pendurava cada peça no varal - era como ajudá-la a escolher o vestido para o dia. deixava que tomassem o ar da manhã, vento bom - era como cuidar da saúde dela. quando já era tempo de volta, ele corria com os vestidos ao quintal - ansiedade de encontrá-la no portão. ela telefonou um dia, só para avisar. ela não voltou mais. ela não voltou mais. ela não voltou mais. amém.

*

como o tio (padrinho?) da melhor amiga que carregava anedotas nos bolsos. para a menor possibilidade de silêncio-desastre. bem dobradinhas as anedotas dele. vez ou outra, renovava as histórias - as reais, os desastrezinhos da rotina, são os melhores. quando o papel já estava cansado das dobras e a tinta já estava evaporando, o tio da melhor amiga reescrevia. acrescentava também. e ia às festas carregando conversas nos bolsos. eu e ela começamos então nossa lista. imaginária por enquanto. é preciso ser importante para ir às festas carregando conversas nos bolsos.

*

como o pai que, na cozinha, no meio da festa de aniversário, disse que não sabia dizer aquilo. "o pai ficou muito contente com você hoje." só isso. o silêncio do pai cabia no olho.

*

como naquele dia do "eu me sinto confortável com você". como agora no "eu me sinto confortável sem você". confortável, confortável. amém.


in the mood for love



segredo é quando o silêncio faz eco.




ensaio 2


ensaiou o silêncio de manhã. ensaiou música também. escondeu nina simone e john - o john a começa para triste. (ela não pode ir embora. está em estado de vigília da espera. se for embora, talvez desespere.)
lembrou-se de trazer o guarda-chuva. os fins de tarde de abril têm atração por chuvas. lembrou-se de que já está há alguns meses com o guarda-chuva. ela nunca teve um. eles têm predileção por esconderijos. tratou de comprar um grande. azul de bolinhas. não sumiria do lado direito da escrivaninha, embora já tenha sido visto na cozinha, aberto, derramando as bolinhas no chão.
a mãe não ligou. nem o pai. deve ser saudade. a mãe perde a voz de saudade. fica magoada de estar só de filha menina. o pai, quando ligar, vai dizer: "ô, cão sem dono". ela gosta. o pai diz eu te amo com alô e quando faz doce de leite encaroçadinho.
ela agora deu de perceber que está sem compasso ainda. fala demais, ri demais, tem dúvidas demais sobre o cachecol, faz perguntas, fala. talvez seja só esperança. está com olhos para o encanto do mundo.
alguém aparece vez ou outra para dizer que há degraus demais. ela acha divertido. o alguém nem não tem nome, mas sabe que ela suspira antes de dormir. ela tem gosto para edredom de algodãozinho.
está com medo do sábado. começou vigília para não doer. alguns sábados dóem. o domingo, a menina-desenho disse, é o chaplin da semana. medio triste, medio feliz. ela gosta do desajeito do domingo. acha bonito. mais ainda domingo de manhã. o pai na sala tão café, a mãe de sono, o irmão que vai trazer o cachorro, o outro irmão que dorme até mais tarde. faz tempo ela já é um tanto domingo.


ensaio 1


ensaiou prestar atenção. tinha um machucado grande e sem memória na perna. ia cuidar de não machucar. ou de lembrar o nome de o machucado.
a menina em queda livre avisou que precisava borboletear mais. ela passou a procurar pouso de borboleta. quando encontrasse, ia chamar o menino pra ver.
outro dia, conheceu um moço que, quando tinha sete, deixava a sala de aula pra deitar no chão do banheiro. era pelo geladinho de azulejo. o chão pensou o menino.
uma vez, um chão me pensou também. era repetido de muito. bordado de flor. e tinha uma luz que entrava fininha. mas eu já tinha 25.
(queria escrever que o menino era sete. eu já era 25. na minha gramática, a cada aniversário, a gente ganhava mais um eu. por isso um menino que é cinco ainda pode voar, e uma moça que é 25 requer poesia.)
ela pensou que ele poderia ligar e dizer que tinha olhado a dedicatória de novo. olhado novo para a dedicatória. ela sabe que um moço que é 25 ou 26 também requer poesia.
ela pegou delírio no desejo e sonhou que podia segurar o rosto dele. para medir. era um rosto quadrado, pedia encaixe.
de manhã, ela vai correr de novo. é de espantar aflição.



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