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ensaio 2


ensaiou o silêncio de manhã. ensaiou música também. escondeu nina simone e john - o john a começa para triste. (ela não pode ir embora. está em estado de vigília da espera. se for embora, talvez desespere.)
lembrou-se de trazer o guarda-chuva. os fins de tarde de abril têm atração por chuvas. lembrou-se de que já está há alguns meses com o guarda-chuva. ela nunca teve um. eles têm predileção por esconderijos. tratou de comprar um grande. azul de bolinhas. não sumiria do lado direito da escrivaninha, embora já tenha sido visto na cozinha, aberto, derramando as bolinhas no chão.
a mãe não ligou. nem o pai. deve ser saudade. a mãe perde a voz de saudade. fica magoada de estar só de filha menina. o pai, quando ligar, vai dizer: "ô, cão sem dono". ela gosta. o pai diz eu te amo com alô e quando faz doce de leite encaroçadinho.
ela agora deu de perceber que está sem compasso ainda. fala demais, ri demais, tem dúvidas demais sobre o cachecol, faz perguntas, fala. talvez seja só esperança. está com olhos para o encanto do mundo.
alguém aparece vez ou outra para dizer que há degraus demais. ela acha divertido. o alguém nem não tem nome, mas sabe que ela suspira antes de dormir. ela tem gosto para edredom de algodãozinho.
está com medo do sábado. começou vigília para não doer. alguns sábados dóem. o domingo, a menina-desenho disse, é o chaplin da semana. medio triste, medio feliz. ela gosta do desajeito do domingo. acha bonito. mais ainda domingo de manhã. o pai na sala tão café, a mãe de sono, o irmão que vai trazer o cachorro, o outro irmão que dorme até mais tarde. faz tempo ela já é um tanto domingo.


Comentários

Na volta para casa decidiu pelo trajeto longo, apesar da chuva fina que lhe molhava a franja, queria mais tempo para andar, pois acredita que andando pensa melhor. Em uma semana havia recebidos duas ligações antigas, dois amores esquecidos: uma promessa de reencontro que que talvez nunca seja cumprida e um café às 17. Percebeu que não se lembrava mais do rosto. A voz, inconfundível lhe gelou o peito assim que ouvida na saudação. Várias perguntas lhe invadiam, temia fazer tudo de novo. Mais uma vez. Não lembrava de toda a história ou seria estória? Não lembrava data ou endereço. Lembrava o temor cotínuo de fim, do sorvete de pistache, da expectativa permanente de outro deslize, mais tarde confirmada, das tantas indas e vindas, sempre doloridas como joelho ralado no asfalto. Descendo a rua lembrou que os pêssegos haviam acabado e que o que é seu hoje (incerto, raro e pouco) não tem a menor relação com o que tinha antes. Resolveu comprar mais pêssegos e granola (gosta da textura, como o edredom de algodãozinho amarelo), sorriu a citação elegante, desligou o celular e entrou no cinema, sessão das 16, para fechar ainda melhor o dia em sua mania, resolveu continuar a tocar sua vida como está.

por Degraus (desloguilson)

16/04/09 às 14:47 - Link

legal...

por Bullinger (desloguilson)

16/04/09 às 16:34 - Link

Abriu a porta da frente com pressa. As sacolas no chão: pêssegos maduros (texturas), granola (fibra) e sorvete de pistache (afinal, somos tudo o que queremos). O telefone tocava alto, quem poderia ser? Correu, mas vacilou diante da possibilidade do café ainda estar sobre a mesa aguardando. Preferiu não atender. Acendeu um cigarro para se distrair, como se a fumaça fizesse o toque parar. Se impressionou com as insistências e pausas do telefone. Lembrou que quando mais jovem também insistia no telefone, como se a repetição tornasse o intento realização. Quando jovem pensava que poderia salvar o mundo, tinha valores e paixões quase litúrgicas. Olhando no espelho percebe que o tempo trouxe mais que diferença nos traços, trouxe maiores incertezas. Permanece sua inquietude, seu olhar inocente - quase imaturo - sobre a fechadura da frente. A insistência agora incomoda, assim como seus fantasmas constantementes criados, esquecidos e recriados. Não pode mudar o mundo, o mundo lhe mudou. Suas paixões e valores, quase litúrgicos, hoje são percebidos apenas como letárgicos. - Alô! - Quem fala? - Não tenho mais certeza depois de tudo isso!

por Degraus (desloguilson)

17/04/09 às 10:41 - Link

A mania dissolveu e tudo pendeu para o outro polo. Extremo. A imagem desfocada da foto colada na parede: olhos de lágrima.

por Degraus (desloguilson)

18/04/09 às 18:44 - Link

Sábado, 18. Sábado é um dia definitivo. Difícil passar ileso, talvez saindo pra rua e deixando o rosto em casa. Bar, bebida, alegria demais. Sábado é dia de revisitar as palavras da Audrey. Sábado é dia de baú e palavras paralíticas.

por Regina (desloguilson)

18/04/09 às 21:19 - Link

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