ensaiou o silêncio de manhã. ensaiou música também. escondeu nina simone e john - o john a começa para triste. (ela não pode ir embora. está em estado de vigília da espera. se for embora, talvez desespere.)
lembrou-se de trazer o guarda-chuva. os fins de tarde de abril têm atração por chuvas. lembrou-se de que já está há alguns meses com o guarda-chuva. ela nunca teve um. eles têm predileção por esconderijos. tratou de comprar um grande. azul de bolinhas. não sumiria do lado direito da escrivaninha, embora já tenha sido visto na cozinha, aberto, derramando as bolinhas no chão.
a mãe não ligou. nem o pai. deve ser saudade. a mãe perde a voz de saudade. fica magoada de estar só de filha menina. o pai, quando ligar, vai dizer: "ô, cão sem dono". ela gosta. o pai diz eu te amo com alô e quando faz doce de leite encaroçadinho.
ela agora deu de perceber que está sem compasso ainda. fala demais, ri demais, tem dúvidas demais sobre o cachecol, faz perguntas, fala. talvez seja só esperança. está com olhos para o encanto do mundo.
alguém aparece vez ou outra para dizer que há degraus demais. ela acha divertido. o alguém nem não tem nome, mas sabe que ela suspira antes de dormir. ela tem gosto para edredom de algodãozinho.
está com medo do sábado. começou vigília para não doer. alguns sábados dóem. o domingo, a menina-desenho disse, é o chaplin da semana. medio triste, medio feliz. ela gosta do desajeito do domingo. acha bonito. mais ainda domingo de manhã. o pai na sala tão café, a mãe de sono, o irmão que vai trazer o cachorro, o outro irmão que dorme até mais tarde. faz tempo ela já é um tanto domingo.