
Havia passado o dia todo cansada. Não sabia exatamente o motivo, seriam tantos.
Não conseguia se lembrar dos outros versos, bem aqueles que explicariam seu estado de espírito. Péssima memória.
Lembrou-se da amiga que inspirava palavras. Associação perfeita para vir os lamentos de Poe.
Moveu os lábios de leve, como se declamasse rezando para si mesma:
"From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;"...
O farol abriu, o carro andou alguns metros, mas logo não havia mais espaço. Na calçada, amendois caramelados eram preparados. Cheiro de mãe.
"...And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,..."
Sentiu os olhos do motorista surpresos pela fala inesperada. Riu e continuou:
"...From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view."
- É uma música, moça?
- Não, moço. É o que toca aos nossos ouvidos de tanto tão só que somos.
por Degraus (desloguilson)
22/05/09 às 14:51 - Link

Chegou ao destino. Pagou o taxista em dinheiro, apesar de achar caro. Mas ao médico, deve-se ir de taxi.
Na sala de espera apresentou-se à recepcionista. Olhou duas ou três revistas velhas, assuntos atuais.
Em frente ao doutor, calou-se. Como poderia dizer qual era o mal? "Sou uma pintura. Uma tela."
- O que te trouxe aqui?
- Sou uma pintura, uma tela.
- Assinada por quem?
- Magritte?
- Deixe-me olhar bem dentro do seu ouvido! (Depois de um riso tímido, continuou) Não é um Magritte! Nem uma tela.
- Não? Como sabe?
- É um livro.
- De quem? Qual?
- Calma! Para isto precisamos fazer alguns exames. Enquanto isto, tome pílulas de saudade e duas colheres diárias de confiança! Vai se sentir melhor.
- Tudo bem. Mas e os exames? É coisa séria?
- Não. O que desconfio que tenha é algo bem simples. Para comprovar, faremos apenas uma radiografia.
- Na cabeça?
- (Risos) Não, moça, nas suas belas palavras.
por Degraus (desloguilson)
23/05/09 às 10:28 - Link