Enfim, a montanha russa. Hoje é sexta e, não sei se por isso, os metrôs da Sé (o entroncamento mais absurdo que já vi) estavam meio vazios. Sorri com a possibilidade de um banco para me sentar durante o trajeto. Havia um apenas, mas um velhinho que adentrou o vagão olhou singelamente para o mesmo banco que eu estava cobiçando. Fiz sinal para que ele se sentasse, então. Escutava o Samba De Uma Nota Só, venerando as belas paisagens sonoras que só o Tom sabe construir em mim. O metrô parou dentro de um túnel, comando dos computadores das máquinas, que devem sempre fazer o trem chegar nos segundos exatamente calculados, partindo frio, sem dizer adeus a ninguém. Ali, dentro do túnel, meu coração disparou. Me descompensei ao imaginar que estava a, no mínimo, três níveis abaixo do solo, por vezes andando por baixo de rios, praças, edifícios. Penso: - meu deus, como pode isso?! Minhas pernas começaram a tremer, olhei ao redor e vi que as pessoas continuavam com suas caras blases e sonolentas, algumas cochilando, outras lendo, outras divagando. Meu estômago se contorceu mais uma vez e senti a pressão baixando, abrindo as portas para o espírito ir embora dali. Um quase desmaio e o medo de perder o controle de mim mesma me fez relembrar dos tantos casos de síndrome do pânico que atendi durante a faculdade e do quanto é sofrido temer não se sabe o quê. Me senti envergonhada, abalada, torpe. Quis gritar, correr, ver o céu, o dia, conversar com alguém que fosse humano. Nos últimos dias tive duas crises nervosas que devem ter destruído meu corpo, porque acordo dolorida todas as manhãs e não paro de pensar no quanto é ameaçador morar no centro da cidade. Vejo todas as noites os mesmos guris pipando crack e observo as viagens deles de longe. Vejo gente sendo golpeada, saqueada, espancada, assaltada. Ando tendo medo de tudo, inclusive de coisas que mal imagino o que sejam. Tenho medo de mim, de minha falta de controle diante das situações em que não agir é o melhor - e talvez tenha medo de começar a odiar essa cidade. Estou cindida pela revolta com relação às coisas que vejo nas ruas e o desejo de permanecer aqui, porque - pode parecer estranho - amo a vida aqui. Estava demorando para eu cair do penhasco, demorou para eu perceber que meu destino custa pouco para tantos riscos. Chego em casa e vejo que as baratas passaram a tarde festejando, enquanto meu namorado me abraça perguntando como foi o dia e o porquê do meu senho constantemente franzido. Queria poder dividir com alguém todas essas discrepâncias que vivo em curtos espaços de tempo, esse medo, o coração que dispara e quase me faz enlouquecer. Hoje é sexta e durante o fim de semana pretendo me transportar para outras paisagens, passear, ver as pessoas saudáveis correndo no Ibirapuera, curtir o sol, tomar água de côco, talvez ir ao cinema ou visitar os amigos. Domingo vai ter um show do Trilobita (aff, ok, "Trilöbit") perto de casa e talvez eu vá. Quero estar em paz e resgatar minha rotina tranqüila, talvez fazer ioga e sem falta um tratamento para a coluna, que anda com problemas graves. Quero cuidar de mim, mas está tão difícil... estou rodeada de possibilidades, tenho dinheiro, trabalho, tenho um apê que amo, tenho um amor, há os amigos, a família, a psicanálise, as fotografias, meu caderno de escritos, a ficcus golden que a gente comprou... mas não estou em paz, porque me sinto frágil, muito frágil, e incapaz de resolver isso que eu nem sei o que é ainda.
Um brinde à bela realidade que me chicoteia, impiedosa.
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Samba De Uma Nota Só - Tom Jobim.