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Hoje ela voltou a ser Maria-Ninguém. Voltou ao envólucro melequento e quente da busca pelo não-se-sabe-o-quê. Hoje ela voltou a ser a que não pega metrô diariamente e não se recrimina por ensaiar passos de dança de boate na escada rolante. Maria-Ninguém é mulher florida que acorda para o mundo, não para seu umbigo. É daquelas que, quando o outono chega, já se enfeita com um cachecol de crochê e põe no sorriso uma pitada de alegria por estar, ao menos, viva, porque espera simplicidade das pessoas. Certo dia Maria-Ninguém se perguntou por que é que as pessoas lutam tanto para serem livres – financeiramente, significaria "ter sucesso", afetivamente poderia ser "encontrar um amor (ou não amar ninguém)", espiritualmente poderia ser a percepção de fazer realmente parte do universo. Essa mulher, a Fulaninha, como era carinhosamente apelidada pelos colegas de trabalho – um gato, um computador e milhões de pensamentos que voavam pelo turno -, queria impedir o movimento da vida, que, inevitavelmente, arrancava-lhe os cabelos: para que a pressa, se a mola propulsora da vida é saber onde se pisa, para que o acerto seja nada mais que o resultado, não o início? Maria-Ninguém nunca compreendia como tanta gente pode lutar para se ter o mínimo de dignidade, se não se consegue, ao menos, saber lutar.... e seguia com os olhos fixos na janela do ônibus, ao fim de seu último dia de trabalho naquele escritório, sentindo o outono nos cabelos e o olhar esfriando como a cidade. Queria apenas ser livre à sua maneira: ser leve, amena, fluida. Fazer de conta que a selva de concreto é apenas um dia de temporal. Livre de seus próprios pensamentos.
Não Mais
(Pato Fu)

Vou Parar, ficar aqui
Não olhar, ver você assim
Não vou morrer, não vou matar
Nem sorrir, nem ao menos vou chorar
Por você, por ninguém
Nem por mim

Deixe estar, que tal mentir
E guardar, o melhor pra mim
Não vou morrer, nem sequer me abalar
Nem sorrir, nem ao menos vou chorar
Quando você, não mais, não mais
Não vou morrer, nem sequer me abalar
Nem sorrir, nem ao menos vou chorar

Mas acredite, meu coração ainda sabe fingir
Por alguém, que é ninguém, que é ninguém
Por alguém, que é ninguém, pra mim
*

Comentários

"...que acorda para o mundo, não para o seu umbigo". U-a-u!

por salome

23/03/07 às 06:34 - Link

Amei!! Manda seu endereço pra mim no meu e-mail. Que saudade de vc...

por pati

26/03/07 às 12:38 - Link

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