Lendo alguma coisa sobre escultura, veio aquele lance de clarividência: a resposta da escultura está justamente onde a forma mais falta. A forma brota no vazio.
Ou, como disse meu amigo de fé, meu irmão camarada Bachelard: "Brotar é hesitar em sair".
Tudo bem, isso da forma estar no vazio já foi falado pelo Michelangelão há séculos, mas o fato é que eu nunca tinha atinado para esse fato na forma sólida da escultura.
Já tinha sim pensado muito sobre isso na literatura, já tinha escrito artigos, ponhado na minha tese e etc.. e etc... e talzis, mas com a escultura...
Daí é aquele lance de conexão que só a gente mesmo memyselfandI entende e por isso eu amo o Crarice: ela consegue transcrever esses momentos de introspecção como se tivesse passando por cima do muro uma receita de bolo pra Valdirene. Porra, quando ela fala no Água viva que quinta-feira é um dia translúcido como asa de inseto, juro, eu fiquei: "Mas que féla da puta!".
Vou tentar bancar a féladaputa também e descrever isso da falta:
A escultura só toma forma onde a mão, guiada pelo intelecto, alcança o vazio. É do bojo do vazio que vão rebentar os pássaros da forma. Do vácuo.
Na vida: é na ausência que a gente (se) consuma. A vida não tá nos high moments, não tá na festa, na celebração planejada, na compra do item XYZ melody turbo, nem no rapar os pêlos das pernas pra furunfar com o cara do furo no queixo. A vida não tá no emprego conquistado, não tá no salário bom, ná tá na incrível entrevista com o homem que salvou a menina prestes a se afogar tampouco no umbigo da pessoa que conduziu o teu ônibus por mais de dezessete horas.
A vida tá no que não é.
Agora mesmo conversando com o meu pai, a gente revendo uma fita véia pá caráio de momento familiar, coisas que a gente só percebe now... Engraçado como o meu avô estava então surdo, mal escutando o Parabéns pra Você. Cômico demais o meu tio Tim Maia cover quase caindo no bolo, de tão alcoolizado...
Ai, a felicidade é um troço tão simples. Não sei porque o povo vende tanto livro de auto-ajuda. A felicidade tá é na camiseta manchada de catchup caído do cachorro-quente às 3 da tarde numa esquina da cidade e você maldizendo "caráio, como será que a porra da mancha sai...".
Viciei nessa música:
http://www.youtube.com/watch?v=LbC4Vbdgwds&feature=related
O Candeia é do caralho!!!!
Viva Candeia!!!!!
Parte 1 - Vai naiscêno...
http://www.youtube.com/watch?v=VgyWsFf89EI&feature=related
Parte 2 - Naaaaa vadiagi!
http://www.youtube.com/watch?v=6bvamyfqBRo&feature=related
Parte 3 - "A roda de samba é um momento de liberdade" (Paulinho...)
http://www.youtube.com/watch?v=vGOeqzlBruc&feature=related
Assim, esse poema...
O Drummond tava pussuído, ah! tava!
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.
Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
TIVE UMA FREBRE TERÇÃ,
MAS A MORTE NÃO CHEGAVA.
FIQUEI FORA DE PERIGO,
FIQUEI DE CABEÇA BRANCA,
PERDI MEUS DENTES, MEUS OLHOS,
COSTUREI, LAVEI, FIZ DOCE,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
Obs: As estrofes em caixa alta, pra mim, são umas das mais bonitas que já li num poema. Na vida. E tá falado.
“A areia pode lavar (...)
qualquer espécie de pecado;
na ablução ela flui como água,
dissolve o mal mais empedrado”
(João Cabral de Melo Neto em ´A Água de Areia´)
Há lugares que pisam em nossos espíritos, deixam a marca profunda de sua geografia, seu povo, suas ruínas, seu cheiro e seu céu. Esses lugares são sagrados porque tudo aquilo que mora na memória do coração é sagrado, como seio de mãe amamentando a cria, como sopro de criança, como manga escorrendo pela boca em dias de sol. Os lugares são o espelho do ontológico – quem sabe a alma já não andou por tais cantos, quem sabe o campo de girassóis avistado da janela do trem já não fez parte de mim?
Quando criança imaginava terras infinitas, terras de pedra onde cachorros e meninos corriam sem destino, onde não havia carros nem faróis; onde rochas se transformavam em cavernas, santuários, girafas, cordeirinhos, anéis e livros. Pedras que serviam como o diário do homem-pedreiro.
Pego-me pensando em pedras. Elas sempre me acompanharam sem que jamais tivesse atinado para esse detalhe fundamental de minha existência. Quando parti do Brasil não sabia o que iria encontrar na Turquia: em meus poros etéreos esperava sentir um país solar como no poema de João Cabral: “Daqui, se vê o sol / não nascer, se enterrar (...) / não salta como nasce: / se desmancha no mar”. Uma Istambul desmanchada no Bósforo, com suas ruas tumultuadas de gente, comida, bondes e cores. Homens pigarreando, homens belos como o Davi de Michelangelo, taxistas voando no trânsito caótico, mulheres azuis, mulheres de cabelos negros preparando a massa do pão que me alimentou, vitrines de doces, roupas, sapatos, chapéus, tapetes, estrelas. A Turquia é uma estrela enorme.
Nas madrugadas de Istambul despertava com a languidez do canto vindo das torres das inúmeras mesquitas. Chorei, chorei choro seco como a chuva diante da magreza do sertão.
Mas ainda que Istambul me tivesse cravado suas cores e movimentos, ainda que meus pelos e minha pele tivessem sentido a água quente e calma jorrando no mármore do banho de Saframbolu, nenhum outro lugar pode ser comparado à descoberta da Capadócia por meus olhos, minhas pernas e minha luz. A Capadócia é a terra perdida dos meus sonhos de infância. Enfim a terra de pedras existia!
* * *
Eu, Juliana e Rajaiea partimos de Ancara na noite de sexta-feira, com destino a Goreme, localizada no centro da península de Anatólia, na província de Nevsehir. Nevava muito e confesso que ficamos com medo do ônibus não agüentar o mau-tempo; estávamos receosos de que nossos planos de viagem fossem prejudicados pelas péssimas condições climáticas. Contrariedades à parte, metemos o pé na estrada seguindo o conselho do mestre Dominguinhos: “Quem me levará sou eu”.
Dormimos um sono pesado como pedra (acho que logo no início da viagem sofríamos a metamorfose: - agora rochedos de espumas e lilás). Sim, pois certamente nos petrificamos ao entrarmos na Capadócia – do mesmo modo que nos transformamos em água quando em contato com o Atlântico; do mesmo modo que nos tornamos sol nas praias de Coqueirinho e de Luanda.
Chegamos. Ao acordarmos o vazio: um branco avassalador, um branco de neve; lágrima de gigante. Toda a terra, todo o solo, todas as pedras, árvores, casas e pássaros escondidos sob a neve. Aquele foi o despertar mais branco da minha vida.
O susto do branco dominador nos impulsionou a buscar um alojamento o mais breve possível. Fazia muito frio: meus lábios rachados, o nariz nu de Juliana e as orelhas desprotegidas de Rajaiea não suportavam a nevasca faca que cortava o parto do dia.
Encontramos um hotelzinho barato: “Moonlight”. Como a pousada montada em uma antiga habitação troglodita - que inicialmente planejávamos ficar - estava lotada e como não tínhamos dinheiro, tal opção foi a mais conveniente. Três camas distribuídas em um quarto, cobertas velhas porém limpas, cortinas claras, telefone redondo – retrô – daqueles que minha avó tinha em 1970. O abajur de miçangas, o teto remendado, os móveis inertes pelo tempo e pela distância com o mundo real – mundo de gás, lixo, tráfego, pontes e revistas. Na Capadócia o mundo pára. Na Capadócia a manhã rebenta em cores sublimes... E quando percebemos... a neve havia ido embora, como se todo aquele branco fosse só o casaco da noite. Pois a neve se foi!
Nós três sorrimos. Então a manta que cobria as pedras começou, gradualmente, a voltar ao bucho do gigante Adamastor e entendemos a mensagem do sol: deveríamos caminhar humildes e alados como a rês no pasto e abraçar as rochas, venerá-las como as mães seus filhos quando retornam da guerra; amá-las como os dedos dos pés amam tocar a areia molhada; desejá-las como biscoitos de chocolate nas mãos ansiosas dos meninos sujos de brincar.
Descemos a escada do hotel e partimos em nossa jornada. Nem carro, nem motoneta, bicicleta ou caminhão: nossas pernas eram as máquinas que nos conduziam na terra de pedras. Começamos a travessia no vale de Goreme. A estrada (já sem neve) magnetizava nossos pés ao alto: pedras enormes, pedras poéticas, pedras claras, pedras que na verdade não eram pedras. O relevo da Capadócia é caracterizado por diversos tipos de paisagem: planícies de resíduos vulcânicos, superfícies de montículos, corredeiras e os interessantes polígonos que formam uma cobertura basáltica conhecida como “chaminé de fadas”. Entretanto, pouco me importavam as explicações dos fenômenos erosivos do local. A voz do vento me ensinava a verdadeira geologia, sussurrando em meus ouvidos: “Tá vendo aquele rochedo, lá, ao longe, isolado das árvores e dos animaizinhos? Na verdade não é um rochedo: é um coelho de orelhas longas. E estas outras pedras, aqui, bem próximas? São as mãos de crianças que acariciavam o ventre da mãe terra. Não se engane porque na Capadócia toda pedra é viva, inanimada apenas aparenta. E é na Capadócia que se aprende a essência da vida: não está na forma, mas na alma de tudo aquilo que exala existência”.
Percebi então que quanto mais caminhávamos mais nos apaixonávamos pelo assombro do cenário. É claro que não posso falar por Juliana nem por Rajaiea, todavia senti que eles estavam tomados de amor no regaço. Estávamos todos apaixonados pela Capadócia. Havíamos nos tornado filhos daquela geografia, nascidos e batizados no momento infinito em que pisamos na terra.
Rajaiea é muçulmano. Juliana e eu somos católicas (eu só de batismo. Sou filha de Iansã, mas não ligo pra nada de nada. Eu acredito mesmo é na astronomia). De qualquer forma, equação espiritual alguma importa na Capadócia. Ali não há Maomé ou Cristo; não há profetas, Alá ou Deus magnus: há somente pedras e as pedras justificam-se em sua existência divina. A origem da pedra é seu próprio paradoxo: de tão concreta cristaliza-se em sagrada, imbatível e eterna. Só a mão do vento a vence.
No percurso, dois meninos trajando farrapos coloridos e acompanhados por um cachorro pulguento – como em minhas visões de infância. Eles corriam, mergulhavam como lambaris velozes nas cavernas, escondiam-se um do outro, gritavam canções de meninos e ecoavam a vida. As pedras amam os meninos porque eles são os cavalinhos-de-deus da Capadócia.
A trajetória – lá se iam meus pés, arreia! Já podia ver as montanhas! Desejava penetrá-las como o homem a mulher amada, como os peixes a boca do tubarão, como o bico do beija-flor em ato de extrema-unção com a planta suspensa. Desejava penetrá-las e amá-las como Sherazade sua noite derradeira. Àquela altura fomos consumidos pela certeza de que as pedras não são assexuadas: elas são tão longas e majestosas em suas cavidades quanto perna de bailarina, são tão piedosas e formosas em suas ancas quanto corpo de grávida, são tão viris e vistosas quanto braço de marinheiro alçado em alto-mar. As pedras nos amam e tiram de nossos corpos os fragmentos e poeiras que delas roubamos. (João Cabral invadia novamente meus pensamentos e seu espírito de luz me cantava: “Tem de entrá-la, pois só dentro / inteira se revela”).
Tomamos o seu conselho. Já próximos às cavernas-capelas trocamos olhares e suspiros, concordando que são a evidência mais sublime de vida por estes cantos do Oriente. As cavernas e monastérios de rocha são como o diário de um homem: o homem-pedreiro como Aleijadinho, o homem-carpinteiro como José, o homem-avião como Niemeyer, o homem-bússola como Colombo. Em suas paredes mesclam-se ícones pré-históricos e afrescos de santos. São Jorge em seu cavalo, o anjo Gabriel, o Cristo na cruz. Cavernas grávidas de pinturas, cavernas iluminadas com desenhos traçados por mãos sedentas de sua anatomia singular. E já tão vivas nunca imaginei que pudessem ser também a casa de São Jorge e de um terreiro inteiro de Iemanjás, Exus, Odés, Oguns, Iansãs, Xangôs e pretos velhos sambando o batuque do santo que é protetor dos fracos e oprimidos. (Na Capadócia Gabriel, o anunciador; e Xangô, o orixá do fogo, são gerados no mesmo ventre).
Ao penetrar as cavernas, entendemos que não podíamos mais voltar a ser os mesmos filhos do ontem, sentados na poltrona do ônibus. Já não era a irmã de Juliana nem a amiga de Rajaiea. Quando um vai à Capadócia nasce de novo: “sou guerreira de Jorge, guiada por Gabriel e protegida pelo raio de Xangô e em meu cavalo-tempo faço andar tudo”.
Já pedras de pai e mãe, decidimos continuar a peregrinação a Zelve.
Zelve não pertence a este mundo. Zelve é um presídio de almas – o museu de tudo aberto. Ali as rochas se metamorfoseavam em arquiteturas magistrais, em extensões coníferas que nos arrastavam ao alto – sempre ao alto. O vento amigo nos beijava a face e cada nova forma fazia-se um novo entardecer. A geometria de Zelve não é somente intrigante mas um convite à ceia de Dalís febris por suas Galas desnudas; um convite ao continente incandescente dos dedos de Picasso e se um vem a Zelve certo fica de que Gaudí foi preso aqui. Sai daqui sabendo que Barcelona é parto de Zelve; só que com mar, argonautas, touros e portos.
Nesta localidade respiramos a solidão da Capadócia, pois o homem não pode com tanta imensidão e foge às vilas, aos pastos. A Capadócia é para poucos e raros homens (homens?) que ao darem seus vôos rasantes por este labirinto encontram a metade do dia beijando com ardor a metade lunar. E nossas almas também se dividem pois não há ninguém que ali entre humano e não saia pedra ou Ícaro em toda sua essência.
O dia caiu abraçando com volúpia o escuro e fomos obrigados a voltar a Goreme. O homem não agüenta a solidão noturna de Zelve, não suporta a veia aberta e estancada de sua insignificância quando em confronto com o mar de pedras – mar vivo de vísceras e nervos.
Voltamos ao hotel. Estávamos esfomeados e nos alimentamos de vegetais aquecidos e servidos em pratos pétreos – é o prato que nos come – é a pedra que se alimenta da nossa fome.
Vinte horas e trinta minutos do sábado: já estávamos em nossas camas. Juliana e Rajaiea dormiam, exaustos pois as pedras beijaram seus pés e brincaram de ondas e trampolins com seus corpos reluzentes. Dormiam.
Todos dormiam.
Tudo quieto.
Até as pedras dormiam.
Eu não. Minha cabeça não parava de processar evidências magníficas da Capadócia. A adrenalina tomava conta de meu corpo. Tremia, doía, em vão ajeitava a coberta: pensava na gente da Capadócia, singela como as rochas - homens e mulheres vestidos de rigidez e dignidade. Rigidez de um coração que não se corrompe com a maldade (Salve Jorge). Acredito que quem nasce da pedra, da pedra tira seu leite, como diz o ditado. Aprende-se a tirar seu mel. Na Capadócia as pedras são o desenho das mãos de Deus que indicam o caminho da paz e da justiça e, como artesãs, esculpem os homens à sua forma; construindo seus corações e almas duras com a mesma inabalável firmeza de seres que não se entregam à guerra, ao sangue e ao ódio. “Quisera Deus também pudesse fazer pedra o sertão fundo do Brasil”, lamentei. “Assim, se o fosse, as pedras, como cirurgiãs, poderiam criar estômagos rígidos para que a falta de comida não matasse o homem, para que o mandacaru, o calango e raro caldo de feijão pudessem ser depositados com mais conforto e menos vergonha”.
As pedras da Capadócia ensinam que a justiça pode ser virtude e não utopia. As pedras da Capadócia ensinam que a igualdade entre os seres humanos é tão natural quanto a relação entre o tempo e o vinho: ali a cor predominante é a cor de pedra; o cheiro predominante não é o de café torrado, âmbar ou jasmim – é o aroma de pedra; a música predominante não é a originada do vento oceânico, não é o canto da cigarra ao fim do dia, mas a pisada leve no chão seco e serviçal para que nossos corpos encontrem a tranqüilidade.
Voltei a mim, a minha cama e tentei cerrar meus olhos. Tinha de dormir, descansar – não podia. No dia seguinte partiríamos com destino à cidade subterrânea de Derinkuyu, construída pelos cristãos para escapar de perseguições e invasões armadas durante o século sete. Tinha de dormir, relaxar – não podia. As pedras roíam minha consciência.
Voltei a mim, a minha cama. O quarto, embora desprovido de luz própria, iluminava-se todo com a lua. A lua brilhava tanto que parecia grávida. Grávida como a Capadócia. Grávida, de cabelos longos e o peito aberto ao vento e aos dias. Nesta noite percebi, pela primeira vez na vida, que na verdade não me converti à pedra – sempre o fui. Esta era a inquietação que não queria calar e não me deixava dormir.
A verdade é que sempre fui pedra. Quando nasci não fui batizada pelo Monsenhor José Agnius com a água-benta da Santa Igreja – quando nasci sofri a ablução: as pedras vivas do amor deste mundo lavaram meu corpo como as lavadeiras lavam as roupas brancas nas ribanceiras dos rios; as pedras lavaram minha alma e me ensinaram o itinerário. E se não dormia é porque já não havia mais como voltar: “na ablução a pedra dissolve o mal mais empedrado”.
E desperta, enfim, encontrei o caminho da paz.
De novo.
Depois de alguns anos, revi.
Tenho o filme guardado aqui. Guardo com carinho, tipo brinquedo de infância.
É engraçado, mas o Amacord parece um pedaço da minha vida... A cena de todos ao redor da mesa, a gritaria típica de família italiana, a sopa antes da refeição principal, igualzinho na casa da minha avó.
A mãe neurótica, gritando que queria sumir e se matar, aquele dramalhão todo, bem típico de uma família grande como a minha.
Deu uma saudade, mas uma saudade muito boa da minha infância. Porque eu tive uma vida maravilhosa, quase tão mágica quanto na ficção.
A cena de todos no barquinho esperando pelo transatlântico é genial. Sensibilidade demais, como os sonhos em Amacord são tão ingênuos!!! Daí eu chorei. Eu vou sempre chorar de gratidão ao Fellini por isso.
Ultimamente tá um saco, ando perdendo muito tempo com idiotices. Ao invés de estudar, não, I waste my time com porquerías e tonterías das mais diversas. Vamos a elas:
1) Atualização do Currículo Lattes! (Uma tortura, um saco de fazer!);
2) 6 vias do CV pra universidade XYZ, com autenticação de 1 bilhão e quinhentas mil vias (e lá se vão meus reais nesse porra!);
3) Outras 7 vias do CV (mesma merda) pra universidade ABCDEF;
4) Postar as 200 bilhões de vias, por Sedex (daí fode mesmo porque eu já ando mais dura que pau de tarado);
5) Atender telefonemas que não são para mim, perder tempo anotando que Fulano precisa entrar em contato com Cicrano. Detalhe: a anta que me liga poderia ir direto à lista telefônica, 102, serviços digráááátis meu fio. Mas não, liga só pra aporrinhar, principalmente na hora do almoço;
6) A Fulana quer ajuda para edição e negociação do livro dela, a outra Fulana quer que eu ajude na edição (o livro tá uma merda e eu tô morrendo de medo da infeliz queimar meu nome o colocando na edição. Fia, prease, bota só nos agradecimentos). O mais engraçado é que você é ghost writer de umas antas!!!! O maior medo é que a pessoa modifique coisas do texto original e você daí se ferra. Por isso fia, bota meu nome não no teu master piece. Vou parar de ser boazinha com os outros. Querer ajudar com boa intenção só fode a gente, ainda que a verba seja destinada a instituições filantrópicas.
7) Não tem ônibus direto pra Belezoca d´Oeste, no Estado da PQP. Então a pessoa gasta a manhã toda macumunando possíveis itinerários para chegar lá.
8) Você leu, revisou já quinhentas e cinquenta bilhões de vezes o original. Manda imprimir a merda. Mais uma leiturazinha rápida e vê que caralho!, um monte de coisas erradas passaram. Imprimir tudo de novo.
9) Extamente quando você está mais do que concentrada nos estudos, mas uma voz maldita te lembra que é preciso pagar o IPTU e outras taxas. A fila do Banco do Brasil é uma coisinha mandada, acho que dá pra ter a noção do inferno com essa cena.
10) Esses sites tipo Orkut e Facebook me enchem o saco porque tem um monte de mané que na real não é seu amigo e você tem que ficar respondendo e dizendo que "anda muito ocupado e que por isso não anda mais escrevendo". Sei lá, será que essas pessoas não tem mais nada para fazer da vida do que ficar: "Oi, nossa quanto tempo! Como você está? Mande notícias!". Porra, sei lá, vai pescar, vai comprar rabanete na feira...

Penélope arrasou no Vicky-Cristina Barcelona!
O o chronic dessatisfaction??? The best melhor do mundo! Só o Wood Allen mesmo!
Vídeo das antigas... Lembrei da Janis.
http://www.youtube.com/watch?v=SuN6GaCvPOk&eurl=http://www.orkut.com.br/FavoriteVideos.aspx?uid=16418301489194945870
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.
No falar com as águas rás o
exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.
(Manoel de Barros, poeta formidável, poeta dos bichos e das águas...)
Walt Whitman é poeta do caralho.
E pronto.
In vain were nails driven through my hands.
I remember my crucifixion and bloody coronation
I remember the mockers and the buffeting insults
The sepulcher and the white linen have yielded me up
I am alive in New York and San Francisco,
Again I tread the streets after two thousand years.
Not all the traditions can put vitality in churches
They are not alive, they are cold mortar and brick,
I can easily build as good, and so can you:
Books are not men.