Devido à morte do Tipos e à falência das tentativas de ressurreição, estou montando meu
novo blog AQUI.
Façam uma visita!
Somos caracóis, somos naves.
A hora de ser feliz passa muito rápido.
Somos estradas, somos artérias.
A hora de ser feliz é tão esquiva..
Eu quero escrever um poema sobre a hora de ser feliz.
Qual é a hora de ser feliz?
É a hora das chuvas?
É a hora do sol?
A hora de ser feliz talvez seja a hora do vento.
Quem sabe a hora da tempestade.
A hora de ser feliz é um X.
Não sei nada sobre ela, mas pesquiso.
Quando a hora de ser feliz vier,
Quero estar pronto.
A hora de ser feliz é uma hora de anúncios.
É uma hora de fogos, uma hora de muitos sons.
Talvez seja a hora da música.
Vamos ver: a hora de ser feliz é uma hora magnífica.
Nela, tudo se torna possível.
A hora de ser feliz é a noite?
Mas pode ser o dia, com as claridades.
Eu acho, francamente, que a hora de ser feliz
É uma hora muito inesperada.
Ninguém vai avisar: “É hora de ser feliz.”
Eu mesmo vou ter que pressentir.
Quando a hora de ser feliz vier, quero estar lindo.
Quando a hora de ser feliz vier, quero estar muito leve.
Eu ouvi dizer que a hora de ser feliz acontece quando a gente viaja.
Não sei se é verdade isso.
Alguns dizem que a hora de ser feliz é muito colorida,
Cheia de clarões e flashes e texturas.
Mas, veja só, pode ser uma hora muito simples.
Pode ser uma hora muito pacata.
Eu arrisco o seguinte: a hora de ser feliz é subterrânea.
Quando ela vem, pega você de surpresa.
Vem devagarinho, como a brisa vem –
Quando você viu – já foi.
Por isso é que deve-se estar atento à hora de ser feliz.
Ou, melhor dizendo – deve-se estar distraído.
Uma hora ela chega - e bum! – a pessoa é feliz.
Pelo que eu já percebi, a hora de ser feliz
É uma hora muito difícil:
Não consigo pegar ela com palavras.
Talvez nem exista, talvez nem apareça,
Talvez seja agora, talvez foi ontem, talvez foi anteontem,
Pode ser que a hora de ser feliz tenha sido mês passado
Ou quando eu tinha vinte e cinco anos.
A hora de ser feliz é um Y.
Que pode vir às dez da manhã ou às cinco da tarde.
E quando ela vem, é algo que paralisa a pessoa.
A pessoa não diz nada, fica muda, só sentindo.
Quem está em volta nem percebe, nem tem idéia
Da dimensão do acontecimento.
A pessoa que vive a hora de ser feliz
Dá uma desculpa qualquer e se afasta do grupo:
Ela precisa ficar sozinha.
Porque ser feliz é sozinho.
Ser feliz só funciona sozinho.
Mas enfim: quem é capaz?
Talvez o Zero seja capaz, quem sabe?
Eu sempre achei que o Zero é uma pessoa capaz de ser feliz.
Quanto a mim, eu fico pesquisando, escrevendo
Sobre essa coisa estranha que é a hora de ser feliz.
Câmaras onde se fabrica o dia,
alturas onde se fabrica a noite.
A capa estelar que nos recobre,
a lâmpada astral que nos guia:
a órbita ao redor da qual em rodopio
viajamos:
senhores de nada e de vazio
e entretanto pomposos, laureados,
altivos como deuses,
e como deuses charmosos,
espertos, confiantes.
E criamos.
Sobre a superfície nua da pedra,
rabiscamos o calor da caça
e o êxito do primeiro caçador.
E louvamos.
Um deus que mal nos diz respeito.
E no entanto o adoramos.
Ele e o manto azul de seu filho.
Ele e a face cândida de sua mãe
e a asa lépida da pomba tripartida
e do espírito.
O que nos move?
Será a alegria arcaica extraída
do coração exposto desse deus ou
será o próprio sangue desse deus
derramado e a carne desse deus
sacrificada em holocausto?
Será o vinho vertido do corpo branco desse deus,
será a aorta desse deus que expele vinho santo ou
a coroa de espinhos que lhe lacerava a face ou
será a carne macerada desse deus e convertida em pão,
ou ainda um mero sopro seu o que nos anima?
Resta que.
Aqui pairamos.
Aferrados ao corpo,
ao corpo jungidos.
Ao corpo aguilhoados.
Aqui permanecemos,
por dentro acesos,
tesos por dentro,
por dentro fibrosos,
sanguinolentos por dentro.
É que o júbilo de aqui permanecermos, atados,
mas todavia por inteiro libertos, por demais libertos,
inscreve no portal da alma um signo ilegível:
rodamos em falso, e no entanto rodamos,
mas sem direção.
Somos flecha às cegas disparada
e não se conhece o arqueiro.
Mal sabemos se arqueiro há ou
se a flecha meramente pelo vento
iniciou sua trajetória.
Mas e o impulso do vento,
a trajetória do vento
e a origem de todos os ventos?
É certo:
no nada rodamos,
como se roda num rio que
num mar indecifrado desemboca.
Alturas onde se fabrica a vertigem
que num giro tudo desvanece ou
estradas onde se perfaz a viagem
da qual não se adivinha o rumo ou
motores onde se acumula a fuligem
que nos enegrece as ventas ou
desertos onde se fabrica a miragem ou
túneis onde se fabrica a ida e a vinda
e a vida que os tendões nos inflama
e os calcanhares unidos em prece
e os corações lacerados e as mãos
e os braços erguidos ao céu tumultuado,
e as faces perplexas, desfiguradas
e voltadas ao nada, como se do nada
pudesse sobrevir o ser alado e branco
que do inferno da carne nos salvasse
e nos conduzisse, puros, imateriais,
a um éden qualquer de doces Formas,
a um campo qualquer, mas aprazível
onde a água jorrasse da montanha
e o leite e o mel da pedra recolhêssemos.
Porém, do nada, nada provém.
Do vazio, nada se apresenta ao toque
e nada nos sustenta – a não ser a coragem
e a alegria de aqui lenta e lentamente
definharmos.
Mas alegres e sérios como sátiros,
mas ferindo o couro do tambor pagão
e manejando a flauta que nos trouxe a Hélade
e cantando em coro no cortejo do deus,
vamos todos animados pelo vinho
e imaculados pelo trágico.
Pois o trágico,
Já dizia um amigo meu,
imacula o ser.