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Especulação Sobre a Música.





Pois sim. Vejamos bem. Estou sozinho. Ou, como se costuma dizer, sem vivalma por perto. É ruim estar sozinho? Há muito tempo decidi que não. Eu sou – e digam o que quiserem – a minha melhor companhia. É claro que existem companhias raras, especiais. É claro que existe a alegria incomensurável de certas companhias que nenhum prazer da solidão substitui. Mas estas, como é próprio das coisas raras, não estão sempre à mão. Pois bem. Bebo uma cerveja. Como diria Baudelaire (e eu sempre lembro dele nessas horas): Enivrez vous: de vin, de poésie ou de vertu – à votre guise. (Embriaga-te: de vinho, de poesia ou de virtude – ao teu gosto). Obviamente, além do vinho, da virtude e da poesia da palavra, existe a poesia do som, que é a Música – e este é o ponto-chave do texto que ora escrevo. A Música. Eu descobri, no últimos tempos, aquilo que, na Alemanha, um certo filósofo bigodudo, no fim do século XIX, já dizia – “Ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum” – ou, na língua que ora nos serve, “ Sem música, a vida seria um erro”. Discordem ou concordem – é a opinião do bigodudo e é a minha experiência. E o que é – pode-se perguntar – a Música? Como conhecer algo como a Música? É possível conhecer a Música? É possível, no fim das contas, conhecer alguma coisa? E aí intervem de novo o bigodudo (que não chamo pelo nome porque ele já cansou de ser citado). Diz ele que não, não conhecemos nada, apenas descrevemos as coisas. Me diga você, que ainda está lendo este texto esquisito: você conhece alguma coisa? Ou apenas descreve as coisas com palavras mais ou menos adequadas? Seja sincero. Você não conhece nada, reconheça. Você apenas circunscreve as coisas usando um código chamado linguagem. Mas quem é que garante que tal código corresponda diretamente às coisas assim codificadas? Ninguém garante. Digamos, por exemplo: a cerveja. O que é a cerveja? Uma bebida feita de extratos vegetais, com certa graduação alcoólica, vendida em larga escala no Ocidente. Isso diz alguma coisa? Estamos descrevendo a cerveja. Como conhecê-la? Bebendo, dirão alguns. Pois bem: gelada, amarelada, gaseificada, mais ou menos amarga, mais ou menos espumosa, mais ou menos frutada. É uma descrição, ainda que mais íntima. Mas ainda é uma descrição. Mas voltemos à Música. Por que eu insisto nesse ponto? Porque eu estou seguro de que a Música (e sim, sou horrivelmente chato e só chamo de Música uma pequena parte dos fenômenos sonoros que nos cercam) é o instrumento privilegiado para conhecer. Não sou eu quem diz, é Schopenhauer – quaisquer três acordes de Brahms superam qualquer artimanha da Razão. A Música é a ligação direta com o incognoscível porque independe da palavra. Seja então: posso ler um grande tratado de Oceanografia, mas saberei mais sobre o mar ouvindo “La mer”, de Debussy. Sim? Alguns discordarão. De qualquer forma, ouvir “La mer” é uma das experiências mais estonteantes da minha vida inteira. Digamos também que saberei muito mais sobre a força e a coragem ouvindo a “Eroica” de Beethoven do que lendo quialquer outra coisa que fale, em palavras humanas, sobre força e coragem. Ou saberei mais sobre a alegria ouvindo Mozart. Ou – para chegarmos ao ponto extremo, ultra-humano: saberei mais sobre Deus ouvindo as Suítes Inglesas de Bach (ou qualquer outra coisa de Bach) do que revirando qualquer compêndio de Teologia. Sim, diz alguém que a música de Bach, não sei onde li, é tão parecida com Deus. A Música, portanto, um instrumento metafísico? A única forma de conhecimento livre das amarras condicionadas da linguagem verbal? Sim, eu digo. Não, alguns dirão. E assim ficamos nós.



PS: por fim, o disco de Nelson Freire tocando Debussy é assombroso. O Brasil tem, quiçá, o melhor pianista do mundo e não sabe.

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