Miranda, o folclórico Miranda, amigo de sinuca do meu pai, bom de copo que era, não gostava de pedir a saideira. Quando muito, e se inevitável fosse, ordenava ao dono do boteco: “Ô Roberval, vê a penúltima!” E acrescentava, como se não soubéssemos: “A última, só na morte”.
Fiel à tradição do insigne sinuqueiro, e conservador de carteirinha que sou, direi que este é o meu penúltimo post no Tipos. “No drama/ No no no drama”, como diria a Fergie (nunca citei a Fergie; seria muito óbvio citar João Sebastião agora).
O amigo Marcos Gouvea citou Kierkegaard outro dia para apontar a diferença entre recordação e memória. Memória é a faculdade cerebral, mecânica, racional. Recordação, como a própria origem do termo indica, é do coração, onde o supremo Aristóteles via a sede da inteligência. Futuramente, o Tipos poderá não estar em minha memória (depende se o Moraes vai liberar os arquivos, e se eu terei competência técnica para guardá-los), mas certamente estará em minha recordação. Durante os últimos anos de minha vida, o Tipos foi um amigo do peito. Um inimigo, às vezes. Mas sempre do coração. E a norma do Homem era exatamente esta: amar até os inimigos. Foi o que fiz, o que faço.
Comecei em 29 de maio de 2003, no extinto, subalterno e não pranteado Mundo Paralelo (uma espécie de Série B do Tipos da qual ninguém se lembra, exceto o Zero). Meu primeiro post, já prenunciando a pseudice vindoura, era uma crônica intitulada “Manifestas a loucura”, que eu já havia lido em meu (também extinto e não pranteado) programa de rádio. A crônica terminava assim:
"E de uma coisa podes ter certeza. Manifestarás de vez a loucura assim que chegares ao final do primeiro post do Briguet.”
Manifestei-a, e quase diariamente. De lá para cá, deixe-me ver (ouçam os murmúrios de cálculo e os dedinhos de soma), foram seis anos e cinco meses, e, se não publiquei em média um post por dia, cheguei perto disso. Fui um dos campeões do Tipos em quantidade e regularidade. Em qualidade? Deixo que as futuras gerações deem seu implacável veredicto. A modéstia me impede; mas não é bom exagerarmos na humildade, porque para cada virtude cristã há um pecado capital correspondente. No caso da humildade, é a soberba. Neguinho muito modesto em geral está querendo atrair confete. E isso é pecado. Capital. (Por falar em capital, apesar de todo meu liberalismo, não acumulei nenhum nestes anos. Só barriga.)
Apesar dos arranca-rabos, fiz muitos amigos por aqui, embora alguns deles não possam ser colocados na mesma sala. Inimigos? Digo orgulhosamente que saio do Tipos sem nenhum inimigo de verdade. Briguei aí com o Marcião, com a Margo (me ligou outro dia, e foi um gentleman), com o pessoal do Vaca, mas tenho um verdadeiro carinho por eles, e até admiração por certas coisas que eles escrevem quando inspirados. Note-se que briguei muito mais com o duplo virtual dessas pessoas do que com elas próprias. Se quisessem, poderiam ser meus amigos de mijar de porta aberta, de abrir a geladeira em casa. Até o Pauno Francis gostaria de mim, se me conhecesse. Eu não sei quem ele é, ele pode saber quem eu sou: um cara simpático, de verdade. Mas sem sexo, por favor.
Por várias vezes prometi não discutir política, e sempre, sempre voltei atrás na promessa. É que é impossível. O país é foda, o Estado é a merda superfaturada.
Que se dane a política. A grande qualidade do Tipos era a informalidade, o diário aberto. Neste blog vivi publicamente alegrias e tristezas: a Quinta Sem-Lei, as ressacas de Neosaldina, a Esva, o namoro com a Rosângela, o rompimento, o casamento, a morte da Vó Maria, o nascimento da Liz, a perda do primeiro filho que eu e a Rô esperávamos, a morte de meu pai. De 2003 para cá, só não mudou o Lula – e a minha absoluta incompatibilidade com tudo que ele representa (apesar de eu imitar muito bem a voz do cara).
Obrigado, Moraes. Acho que você merece um obrigado, e não lamúrias ou dedos em riste. Aguentou-nos esse tempo todo, e nos últimos anos deve ter sido difícil, porque parecia não gostar mais da brincadeira. Mas também digo obrigado a vocês todos: Tanga (um gênio), Ygor (um talento invulgar, escritor de primeira), Zero (o melhor blog do Tipos de todos os tempos), Janaína Ávila (minha melhor amiga de Tipos), Rubão, Gibedendo, Fabebum, Reverendo, Anzol, Maneco, Margo, Lúcio Flávio (sen-sa-cio-nal), Guilherme Mendes da Costa, Helena Cogumelo, Daniel, Vivi, Bastardo, Vidal, Bala, Janaína Garcia, Gabi, Paula Schutze, Zaratustra, Ester Falaschi, Deise Warken, Margo, Grimaldo, Preto, Pafu, Marcelo Rocha, Silvia Rocha – e vou parar aqui, com quatro amigos de longa data, porque devo ter esquecido muita gente. Não fiquem ofendidos. Li todo mundo e me diverti bastante. Ah, já ia me esquecendo da Marina Dias - praticamente a última grande revelação do Tipos. Menina de ouro.
E de uma coisa podes ter certeza. Manifestarás de vez a loucura assim que chegares ao final do penúltimo post do Briguet.
O resto não é silêncio; é outro blog.
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tchau
Ele é isto que nos faz acordar assustados no meio da madrugada para fechar as janelas quando o vento balança os vidros, com voz de barítono angustiado. Ele é anterior ao vento; é quem fabrica o ar que enche as veias da brisa e do furacão. Eis o pai, eis o coração do vendaval.
Foi ele quem construiu as nuvens, colunas gregas cinzentas de uma lógica assimetria. Poliglota e alfarrabista, ele domina o alfabeto das marés e dos sertões, secundado por um lugar-tenente, a Lua.
Não adianta insistir: ele nunca mostra sua verdadeira face; tudo que enxergamos é o rosto anterior; tentar ver o seu rosto é como secar um gelo a pano, apagar um incêndio com nitroglicerina, riscar um nome sobre a água.
Ele tinge nossos cabelos de prata; esculpe nossas rugas com precisão de joalheiro chinês; empurra nossas costas para que andemos curvados; apaga números de telefones e nomes de antigos colegas; obriga a beldade a virar ruína; transforma o espelho da sala no rosto de nossos pais; encerra festas e churrascos que estavam ótimos; e, sem qualquer aviso, faz-nos acreditar que já vivemos esta cena antes.
Se ele parece te abandonar durante o sono, meu amigo, não sejas tolo, não confies em teus sentidos! É no sono que ele age com maior crueldade e rapidez, enquanto teus olhos só têm olhos para dentro. Sorrateiramente, ele faz o teu coração bater menos; e a tua mente esquecer mais; e cumprir-se o que vai escrito em tua mão. Um dia, precisarás das pernas, e elas não mais servirão. Chegará o teu dia. Já não poderás fugir.
É ele que faz esquecermos as fichas telefônicas numa gaveta da qual jamais sairão. É ele quem torna mais baixos os pés-direitos de tua infância. É ele quem te cega como a um Demócrito sem sabedoria, quem arranca tua pele como a de um Jó que fosse injusto.
E se as gotas começam a cair como canivetes abertos, como pedras arremessadas contra um pecador, como balas de fuzil no crânio de um inimigo do povo – não te esqueças: ele é o eletricista dos raios, o pintor da escuridão, a fonte das enxurradas.
Tu tens duas mãos; ele tem milhares. Tu tens cinco sentidos; ele tem todos. Tu tens dor; ele é a dor. Tu agregas; ele dispersa. Tu és escravo; ele é patrão. De repente, ele conduz quem amas com a facilidade de quem fecha uma janela.
Um dia ele quebrará estas vidraças, arrancará estas telhas, arrombará esta porta, entrará nesta casa, rasgará estas vestes, roerá estas cobertas, engelhará estas peles, choverá sem parar durante 40 dias e noites. Diante do espelho em cacos, verás um sorriso que não é mais o do teu pai, mas também não é o dele.
Ele encheu as tuas veias; ele armou teus ossos; ele soprou teus pulmões; ele carregou teu corpo na correnteza do grande rio. Mesmo assim, ele não sabe aniquilar o que de fato és. Chegará o teu dia? Chegará. Poderás fugir? Não. Acalma-te: não será preciso. Ele nada pode contra quem o inventou.
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Há gente revoltada com o novo escândalo da Câmara de Londrina (um vereador foi preso sob acusação de peculato). Mas espere aí: não foi essa mesma cidade que elegeu Belinati, e, mesmo tendo visto a besteira que fizera, logo em seguida elegeu Barbosa Neto? Há os que aprendem com os próprios erros; os que aprendem com os erros dos outros; e os que não aprendem com os próprios erros nem com os alheios. Londrina está no último caso.
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escândalo
Quem, eu? é o ótimo título de uma autobiografia do poeta José Paulo Paes. Mas a expressão também pode ser usada para designar o fora que este cronista – que é Paulo, mas não é José, nem é Paes – comete diariamente. Sou perito em cumprimentar pessoas que, na verdade, estão cumprimentando alguém logo atrás de mim. Vivo retribuindo tchauzinhos, sorrisos e acenos que se dirigem a terceiros.
Quando menciono terceiros, recordo uma expressão latina que meu pai costumava usar de vez em quando: tertius. Certa vez, por engano, ele trouxe para casa um guarda-chuva que não era o nosso. Outro sujeito deve ter levado o nosso guarda-chuva; esse homem desconhecido era o tertius. Nunca mais vimos o guarda-chuva original.
Meu pai dava aulas de latim e matemática na juventude para sustentar os próprios estudos. Aprendeu a nadar em açude; só veio a conhecer uma piscina aos 18 anos. Depois ele me ensinou a nadar e a jogar xadrez. Quando morávamos em São Paulo, ele costumava me chamar para uma partida de xadrez depois do jantar. Eu sempre perdia. Sempre. Que eu me lembre, só ganhei uma vez; mas acho que nesse dia ele deixou.
Na infância, como quase todo moleque, eu alimentava veleidades de ser centroavante de futebol. No dia em que estava prestes a tentar uma “peneira” no clube da cidade, meu pai me entregou uma bola e pediu para fazer algumas embaixadas. Não cheguei à terceira. “Como é que você quer ser centroavante se não conseguem nem fazer uma embaixadinha?” O realismo de meu pai livrou-me de passar vergonha na frente dos outros.
Às vezes acho que escrevo unicamente para não passar vergonha. Se a crônica não me faz ficar constrangido, já fico satisfeito. O problema é que raramente eu não me envergonho do que escrevi.
O amigo Marcelo Rocha me ligou para dizer que assistiu ao trailer de “Lula, o filho do Brasil”. Rocha garante que o Lula do filme está exatamente igual ao das minhas imitações. Então, tá. Mas eu gostaria de imitar melhor o Silvio Santos; minha imitação fica bastante aquém das do Fábio Luporini e do Marcelo Adnet, dois mestres da arte do arremedo humorístico.
Mas há personagens que é melhor não imitar. Por exemplo: vereadores londrinenses que passam gel no cabelo. Retribuo a tchauzinhos, sorrisos, acenos; mas, imitando a pessoa errada, eu poderia passar vergonha respondendo a uma voz de prisão.
– Quem, eu?
– Não, não é você. É aquele vereador ali.
– Ah, bom.
Será que a notícia sairia com destaque no jornal Enxada News?
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Olho-te de frente, morte,
e sei que não tens domínio.
De doença ou assassínio
não me preocupa a sorte.
Sorrio-te, ora, culpa,
pois meu arrependimento
é mais forte sedimento
que tua areia repulsa.
Abandono-te, pecado,
como um tolo inimigo
pelo qual oro calado.
Espero-te, lenta graça,
enquanto sem pressa sigo
pela rua que não passa.
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Perdi a crônica que estava escrevendo. Esses problemas de computador confirmam a tese de que software é a parte que você xinga e hardware é a parte que você chuta. Mas não xinguei nem chutei: apenas escrevi outro texto, que vem a ser este.
Em questão de segundos, uma dezena de parágrafos sumiu como água que escorre entre os dedos. Que remédio? Desamparado pela memória do computador, servi-me da memória convencional para substituir o texto perdido.
Ora, direis, no tempo da máquina de escrever nada disso acontecia. Lembro-me de ter passado uma noite inteira, na época da faculdade, datilografando um trabalho para ser entregue ao professor Eduardo Judas Barros. Quando cometia algum erro – e os erros foram ficando mais numerosos na medida com o avanço da madrugada –, lançava mão de um produto chamado Errorex, ancestral remoto dos atuais corretores de texto. Hoje conheço jornalistas que nunca viram máquina de escrever.
O grande Sófocles escreveu 123 peças teatrais. Apenas sete restaram completas até nossos dias. Quantas obras-primas – talvez até melhores do que “Édipo Rei” e “Antígona” – deixamos de conhecer? Ninguém pode responder com segurança – só Deus. Pretendo perguntar sobre essas peças a Ele quando tiver oportunidade.
Diz a lenda que Camões salvou os originais de “Os Lusíadas” de um naufrágio na foz do Rio Mekong. Nesse dia, morreu afogada Dinamene, amante chinesa de Luís Vaz, a quem depois ele dedicou alguns de seus mais belos versos líricos. Não nos cabe especular, como fazem alguns, se Camões salvou a epopéia e deixou morrer a namorada. Um naufrágio não é uma coisa simples. “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida; Na terra, tanta guerra, tanto engano/ Tanta necessidade aborrecida!/ Onde pode acolher-se um fraco humano, / Onde terá segura a curta vida,/ Que não se arme e se indigne o céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno?”
Só sei que a crônica anterior, a perdida, começava com a seguinte frase: “Toma um gole desta água”. O texto vinha assim, de forma imperativa e simples, usando a segunda pessoa, aquela que praticamente se perdeu na língua portuguesa “falada, escrita e televisada”, como diria um antigo orador de palanque.
Ao longo dos anos, perdemos bibliotecas de textos, histórias e acontecimentos. Para onde vão essas crônicas perdidas? Talvez viajem para o limbo dos guarda-chuvas, de que falou Mario Quintana num poema, se minha memória convencional não falha. Não há Google que recupere as crônicas que se perderam para sempre.
Talvez as minhas crônicas perdidas estejam todas reunidas no reino em que mora meu pai, com seus livros e guarda-chuvas. Pensamento que me faz encerrar esta crônica substituta com a frase que o poeta Keats criou para seu próprio epitáfio: “Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito na água”.
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Nem forma, nem conteúdo
respondem à indagação
do ser, um mistério mudo
mergulhado em solidão.
Trêmulo, em desespero
nascerás com um vagido.
E esse instante inteiro
será de todo esquecido.
Do princípio ao desenlace
envolvido em sangue e bosta
serás pra sempre o impasse.
Deus é dono da resposta.
Mas só veremos a face
se Ele nos voltar as costas.
*****
Toma um gole desta água
da cisterna de Jacó
e afoga tua mágoa
antes que te tornes pó.
Toma um gole deste copo
e não perguntes por quê.
Se tiveres dedos, toca.
Se tiveres olhos, vê.
Toma um gole deste vinho
que é do filho de José
e nunca estarás sozinho,
mas com aquele que é.
Toma um gole e o caminho
que te mostrará Yahweh.
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Pedro, sobre esta terra
edificarás teu lar.
Aqui, onde o homem erra
antes de o galo cantar.
Seja bem-vindo ao vale
em que o afeto se encerra,
vale de bem e mal e
de paz, de tempo, de guerra.
Pedro, já tens um nome
em tua casa de mar,
onde matarás a fome
antes de vir a pescar.
Bem-vindo seja à luz
a que os homens chegam nus.
*****
A manhã é hora, filho,
de acordar após a treva.
E nela existe um brilho
que nenhuma outra leva.
A tarde é quando, Pedro,
todo dia se consome
em declínio, queda e medo
até que outra lhe tome
o nome, a luz, a vida:
é a noite ancestral
em si mesma esculpida.
Ela, que é condenada
a gerar o seu final
no ventre da madrugada.
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Está simplesmente irretocável o texto em que o melhor jornalista do Brasil, Reinaldo Azevedo, responde a um certo economista João Sicsú:
Sicsú certamente é um nostálgico do tempo em que uma linha de telefone custava até US$ 7 mil e era considerada patrimônio, declarado em Imposto de Renda. Sua saudade tem uma explicação pessoal: ele pertencia ao mundo dos com-telefone, mas já era um amigo do povo: do povo sem telefone. Quando FHC deixou o governo, entre telefonia fixa e celular, o serviço estava praticamente universalizado.
Segundo o economista (!?), empresas estatais foram praticamente doadas, o que é proselitismo político dos mais vagabundos. Não só isso. É também uma mentira. Os 19% das ações da Telebras que pertenciam ao Estado foram vendidos por R$ 22,2 bilhões. Um ano depois, em Bolsa, se as ações fossem todas arrematadas, valeriam bem menos. Mas isso nem é tão importante. Entre 2003 e 2006, o setor de telefonia gerou R$ 118 bilhões em arrecadação de impostos - em 1998, R$ 8 bilhões apenas. Desde a privatização, concluída em 1998, até 2006.
Em 1997, havia no Brasil 17 milhões de linhas fixas e 4,5 milhões de celulares; em maio de 2008, as linhas fixas passavam de 42 milhões, e os celulares, de 130 milhões. Atenção: em 1997, havia, pois, 21,4 milhões de linhas telefônicas para 166 milhões de habitantes; em 1998, 172 milhões para 188 milhões de pessoas.
Leia o texto completo aqui.
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liberalismo
A imprensa dos sonhos para os políticos da cidade é cômoda e, acima de tudo, comodista. Só faz perguntas positivas. É que dá preguiça fazer pergunta difícil.
Em qualquer época, a imprensa dos sonhos mostra o lado bom dos vereadores, deputados e prefeitos. É a mídia poliânica.
Para os políticos de Londrina (com exceções que não chegam aos dois dígitos), imprensa boa é imprensa muda, surda e cega. Amordaçada, se possível.
Nos anos 60, um deputado chamado Feo de Souza deu uma entrevista e disse que era preciso acabar com a imprensa. Stanislaw Ponte Preta comentou: “Não sei se o Feo deu; mas, se o Feo deu, fedeu”. A imprensa dos sonhos dos Feos não cheira nem fede.
A imprensa dos sonhos, para eles, deve ser mantida a distância. Melhor seria se todas as sessões fossem secretas e noturnas – para que nada saísse nos jornais do dia seguinte.
A imprensa dos sonhos, para os políticos da cidade, mas não só eles, tem a chapa e a memória brancas. Nunca lembra que o ex-prefeito é réu em 94 ações na Justiça, tendo sido condenado em três. Nunca rememora os afagos entre os que hoje se apedrejam; e os apedrejamentos entre os que hoje se afagam. A imprensa dos sonhos – dos sonhos deles – é amnésica.
O jornalista Augusto Nunes não tem lugar na imprensa dos sonhos. Principalmente quando lembra em sua coluna que o secretário-geral de gestão do Pan 2007, Ricardo Leyser, e alguns companheiros foram instados pelo TCU a devolver aos cofres públicos R$ 18,4 milhões por conta de despesas superfaturadas e serviços não prestados. Torna-se menos onírico ainda, esse chato do Augusto Nunes, quando critica o fato de que o mesmíssimo Ricardo Leyser será o secretário-geral das Olimpíadas 2016. A imprensa dos sonhos não é chata. A imprensa dos sonhos é legal (no sentido de ser agradável; jamais no sentido de defender o cumprimento da lei).
Nunca existe escândalo para a imprensa dos sonhos. Nunca existe crise. Mensalão não existe. AMA-Comurb não existe. Operação Gafanhoto não existe. A imprensa dos sonhos é uma imprensa de inexistências.
A imprensa dos sonhos dos políticos é aquela que só noticia os podres adversários. Mas também não precisa exagerar: os adversários de ontem podem ser os aliados de amanhã.
A imprensa dos sonhos do governo não estranha a cara de paisagem do ministro da Educação ao comentar o vazamento das provas do Enem. Aquela cara de “Isso não é comigo” configura um ato absolutamente natural na opinião do jornalista dos sonhos. Se alguém tem alguma culpa nessa história, é a imprensa. Quem manda denunciar o vazamento da prova? Quem manda atrapalhar as licitações com sobrepreço? Quem manda criticar o pré-sal? Quem estimula tanto negativismo, minha gente?
A imprensa dos sonhos dos políticos, como vocês podem ver, meus sete leitores, é a dos nossos pesadelos.
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