
Sempre confundi Oscar Niemeyer com Ivo Pitanguy, Robert De Niro com Al Pacino, carroceria com boléia e proa com popa. Não me perguntem por quê. A exemplo do Chicó, só sei que é assim.
Há alguns anos, quando eu costumava ser convidado para debates como radical de esquerda, demonstrei minha ignorância naval, ao ironizar o título das memórias de Roberto Campos, “Lanterna na popa”. Eu achava que a popa era a parte da frente do navio, e não a parte de trás. Considerava, portanto, o título de Campos como um auto-elogio imperdoável. Ele estaria se definindo como “aquele que ilumina o futuro”, quando na verdade fazia exatamente o oposto: “Lanterna na popa” é a citação de um verso de Samuel Coleridge, e representa a luz que se lança sobre o passado.
O economista e diplomata Roberto Campos completaria 90 anos em 2007. Só agora tive o prazer de ler (em dois volumes que pertenceram ao saudoso arquiteto e intelectual Luiz Cesar da Silva), as 1.400 páginas de “Lanterna na popa”. Todo brasileiro deveria fazer o mesmo.
Quando algum patrício famoso passa dos 80 anos, costuma-se dizer que “sua vida se confunde com a história do Brasil”. A vida de Roberto Campos, que morreu aos 84, estava muito além do clichê. Ninguém mais do que ele lutou para que a história e o futuro do Brasil fossem diferentes. E poucos foram tão incompreendidos e atacados. A combinação entre racionalidade e franqueza não costuma ser premiada no Brasil. Não houve homem público menos demagógico – e mais irônico – do que esse gladiador do liberalismo. E também não houve um economista tão odiado, vaiado e xingado. Mas basta jogar um pouco de luz sobre o passado para descobrir que ele estava certo na maioria das vezes. Que falta não faz um Campos nestes tempos de lulismo e nunca-antes-nefe-país!
Para quem já chamou Roberto Campos de “Bob Fields”, “entreguista”, “lacaio do imperialismo” e “bajulador da ditadura”, como fiz tantas vezes, a leitura de “Lanterna na popa” equivale a uma remissão dos pecados. Já que ele não está mais entre nós, peço desculpas nesta crônica.
Mesmo no ápice do meu esquerdismo, jamais deixei de admirar o estilo, a inteligência e a cultura de Roberto Campos. Lia todos os seus artigos. Considerava-o um caso de divórcio entre o brilhantismo e a verdade. Hoje sei que as duas qualidades estavam casadas desde o princípio naquela mente privilegiada. Roberto Campos ilumina o nosso futuro. Ele é, de fato, a lanterna na proa.
E parabéns ao Ivo Pitanguy!
- Publicado no Jornal de Londrina.
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Três músicos cubanos pediram asilo no Brasil. Espero que não sejam gentilmente devolvidos ao Cadeião do Fidel, como aconteceu àqueles dois infelizes boxeadores.
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Apelo aos comentaristas: por obséquio, poupem-se de comentários níveis Ç e QI protozoário do tipo “você confunde popa com proa, é por isso que gosta de levar por trás”.