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Arquivo: 2007

Veneno

Viver é um veneno, meu bem.
Cálice pequeno,
copo que ninguém
considera pleno.

Viver é um vício, mulher.
Num lugar qualquer,
é estar a um passo
deste precipício.

Viver é um trabalho, amor,
bem mais que difícil:
é tudo que eu faço,
é tudo em que eu falho,
nada mais que isso.

Viver é uma trama, neném,
um gosto na boca.
E se a gente ama
é uma coisa louca,
muito pouca, amém.

Bhutto que pariu

Benazir Bhutto (1953-2007)

Eu fico imaginando o nó na cabeça de quem procura Tanga nua no Google e cai no blog do dr. Júlio Tanga. O cara quer bunda e leva um banho de inteligência. Talvez sirva para muito neguinho melhorar “enquanto ser humano”.

*****

Ok, confesso. Benazir Bhutto era um dos meus símbolos sexuais nos agitados anos 80. (Meu amigo Zé também era entusiasta.) A mulher deu uma considerável embagulhada depois, mas ainda assim era charmosona; muito mais atraente que qualquer modelo da São Paulo Auschwitz Fashion Week (essa não é minha; Eça é de Queirós).
Está certo que não era santa; saiu do governo, em 1996, sob acusações de roubalheira, mas o Lula não foi reeleito – com o voto consciente de vários Tipos – sob denúncias muito mais cabeludas?
Sem dúvida, Benazir era bastante preferível ao generalíssimo ou aos terroristas. Ocidentalizada, quem sabe poderia levar rudimentos de civilização aos paquistaneses. Seria preciso sorte – mas quando não é preciso, ainda mais no Paquistão?
Fico triste com o assassinato de Benazir (eita, nome sonoro, sô) – e cada vez mais penso que a democracia é um sistema sitiado no mundo.

*****

A seguir uma crônica publicada no Jornal de Londrina. Desculpem o título egocêntrico, e não se enganem; são apenas memórias de infância.

EU, BRIGUET

Se eu tivesse nascido no dia em que meu avô morreu, teria completado 23 anos no último Natal. Mas eu estava com 14 anos quando Seo Briguet foi embora. Já conseguia entender o que era a morte. Para minha prima Daniela, que tinha três anos na época, disseram que o vovô tinha ido para o céu.
Seo Briguet morreu em 25 de dezembro. Logo ele, que era figura imprescindível nas festas. Dizem que eu me pareço muito com meu avô. As fotos comprovam.
Na véspera do Natal e do Ano Novo, a criançada ouvia Luis Bordón tocando temas natalinos em seu LP “A harpa e a cristandade”. Tínhamos uma vitrola do Mickey, muito eficiente, apesar de minúscula. Lembro que também gostávamos de escutar As Melindrosas, Bonney M. e A Turma de Daniel Azulay.
Era entrar na cozinha e sentir a lufada de ar quente. Naquele lugar agitado, sob o comando da Vó Maria, misturavam-se o cheiro de carne assada, a luz dos cachos de uva na fruteira e o chiado das panelas no fogão. Tia Celina – que viria a morrer em 1994, durante a final da Copa – não conseguia acertar meu nome: “André Luiz! Quer dizer, Álvaro Antônio! Que dizer, Rafael César! Quer dizer, Osvaldo Sérgio! Quer dizer...” Eu ficava impaciente e ajudava: “É Paulo Antônio, tia. Paulo Antônio”.
Minha irmã tinha a mania de vasculhar os presentes para saber o que iria ganhar. Até hoje, mãe de família, mantém esse hábito infantil. Em nenhum Natal ela foi pega de surpresa; sempre soube antes qual era seu presente.
De dia, a geladeira Frigidaire não parecia ameaçadora; observava silenciosamente a todos nós. De noite, era outra coisa: eu tinha medo da geladeira. A danada fazia uns sons estranhos, uns ruídos que eu interpretava como língua de marcianos ou espíritos. Quase perguntei à minha tia kardecista: “Geladeira pode ser médium?” Até hoje tenho um pouco de medo de geladeira. (À noite, à noite.)
A casa da Vó Maria ficava na Rua Castro Alves 15. Numa ceia de Ano Novo – ou teria sido Natal? – um bêbado bateu o carro no poste da esquina. Houve um barulho bem forte e um curto-circuito. Achei que o mundo iria acabar. Me escondi debaixo da cama da Vó Maria – seguindo o exemplo do meu cachorro Ace Frehley.
Seo Briguet veio me tranqüilizar. “Não foi nada. Só uma batida de carro, filho”. (Entendem por que meu avô era imprescindível no Natal e no Ano Novo?)
Tomei coragem e saí. A festa continuava, a vida continuava. Até que um dia olhei no espelho e descobri: agora, eu sou o Seo Briguet.

No meio da noite

Um cão no meio da noite
fala com outro cão no meio da noite
e um pássaro do meio da noite
se esconde dos gatos dentro da noite.
Os ratos da mesma noite
se movem nos dutos, lá onde a noite
é sempre noite, onde a hora sempre escura
protege e nina os filhotes da noite.
Há uma cidade. Há um país.
Há um mundo inteiro da noite
que se move como um verme,
como um cisne, como um potro
que nasce à noite e se levanta
para nunca mais deitar.
Há algo na noite, um cerne,
há algo na noite, um mantra,
que à noite gera um tempo sem par.
E assim, tarde da noite,
nalgum quadrante da falsa manhã,
acordo e escrevo, talvez um ponto,
talvez um polvo, talvez um corpo
ou então só mais um cão falante
que silencia e espera amanhã.

O pôr-do-sol em Londrina

O pôr-do-sol em Londrina é uma prova da existência de Deus. Um oratório de Bach, uma sentença de Santo Agostinho, um argumento do Doutor Angélico.
Deus é um artista impaciente. Jamais termina suas telas. Deixa para recomeçar amanhã – e amanhã será outra tela.
Se contemplado com a devida calma, o pôr-do-sol em Londrina tem combinações de cor nunca vistas pelo olho humano.
Da minha casa eu vejo o pôr-do-sol em Londrina. Mesmo quando estou longe da cidade, a hora não me escapa. Sei que Londrina existirá no lugar de sempre, e haverá um pôr-do-sol.
O pôr-do-sol em Londrina acontece na hora em que a gente não sabe se deve dizer boa-tarde ou boa-noite aos vizinhos.
Gosto de entrar numa igreja vazia e silenciosa. Uma freira muito bondosa descansa para sempre ali. Certa vez entrei numa capela em Paris, construída por um rei-santo, e a luz da tarde brilhou na rosácea. Era o reflexo do pôr-do-sol em Londrina. Nas igrejas vazias e silenciosas eu converso com Deus; o mundo é uma igreja vazia e silenciosa durante o ocaso em Londrina.
Quando eu era um tolo estudante (hoje evoluí, sou outro tipo de tolo), eu via o pôr-do-sol no campus universitário (haverá um campus que não seja universitário?). Gostava de subir até o terceiro andar do prédio de Ciências Humanas para assistir melhor ao espetáculo. Era meu camarote particular. Deus estava ao meu lado, e ria muito das minhas tolices.
Alguns dizem que não saio de Londrina porque tenho medo; porque não quero enfrentar a vida; porque não tenho coragem de encarar desafios. Talvez tenham razão. Mas o grande medo é não ver mais o pôr-do-sol daqui.
O pôr-do-sol em Londrina me faz esquecer a tolice humana (e a minha participação inveterada na mesma tolice). Não há prefeitos, nem governadores, nem presidentes na hora do pôr-do-sol em Londrina. Não há esquerda ou direita. Não há militantes de causas diversas. O pôr-do-sol em Londrina é a cena de um assassinato: a estupidez morreu e foi transformada em cor.
Às vezes estou escrevendo e você me chama para ver o pôr-do-sol em Londrina. Nenhuma crônica do mundo pode definir o amor que eu sinto nessa hora. O seu rosto iluminado pelo fim do dia: não há crônica. Não sou Bach, não sou Agostinho, não sou Tomás de Aquino. Desconfio que não seja nem mesmo um cronista razoável. Tenho apenas sete leitores, e a eles gostaria de dizer pessoalmente: não se esqueçam nunca, jamais de ver o pôr-de-sol em Londrina. Um dia, poderá ser tarde.
Feliz Natal, feliz pôr-do-sol para você.

- Publicado no Jornal de Londrina.

Valei-me, Véio Chico!

O frei acabou com a greve de fome.

Leia Mais

Dica de Natal

Não deixem de conhecer o site Ordem Livre.
Especialmente boa a entrevista de Carlos Alberto Sardenberg.
Também há obras em versão integral de Bastiat, Hayek, Mises e Schumpeter. Só faltou Capitalismo e liberdade, de Milton Friedman.
Leitura fundamental: As seis lições, de Ludwig von Mises. Voltarei a comentar essa obra - e o site - aqui.

Desenterrada natalina

Dingonbéu, dingonbéu, acabou papel.

Nos dezembros de moleque, eu botava pra tocar, na vitrola do Mickey, o compacto “A harpa e a cristandade”, de Luis Bordón.
Que fim levou a bolacha? E o Bordón – ainda estará vivo?
Google nele. Encontro o disco à venda em sites de velharias. De Bordón, descubro que era paraguaio. Paraguais, harpa, guarânias, Natal: tudo se explica.
Segunda descoberta: Luis Bordón morreu no começo de 2006. RIP.

Miss Plica

Na Bélgica (terra dos meus antepassados), a grande polêmica é a eleição da nova miss local. A moça não sabe falar flamengo. A Bélgica tem duas línguas oficiais – flamengo e francês –, e a escolha da nova miss acirrou tensões separatistas.
Ué, não sei porque tanta briga. Aqui o presidente da República não sabe falar português e ninguém diz nada.
(Por sinal, adorei a paulada que o FHC e o Bornhausen deram em Lula na votação da CPMF.)

Lanterna na proa

Meu anel é ducas.

Sempre confundi Oscar Niemeyer com Ivo Pitanguy, Robert De Niro com Al Pacino, carroceria com boléia e proa com popa. Não me perguntem por quê. A exemplo do Chicó, só sei que é assim.
Há alguns anos, quando eu costumava ser convidado para debates como radical de esquerda, demonstrei minha ignorância naval, ao ironizar o título das memórias de Roberto Campos, “Lanterna na popa”. Eu achava que a popa era a parte da frente do navio, e não a parte de trás. Considerava, portanto, o título de Campos como um auto-elogio imperdoável. Ele estaria se definindo como “aquele que ilumina o futuro”, quando na verdade fazia exatamente o oposto: “Lanterna na popa” é a citação de um verso de Samuel Coleridge, e representa a luz que se lança sobre o passado.
O economista e diplomata Roberto Campos completaria 90 anos em 2007. Só agora tive o prazer de ler (em dois volumes que pertenceram ao saudoso arquiteto e intelectual Luiz Cesar da Silva), as 1.400 páginas de “Lanterna na popa”. Todo brasileiro deveria fazer o mesmo.
Quando algum patrício famoso passa dos 80 anos, costuma-se dizer que “sua vida se confunde com a história do Brasil”. A vida de Roberto Campos, que morreu aos 84, estava muito além do clichê. Ninguém mais do que ele lutou para que a história e o futuro do Brasil fossem diferentes. E poucos foram tão incompreendidos e atacados. A combinação entre racionalidade e franqueza não costuma ser premiada no Brasil. Não houve homem público menos demagógico – e mais irônico – do que esse gladiador do liberalismo. E também não houve um economista tão odiado, vaiado e xingado. Mas basta jogar um pouco de luz sobre o passado para descobrir que ele estava certo na maioria das vezes. Que falta não faz um Campos nestes tempos de lulismo e nunca-antes-nefe-país!
Para quem já chamou Roberto Campos de “Bob Fields”, “entreguista”, “lacaio do imperialismo” e “bajulador da ditadura”, como fiz tantas vezes, a leitura de “Lanterna na popa” equivale a uma remissão dos pecados. Já que ele não está mais entre nós, peço desculpas nesta crônica.
Mesmo no ápice do meu esquerdismo, jamais deixei de admirar o estilo, a inteligência e a cultura de Roberto Campos. Lia todos os seus artigos. Considerava-o um caso de divórcio entre o brilhantismo e a verdade. Hoje sei que as duas qualidades estavam casadas desde o princípio naquela mente privilegiada. Roberto Campos ilumina o nosso futuro. Ele é, de fato, a lanterna na proa.
E parabéns ao Ivo Pitanguy!

- Publicado no Jornal de Londrina.


*****

Três músicos cubanos pediram asilo no Brasil. Espero que não sejam gentilmente devolvidos ao Cadeião do Fidel, como aconteceu àqueles dois infelizes boxeadores.

*****

Apelo aos comentaristas: por obséquio, poupem-se de comentários níveis Ç e QI protozoário do tipo “você confunde popa com proa, é por isso que gosta de levar por trás”.

Mais gagá do que nunca

Será que tem uma boca no Tipos?

Oscar Niemeyer nunca me enganou. Tanto é que eu vivo trocando o nome dele pelo do Ivo Pitanguy (maldade: o Pitanguy é bem melhor que o véio).
Stalinistão brabo, chegado num concreto, fabricante de insolações, desenhou cidades pra carros e fez aquela aberração chamada Memorial da América Latina (fez o escambau: mandou ver uns rabiscos, como de costume).
Agora vai fazer 100. É vítima do assaz comentado processo de dercygonçalvização da terceira idade brasileira. (E não apenas brasileira: Robert Plant e Sting têm padecido do mesmo mal.)
Mas não podemos dizer que Niemeyer é incoerente. Ao terminar de ler a entrevista do véio para a Folha de S. Paulo, não fiquei surpreso quando ele defendeu o terceiro mandato do Lula. Essa ninguém tira do homem: falou merda a vida inteira.

Nóis e nóis, o resto é bosta.

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