
Eu posso mudar de nome.
Eu posso deixar a cidade.
Eu posso largar o emprego
e me refugiar no quarto escuro
de um país desconhecido
(onde não falam a língua
que eu também esqueci).
Estarei sendo visto
pelo Olho que tudo vê.
Cada parte de Deus é Deus.
O Olho tudo sabe, desde o início.
Sabe quantas vezes respirei hoje
e quantas vou respirar
até o dia da minha morte.
Ele sabe a hora, sabe a data,
sabe o preciso minuto e segundo
em que meu coração vai parar.
Ele sabe o rumo das formigas
em todas as paredes do mundo.
Se tudo vê, tudo viu.
Também lê pensamentos,
conhece cada erro
de concordância e sintaxe
do meu espírito mais oculto.
Todas as coisas e palavras
de somenos importância
o Olho que tudo vê
apreende, guarda e cataloga
para uso no Final Juízo.
As voltas que meu fígado,
Fernão de Magalhães,
dá em torno de si mesmo
a Ele voltam.
Quanto a mim, só a cegueira.
Sigo sendo o marinheiro morto
De uma nau deserta
que sou eu mesmo.
(E sempre tenho pena
das formigas que morrem
quando vou escovar os dentes.)