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Arquivo: 2008

Meu pai morreu

Cachorros latem na vizinhança; nunca se sabe o motivo. Na avenida, o Habib’s está fechado. Um ou outro carro, de vez em quando, enfrenta o silêncio do feriado. A banca de jornal não abriu. Uma cadeira está vazia na varanda. O porteiro de plantão chora escondido na guarita. A pasta preta jaz no canto da sala. Meu pai morreu.
Recebo a informação por telefone. Se a notícia é importante, boa ou ruim, o primeiro impulso é transmiti-la ao meu pai. Com esta, não foi diferente. Queria ligar para o meu pai, saber o que ele tinha a dizer sobre este acontecimento. Queria dizer a ele: Meu pai morreu.
No guarda-roupa, há duas ou três camisas que nunca foram usadas. Meu pai esperava uma data importante para estreá-las. Com muita pressa, fiz as malas à meia-noite. No dia seguinte, usei as camisas que eram de meu pai. O apartamento está silencioso, mas os sinais do morador ausente estão em todos os cômodos. Meu pai morreu.
Ele deixou bem claro, muito antes de alguém falar em morte, que gostaria de ser enterrado em Araçatuba, no jazigo da família da mulher, ao lado de meus avós maternos. Tantas vezes estivemos juntos naquele cemitério. Mal eu chegava de Londrina, ele dizia: “Vamos pegar um cemitério?” Era o nosso roteiro habitual. Conversávamos. Como é difícil usar o verbo no passado. Meu pai morreu.
Não acreditava em Deus – ou melhor, deixava essa questão sempre para depois. Mas foi o homem mais cristão que conheci. Sua vida era uma contínua preocupação com o bem-estar e a felicidade dos outros. Dava muita atenção ao que os outros diziam – principalmente os velhos.
Nunca mais conversar com ele sobre política e literatura. Nunca mais tomar cerveja com ele na varanda. Nunca mais ouvir suas recordações sobre a Casa do Estudante e o Largo de São Francisco. Nunca mais vê-lo recitar Manuel Bandeira. Nunca mais vê-lo jogar sinuca e acender os faróis do carro na garagem. Nunca mais receber seus telefonemas de manhã. Meu pai morreu.
Lia um romance sobre a vida de Paulo, o apóstolo, quando o telefone tocou. Paulo conversa com o filho Bóreas. O encontro acontece em um cemitério. Meu pai morreu.
No hospital, não quis que Aracy, companheira de 40 anos, o visse morrer; mas não queria partir sozinho, então chamou Fernanda, mãe de sua única neta. Paulo Lourenço morreu no mesmo hospital em que Liz nascera um ano antes. Por acaso, a netinha viu uma foto do avô e fez algo inesperado: sorriu e beijou a imagem várias vezes.
Um de seus hábitos era ler minhas crônicas pela manhã, no computador. Não saberei o que ele achou desta crônica, em que escrevi as palavras mais terríveis: Meu pai morreu.



*****


Em 1996, publicamos juntos um livro de crônicas: "Diário de Moby Dick". Ele era bem melhor do que eu: melhor escritor, melhor pessoa. Muitas bobagens deixei de escrever porque imaginei que ele pudesse lê-las um dia (imagine quantas besteiras seriam!). Agora é tocar o barco e aprender a viver sem ele. Um abraço a todos que se manifestaram, sem exceção.

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Paulo


"E o último inimigo a ser vencido será a morte."
(1 Coríntios, 15:26)

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Kenny Rogers

O importante, vocês sabem, é não dar trela à Raquel Zimmermann (representante esquelética da espécie) e ouvir o grito da águia.
O importante é... SER JORROVI!
(Não deixem de visitar. Gostei muito da águia; muito mesmo.)

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Escândalo: o paraninfo é de direita!

Por duas vezes – em 1997 e 2000 – fui escolhido como nome de turma pelos formandos em jornalismo da UEL. Tenho muito orgulho dessas homenagens, porque nas duas ocasiões o principal motivo da escolha foi amizade. Nunca fui, nem pretendi ser, um jornalista famoso ou poderoso. Também nunca fui rico (gostaria de ser, mas infelizmente não aconteceu).

Eu costumava brincar que fui homenageado duas vezes quando era esquerdista – e nenhuma vez depois que me tornei liberal. (Embora meu esquerdismo já estivesse bem enfraquecido em 2000; eu não engolia mais o PT, nem Cuba, nem a economia socialista. Maoísmo e stalinismo eu nunca engoli.)

Pois ontem recebi mais uma homenagem – desta vez, da primeira turma de formandos em jornalismo da Facnopar (de Apucarana). Fui escolhido como paraninfo da turma. Honra maior ainda porque o nome de turma é Edilson Moura (excelente jornalista, professor, colecionador de cartões postais e irmão do nosso querido Lúcio Flávio, blogueiro do Tipos a quem eu devo uma caixa de cervejas por conta da eleição de Barack Obama – como vocês sabem, apostei no véio McCain e perdi).

Agora, não posso dizer mais que o motivo da homenagem é a amizade – porque não conhecia pessoalmente ninguém da turma, exceto por uma breve “oficina” de crônicas realizada em 2006.

Todos que me conhecem sabem que sou bastante crítico em relação aos cursos de jornalismo e contrário ao diploma obrigatório para o exercício da profissão. Mas os dez formandos merecem os parabéns. Batalharam quatro anos e fizeram sacrifícios para pagar mensalidades. Quase todos, pelo que sei, trabalharam para poder estudar. Desejo-lhes sorte e sucesso.

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Às estrelas, nas asas de um porco

Belinati não será mais prefeito de Londrina. Que ele vá responder às 100 ações em que é réu.

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“O comunismo é um fracasso. Um fracasso total. Por favor. Esquerdistas do mundo – melhorem o seu capitalismo! Não escolham o comunismo!”
(Gorki Águila, vocalista da banda punk cubana Porno para Ricardo, preso e perseguido pelo regime de Fidel e Raúl Castro)



*****

Na época, ainda era esperança do Flamengo.

Falam muito do São Paulo, Richarlyson e cia. Não ponho a minha mão no fogo pelos bambis, mas vocês sabem que é o novo patrocinador do Corinthians? VIVARA.

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John Steinbeck (1902-1968)

Pouco antes do anúncio do Nobel de Literatura deste ano, o secretário permanente da Academia Sueca, Horace Egdahl, fez declarações nada simpáticas aos Estados Unidos. Disse que os EUA estão “muito isolados” e “não participam do grande diálogo da literatura”. Para ele, os americanos sofrem de uma “ignorância limitadora”.

Nem sempre foi assim. Em 1962, a Academia Sueca concedeu o Nobel de Literatura ao mais norte-americano dos escritores: John Steinbeck. Amanhã se completam exatos 40 anos da morte do romancista. Na correnteza do antiamericanismo visceral de nossa época, bons escritores como Philip Roth, John Updike e Joyce Carol Oates foram publicamente desqualificados para o maior prêmio literário internacional. Em 1962, o ódio aos EUA não era tão grande. E Steinbeck ganhou um Nobel merecido.

A atual crise financeira americana despertou os fantasmas da Grande Depressão dos EUA, ocorrida após a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Grandes livros de Steinbeck retratam a saga de famílias americanas na luta pela sobrevivência durante aqueles anos difíceis. As vinhas da ira (The grapes of wrath, 1939) rendeu o Prêmio Pulitzer ao autor e foi adaptado ao cinema por John Ford. O livro narra esse período com uma força maior do que mil tratados sociológicos.

Ao Deus desconhecido (To a God unknown, 1935), A rua das ilusões perdidas (Cannery Row, 1945) , A leste do Éden (East of Eden, 1954) também falam de personagens pobres, trabalhadores e marginalizados – o que rendeu ao escritor a fama de esquerdista. Fama improcedente: até o final da vida, Steinbeck manteve-se independente de grupos políticos e ideológicos. Era muito conservador para os esquerdistas, muito liberal para os republicanos, além de severamente anticomunista. Escrevia sobre indivíduos – não sobre tipos sociológicos. E por isso sua obra merece ser lida e relida.

Quando Steinbeck era estudante, um professor disse que aquele jovem só se tornaria escritor quando os porcos voassem. Todos os 65 livros de Steinbeck contêm a frase latina “Ad Astra per alia porci” (Às estrelas, nas asas de um porco).

- Publicado no Jornal de Londrina.

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Consumatum est

Não se sabe que fazer com este menino
que nasceu assim gritando, igual aos outros,
sem conhecer riso, fala ou destino.

Não se sabe que fazer com esta criança
que nasceu de mãe tão pura, tão menina,
e tem por pai José, o carpinteiro. Avança

a noite e não sabemos que fazer com este,
que nasceu durante o censo de Augusto
e nunca houve ou haverá alguém tão justo

quanto o garoto que agora soergueste
com tuas mãos; sabes que as loucas Saturnais
de agora em diante nunca mais serão iguais.

Não se sabe que fazer com este menino
que, igual aos outros, há nascido para a morte
enquanto a estrela risca o céu da Palestina.

Não sabemos que fazer com nossa sorte
de ter ao lado a plenitude do Messias
e não sabemos por que terras, por que vias

vai caminhar a boa nova que é forte
para ocultar o Sol e refazer as trevas
só pelo timbre de uma voz que se eleva
até o fundo da mais crua e amarga morte.

Não sabemos que fazer com este rebento
que veio ao mundo como Deus Desconhecido
e agora passa como a vaidade ao vento.

Não sabemos que fazer com o Ungido
que entre sangue, entre fezes e urina,
nos antecipa a amplitude de um bramido
que traz em si a dimensão da nossa sina.

*****

Posso ver a morte nestas mãos,
nestes pés posso ver o escuro.
Na boca, tão pequena ainda
há o gosto forte do vinagre puro.

Neste lado posso ver a marca
ainda não feita de uma fria lança.
E, nos joelhos, posso ver as chagas.
E os espinhos, na cabeça da criança.

E estes braços que se movem soltos
no vão da noite, posso ver abertos
no abraço largo para o meio-dia
de um amor que nunca houve tão certo.

Contemplo a morte neste ser inteiro
com exceção, que devo logo admitir,
dos dois pequenos e ávidos luzeiros,
onde só vejo a vida sem começo ou fim.

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Private dancer



O que é que eu fiz para merecer ficar com músicas da Tina Turner na cabeça?
A resposta é simples: almocei em restaurante bagaceira com trilha sonora idem.
Já pulei de “Paradise is here” para “Help”; depois fui de “Private Dancer”. E tem aquela do Mad Max além da Cúpula do Trovão. Tudo naquele meu inglês jamaicano.
É Drury’s. Campari as coisas.

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O fantasma se diverte

Fantaaaasma!

Basta um lugar ser grande, escuro e cheio de histórias para a turma começar a dizer que tem fantasma. Já ouvi falar que há almas penadas na prefeitura, no fórum, no campus, no hospital, no cinema, na biblioteca, no shopping, nos casarões da Higienópolis.
Um passarinho veio me contar que existe um fantasma na gráfica do JL. Estranho: é um fantasma palhaço.
Isso mesmo. Fantasma palhaço. Dizem que a assombração vive – vive? – dando risada. “Ridendo castigat mores”, diz o velho ditado latino. Latim é língua morta; o fantasma entende.
Também não é para menos. O fantasma é o primeiro a ler o jornal – e o primeiro a rir. Motivo é que não falta: Ronaldo no Corinthians (uma contratação de peso); Madonna no Brasil (séria candidata a virar Dercy Gonçalves do pop); Lula e a “marolinha” tsunâmica da crise. O jeito é rir. Vivo ou morto.
No domingo, o fantasma palhaço leu a ótima reportagem do Marcelo Frazão sobre as “doações ocultas” da campanha. É o amigo secreto aplicado à política: as empresas doam, o partido assume e o eleitor não fica sabendo de onde saiu a grana! O fantasma morreu de rir. (Morreu? De novo?)
O fantasma também riu de passar mal quando viu aqueles dois candidatos abraçados. Ué, mas um não tinha falado que o outro era ladrão? Ué, mas um não tinha falado que sentia vergonha do outro? Ué, mas um não tinha falado que era o único candidato em condições de vencer o outro? Não sei o que tem de errado nisso. Na verdade, eles eram amigos secretos.
O fantasma também riu quando o deputado disse: “Não adianta procurar bigode na Mona Lisa”. Se a Mona Lisa fosse portuguesa, até era possível procurar o bigode, sr. deputado. Mas não se trata disso. O jornal estava procurando o sorriso – o sorriso dos espertos.
Quanto ao tipo mais tradicional de amigo secreto – o caixa dois –, sabemos que não existe mais, não é mesmo? (Essa foi pra você, fantasma.)
O fantasma ri também porque a cidade poderá votar num candidato e ganhar o cassado de brinde. E quase perde o fôlego – de tantas gargalhadas – quando percebe que Londrina pode virar sucursal de Maringá. Esse fantasma é um pândego.
Sempre que o TSE adiou o julgamento sobre Londrina, o fantasma riu a valer. Não apenas do TSE, mas das charges do Sassá na página 2: Tribunal de Senhores Esquecidos e Também Somos Engraçados. Sem contar a pegadinha do Mallandro na hora de anunciar o novo prefeito.
A (tentativa de) sapatada no Bush também foi hilária. O presidente em final de mandato mostrou que está com os reflexos em dias. Agora, jornalista jogar sapato em presidente de regime democrático é fácil. Queria ver o cara jogar sapato em algum dos ditadores do Oriente Médio. O fantasma se diverte.
Agora o fantasma tem mais um motivo para rir até chorar: querem aumentar o número de vereadores no Brasil inteiro. Já que o assunto é fantasma, eu tenho um bom título para essa notícia em Londrina: “A volta dos mortos-vivos”.
Fazer o quê? Chorar? Ah, passa amanhã. Chorar é coisa de fantasma sem imaginação.

- Publicado no Jornal de Londrina.

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O médico sou eu

“Vocês não sabem a dor que estou sentindo agora. Ainda não fiz 23 anos e vi já homens, mulheres e crianças morrendo na minha frente. Fiz o que pude para salvá-los, não sou onipotente. Nem sempre havia um médico por perto.

“Numa dessas madrugadas – houve muitas madrugadas nos dois últimos anos –, diante de uma senhora que gritava de dor, senti a maior solidão do mundo. ‘Cadê o médico?’, ela perguntava ao moço de branco que poderia ser seu neto. Ouvi minha própria voz: ‘O médico sou eu’. A mulher conseguiu sobreviver e me disse obrigado com os olhos. Pedi a ela que agradecesse a Deus.

“Nos plantões de 36 horas, eu tentava controlar o sono e o cansaço para não falhar. A medicina luta contra a morte, sim. Mas também luta contra a dor. Às vezes, no pronto-socorro, tudo que as pessoas querem é ouvir uma palavra de atenção. E eu dava essa palavra.

“Não estava de plantão no dia em que aconteceu aquilo. Se estivesse, é bem possível que eu tivesse ido ao bar junto com os outros para comemorar. Mas, na hora em que alguém teve aquela idéia de jerico de ir ao pronto-socorro, talvez eu tivesse me levantado para dizer: ‘Peraí, pessoal. Menos, menos!’ Mas não posso garantir. Agora é fácil falar.

“Aconteceu o que aconteceu. Nunca pensei que vestiria luto no dia de festa. As coisas mais improváveis estão acontecendo. Já fui chamado de racista, nazista, filhinho-de-papai, parasita, canalha. Já fui comparado aos babacas que fizeram comentários estúpidos no Orkut e aos doutores espertalhões que burlaram o cartão-ponto. Eu e meus colegas fomos chamados, na internet, de LATRINAS HUMANAS. Assim mesmo – em letras maiúsculas. Um dia, espero ter um filho – e peço a Deus que ele nunca use essa linguagem de campo de extermínio.

“Não somos vítimas; não quero justificar o injustificável. Sei que meus colegas erraram e já deveriam ter feito um pedido público de desculpas. Quem sabe, passar uma semana atendendo num posto de saúde da periferia não seja má idéia. Os pacientes e acompanhantes que estavam lá e viram a bagunça no mínimo levaram um grande susto. Houve desrespeito àquelas pessoas, o que é grave.

“Meus colegas sabem que agiram mal, mas estão com medo. Tem gente querendo sangue. Tem gente achando que os seis anos de curso da minha turma devem ser jogados no lixo.

“Certamente, vocês que lêem estas palavras conhecem o mecanismo do bode expiatório – o animal que era sacrificado para expiar os pecados da coletividade. Pois o bode expiatório ainda existe, meus amigos. Na hora do vamos-ver, o menor erro pode justificar o maior massacre. E nessa hora ninguém vai se lembrar das palavras daquele rapaz vestido de branco, ditas com a voz trêmula: ‘O médico sou eu’.”

- Publicado no Jornal de Londrina.

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A solução para sua falta de problemas!


"Eu não tenho emprego, mas tenho atitude!"
"Parei de raspar o sovaco."
(Eu gosto particularmente das dublagens.)

*****

E o Obama, hein? Nem tomou posse, já se meteu em rolo. Também, vocês viram a cara desse governador de Illinois? Lombrosiano.

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