
Basta um lugar ser grande, escuro e cheio de histórias para a turma começar a dizer que tem fantasma. Já ouvi falar que há almas penadas na prefeitura, no fórum, no campus, no hospital, no cinema, na biblioteca, no shopping, nos casarões da Higienópolis.
Um passarinho veio me contar que existe um fantasma na gráfica do JL. Estranho: é um fantasma palhaço.
Isso mesmo. Fantasma palhaço. Dizem que a assombração vive – vive? – dando risada. “Ridendo castigat mores”, diz o velho ditado latino. Latim é língua morta; o fantasma entende.
Também não é para menos. O fantasma é o primeiro a ler o jornal – e o primeiro a rir. Motivo é que não falta: Ronaldo no Corinthians (uma contratação de peso); Madonna no Brasil (séria candidata a virar Dercy Gonçalves do pop); Lula e a “marolinha” tsunâmica da crise. O jeito é rir. Vivo ou morto.
No domingo, o fantasma palhaço leu a ótima reportagem do Marcelo Frazão sobre as “doações ocultas” da campanha. É o amigo secreto aplicado à política: as empresas doam, o partido assume e o eleitor não fica sabendo de onde saiu a grana! O fantasma morreu de rir. (Morreu? De novo?)
O fantasma também riu de passar mal quando viu aqueles dois candidatos abraçados. Ué, mas um não tinha falado que o outro era ladrão? Ué, mas um não tinha falado que sentia vergonha do outro? Ué, mas um não tinha falado que era o único candidato em condições de vencer o outro? Não sei o que tem de errado nisso. Na verdade, eles eram amigos secretos.
O fantasma também riu quando o deputado disse: “Não adianta procurar bigode na Mona Lisa”. Se a Mona Lisa fosse portuguesa, até era possível procurar o bigode, sr. deputado. Mas não se trata disso. O jornal estava procurando o sorriso – o sorriso dos espertos.
Quanto ao tipo mais tradicional de amigo secreto – o caixa dois –, sabemos que não existe mais, não é mesmo? (Essa foi pra você, fantasma.)
O fantasma ri também porque a cidade poderá votar num candidato e ganhar o cassado de brinde. E quase perde o fôlego – de tantas gargalhadas – quando percebe que Londrina pode virar sucursal de Maringá. Esse fantasma é um pândego.
Sempre que o TSE adiou o julgamento sobre Londrina, o fantasma riu a valer. Não apenas do TSE, mas das charges do Sassá na página 2: Tribunal de Senhores Esquecidos e Também Somos Engraçados. Sem contar a pegadinha do Mallandro na hora de anunciar o novo prefeito.
A (tentativa de) sapatada no Bush também foi hilária. O presidente em final de mandato mostrou que está com os reflexos em dias. Agora, jornalista jogar sapato em presidente de regime democrático é fácil. Queria ver o cara jogar sapato em algum dos ditadores do Oriente Médio. O fantasma se diverte.
Agora o fantasma tem mais um motivo para rir até chorar: querem aumentar o número de vereadores no Brasil inteiro. Já que o assunto é fantasma, eu tenho um bom título para essa notícia em Londrina: “A volta dos mortos-vivos”.
Fazer o quê? Chorar? Ah, passa amanhã. Chorar é coisa de fantasma sem imaginação.
- Publicado no
Jornal de Londrina.