Lula está entre nós. Logo hoje que eu queria falar dos três grandes cegos da literatura: Homero, Milton e Borges. Minha vontade é imitar Ulisses quando enganou o Ciclope, que tinha um olho só; se alguém perguntar meu nome, direi que é Ninguém.
“Cesse tudo que a antiga Musa canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”, escreveu Camões, pai de nossa língua, que ficou cego de um olho. Tão bom seria esquecer Lula e ficar só com os poetas. Entre Luís Vaz e Luiz Inácio, eu fico com o primeiro. Entre Lula e Ninguém, eu fico com Ninguém.
Obama disse que Lula é “O Cara”. Acho que o morador da Casa Branca se enganou. O apelido mais justo seria “Os Caras”. Vocês, meus sete leitores, por acaso se lembram do desenho “Os Impossíveis”, em que havia um super-herói chamado Multi-Homem? E viram o filme “Zelig”, de Woody Allen? Pois então. Lula é uma mistura de Multi-Homem e Zelig. Como o Multi-Homem, ele se desdobra em vários. Como Zelig, ele tem o dom de assumir a personalidade de quem está por perto.
Lula se reúne com os sem-terra, depois com os ruralistas. Sabe muito bem que a reforma agrária defendida pelo MST só seria factível sob um regime maoísta, mas continua dando corda – e muito dinheiro – para o movimento. Também sabe que não vai atender aos anseios dos ruralistas, mas procura agradar a estes também.
Contudo, vamos esquecer Lula por um momento. Eu gostaria de falar sobre a frase do heresiarca de Uqbar citada por Borges em “Ficções”: “Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”. Curioso é que a frase do heresiarca citada por Borges foi lembrada antes pelo escritor Bioy Casares, grande amigo do mestre argentino. A terrível frase é um espelho do heresiarca para Bioy Casares, de Bioy Casares para Borges, de Borges para o leitor. São Paulo diz: “Hoje vemos como através de um espelho, confusamente; mas então veremos face a face”. De certo modo, somos todos espelhos uns dos outros. Somos todos cegos como Homero, Milton e Borges. Às vezes arrancamos nossos próprios olhos, como fizeram Édipo e Demócrito.
Viram como Borges é um assunto melhor do que Lula? Se o assunto fosse Lula, eu acabaria falando daquele outro escritor, que não serviria para desatar as correias das sandálias de Borges (e imagino que Borges não usava sandálias). Vocês sabem, aquele escritor que também foi presidente e que não é uma “pessoa comum”, segundo Lula. De fato, uma pessoa comum não conseguiria recuperar o sentido literal da palavra mordomia.
Se eu falasse sobre Lula, teria de comentar também o entusiástico apoio dado ao regime dos aiatolás do Irã. De certa forma, a exemplo de Khamenei, Lula se considera um líder supremo. O nosso Aiatolula.
Pronto, falei.