Em 1964, na União Soviética, o poeta russo Joseph Brodsky foi julgado por “parasitismo social”.
Quando vejo o pessoal defendendo com unhas e dentes o diploma obrigatório de jornalismo, a figura do jovem Brodsky me vem à mente.
Abaixo, segue a transcrição do julgamento de Brodsky, que foi transformada em cena da peça “Liberdade, liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel (1965).
Notem os trechos destacados em letra maiúscula (infelizmente, não consigo usar o negrito nem o itálico neste blog...)
Troque-se poesia por jornalismo, e teremos o argumento básico da turma que defende o Soviete Nacional de Comunicação.
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Juíza Savelya: Qual é seu nome?
Brodsky: Joseph Brodsky.
Juíza: Qual é sua ocupação?
Brodsky: Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a Corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
Brodsky: Pensei que fosse um trabalho regular.
Juíza: Dê uma resposta precisa.
Brodsky: Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
Juíza: Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
Brodsky: Eu trabalhava: eu escrevia poemas.
Juíza: Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
Brodsky: Tinha contratos com uma editora.
Juíza: Há quanto tempo o senhor trabalhava?
Brodsky: Tenho trabalhado arduamente.
Juíza: Ora, arduamente! Responda certo.
Brodsky: Cinco anos.
Juíza: Onde o senhor trabalhou?
Brodsky: Numa fábrica, em expedições geológicas...
Juíza: Quanto tempo trabalhou na fábrica?
Brodsky: Um ano.
Juíza: E qual é seu trabalho real?
Brodsky: Sou poeta. E tradutor de poesia.
Juíza: QUEM RECONHECEU O SENHOR COMO POETA E LHE DEU UM LUGAR ENTRE ELES?
Brodsky: NINGUÉM. E QUEM ME DEU UM LUGAR ENTRE A RAÇA HUMANA?
Juíza: O SENHOR APRENDEU ISSO?
Brodsky: O QUÊ?
Juíza: A SER POETA? NÃO TENTOU IR PARA UMA UNIVERSIDADE ONDE AS PESSOAS SÃO ENSINADAS, ONDE APRENDEM?
Brodsky: NÃO PENSEI QUE ISSO PUDESSE SER ENSINADO.
Juíza: ENTÃO COMO...?
Brodsky: EU PENSEI QUE... POR VONTADE DE DEUS...
Juíza: É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
Brodsky: É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documento todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
Juíza: O senhor não precisa de ternos, sapatos?
Brodsky: Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
Juíza: Os especialistas aprovaram seus poemas?
Brodsky: Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
Juíza: Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
Brodsky: Eu trabalhava. Eu escrevia poemas...
Juíza: Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
Brodsky: As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
Juíza: Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
Brodsky: A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
Juíza: Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
Brodsky: Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
Juíza: O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
Brodsky: Eu gostaria de saber por que fui preso.
Juíza: Isso não é um pedido; é uma pergunta.
Brodsky: Então não tenho nenhum pedido.
Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos.
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