
1. Olho o lago e sinto saudade. Um dia, estaremos todos sob as águas.
2. Acordo às três horas da manhã; abro a janela e fico observando o lago. Parece que escuto as primeiras águas passando pela barragem, meio século atrás.
3. O engenheiro que fez o lago define-se como “um técnico cartesiano que não gosta de poesia”. Sua obra, que agora completa 50 anos, dividiu a história da cidade em antes e depois. As palavras do professor José Augusto de Queiroz me fazem lembrar outro engenheiro, Euclides da Cunha, cuja obra maior, “Os Sertões”, foi um divisor de águas na literatura brasileira. O lago é um poema.
4. Quando vejo o lago, acho que ele sempre esteve ali. Como diz um antiquíssimo poema: “Nem nunca era nem será, pois é todo junto agora, / Uno, contínuo, pois que origem sua buscarias?” Parmênides de Eleia vive sob o lago.
5. Sei que o lago não é profundo. É um espelho d’água a refletir continuamente nossos pensamentos passados. Mas não te enganes: houve muitos que lá se afogaram.
6. O lago é nosso espelho. É o destino final de todas as caminhadas. Se procuras o centro; se buscas o poente; se te atrai o sol da manhã; se as luzes da noite são o teu guia; não importa o que faças – encontrarás o lago.
7. Heráclito de Éfeso também mora no lago. Se prestares atenção, ele está dizendo, em grego antigo: “Para as almas, morrer é transformar-se em água; para a água, morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se a água, e da água a alma”.
8. Todos os caminhos levam ao lago. Nosso destino é andar sob as águas, lá onde moram todos os afogados.
9. De dia, ele tem um bilhão de cristais do sol ou a serenidade meditativa do céu frio. À noite, as inumeráveis fagulhas das luzes artificiais, como se ele lembrasse continuamente que também foi feito por mãos humanas.
10. Heráclito insiste: “O caminho para baixo e o caminho para cima é um e o mesmo”. Eu e meu pai gostávamos de caminhar até a barragem do lago. Um dia, ele não voltou. Hoje conversamos através de um espelho. “A harmonia invisível é mais forte que a visível.”
11. Nas águas do lago, está o mapa de nosso destino – impossível de ser consultado por olhos humanos.
12. O lago é a tez poluída de nossos pecados. No fundo, no fundo, ele é apenas um rio. Lava nossas almas. Ali, somos pescadores e pecadores.
13. Coração a céu aberto, ele trabalha silenciosamente, noite e dia. Londres tem o Big Ben; Londrina tem o lago.
14. Todas as ruas conduzem ao lago. Todas as praças e avenidas. Todos os traçados. Todas as vias acabam no lago. Todos os tempos. Todos os passados. E não podemos beber destas águas. Seus bebedores, nunca saciados, terão o lago por todos os lados.