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Arquivo: 2009 / 07

Aventuras do Cisco

– Por que você fala de cachorro em suas crônicas?

– E por que não?

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Como diria o delegado calça-curta: “Leis é leis!”. Regras são regras. Cisco está proibido de subir no sofá.

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Chove. Enquanto Cisco brinca com seu osso de borracha, leio o “Livro do Desassossego” e ouço o “Cravo Bem Temperado” (presente do professor Baldy).

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O livro de Fernando Pessoa é assinado pelo heterônimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros em Lisboa. Em certa passagem, Soares cita os versos de outro heterônimo pessoano, Alberto Caeiro: “Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo.... / Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer / Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura...”

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Leio Pessoa citar outro Pessoa por Pessoa. E penso nas circunstâncias em que Bach começou a compor o “Cravo bem temperado”. João Sebastião estava preso – ao que parece, por dívidas com um aristocrata. Ficou um mês vendo o Sol nascer quadrado e compôs uma das obras mais luminosas da música universal. Se Bach sentiu algum ódio de quem o aprisionava, não deixou nada transparecer na música. Seria Bach um fingidor?

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No “Livro do Desassossego”, uma coletânea de fragmentos, Soares delicia-se com os versos de Caeiro. Repete algumas vezes, com exclamação: “Sou do tamanho do que vejo! Sou do tamanho do que vejo!”

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No adeus à pequena Tainá, terminei pedindo que ela mandasse lembranças a São Francisco, que de vez em quando visita o céu dos bichos. A resposta veio no meu aniversário, um dia de chuva. Será que São Francisco leu minha crônica? Será que ele é um dos meus sete leitores?

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Cisco não nega o nome. É um cachorro pequeno. Chegou medroso e tímido. Cresceu quase nada, mas já está perdendo a timidez. Ontem, na rua, latiu para um cachorrão. E fez xixi no tapete da sala. Não contem a ele, mas nós perdoamos suas eventuais traquinagens. As broncas, embora necessárias para educá-lo, são puro fingimento. (Ainda bem que ele não sabe ler!)

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Alguém disse que os cães com focinho pequeno enxergam mais longe, têm uma visão mais ampla do mundo e das pessoas. Cisco é assim. “Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura.”

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Fecho o livro. Ouço um concerto de Haydn. Cisco não ligou muito para o “Cravo bem temperado”, mas Haydn desperta a sua atenção. As orelhas do cachorro acompanham o diálogo entre o piano e a orquestra. Será que ele ouve exatamente o que ouvimos? Vê exatamente o que vemos? Jamais saberei. Cisco não fala. E continua chovendo.

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A festa da quebradeira



Fim de festa. Restavam apenas três moradores da república: Pedro, Paulo e Tomé. Bebiam na varanda, mergulhados em suas poltronas puídas. Nem música se ouvia mais; preguiça de ir mudar o disco. O relógio parado da sala acertava, por acaso, o horário: seis da manhã. Dia nascendo. Os cães Jon Bon Jovi e Avril Lavigne latiam no fundo do quintal, farejando alguma coisa.


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Paulo tomava cerveja em uma xícara de chá. De repente, levantou-se. Vocês poderiam me dizer que serventia tem esta xícara? Ninguém respondeu; em verdade, ninguém se moveu. Paulo lançou a xícara no meio da rua. Espatifou-se no asfalto.

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Quer saber? – reagiu Pedro – Este copo também só serviu alguma vez pra guardar requeijão. Fora! E os cacos do copo fizeram companhia aos da xícara.


Tomé, que parecia dormir até então, nada declarou. Apenas atirou ao logradouro a garrafa de cerveja que tinha em mãos, não sem antes esvaziá-la de um gole só. E os cacos da garrafa fizeram companhia aos do copo e da xícara.


Paulo aproveitou o fato de que já estava em pé e dirigiu-se cambaleante ao interior da casa. Voltou sobraçando um punhado de LPs. O Melhor da Jovem Guarda? Fora. Tim Maia ao Vivo? Fora. Jane e Herondy – É o ciúme que está nos separando? Fora. Placa Luminosa? Fora. As Melhores da Copa de 90? Fora. Beatles em Ritmo de Samba? Fora. Hooked on Classics? Fora.

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E assim voavam os discos, com a facilidade de insetos em formato circular: Legião Urbana Caetano Veloso Diana Pequeno Yes Marillion Iron Maiden Emerson, Lake & Palmer A-Ha Almir Sater Biquíni Cavadão Belchior 20 Anos Depois Eu tenho andado tão sozinho ultimamente Baby, quanto vale um homem para amar você É quando o vento sacode a cabeleira a boca toda vermelha Existem praias tão lindas cheias de luz nenhuma tem o encanto que tu possuis Ana naíra Mira irara Nhá tupi Ananaira Mirairamá Mira Ira Por onde for quero ser seu par Um velho calção de banho um dia pra vadiar Ilê aiê como você é bonito de se ver (Ilê aiê) Vou tentar um novo regime espaguete à bolonhesa é um crime Poeira, poeeeeira, levantou poeira! É isso que dá (Futebol segunda-feira) É isso que dá (futebol semana inteira) Quero falaaaaaar de uma coooooisa Adivinha onde ela aaaaaaaandaaaaa Deve estar dentro do peeeeeeeeito Vou deixaaaaar a vida me levaaaaaar aonde ela quiseeeeeer Johann Sebastian Bach


Paulo protestou contra a inclusão de Bach, mas foi voto vencido. E os cacos pretos do velho compositor repousaram na calçada, junto aos que lá já se encontravam.


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Jonas, o quarto morador da república, acordou e começou a protestar pela quebra de seu disco preferido do Legião Urbana: Música para Acampamentos. Pedro o agarrou pelos pés e Tomé, pelas mãos: Jonas foi arremessado ao meio da rua e espatifou-se com uma estátua em um milhão de pedaços. Nenhum vestígio de sangue. Só cacos, em tudo iguais aos dos seres inanimados.


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Para evitar futuras complicações jurídicas, viu-se por bem jogar também a cama, o armário, as roupas, os livros e as revistas científicas de Jonas. Tudo virou fragmento em questão de segundos. Era como se Jonas não houvesse existido.

*****

Paulo foi lá dentro e voltou com seu chefe. O homem caiu sobre o asfalto como um imenso meteoro cai sobre o deserto. Triturado.


Pedro voltou com sua ex-namorada ingrata. Descobri que você deu para o César no quintal do Pafuzinho. A moça logo virou um mosaico de caquinhos pervertidos.


Tomé, que não andava muito bem das finanças, foi lá dentro da casa e voltou com um prédio de 40 andares sobre as costas. Carregava-o com relativa facilidade. Comentou: É ruim de pega mas é levinho. Era a sede do Banco do Brasil S/A. O edifício desintegrou-se com a mesma facilidade do copo de requeijão.


*****



Ato contínuo, Paulo, Pedro e Tomé lançaram seus respectivos médicos, dentistas, advogados, professores e donos de botecos (só lamentaram ao perceber que haviam jogado o Mauro, do Kotovelo’s Bar).



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Os cacos já formavam uma colina em frente à república dos rapazes. Logicamente, o barulho e a baderna atraíram a atenção dos vizinhos, já bastante irritados com a rotina de festas no local. Um a um, os vizinhos e seus apelidos foram atirados sem maior dificuldade ao meio da rua, e ali transformados no mais indiscernível entulho. Dr. Cirillo Michael Jackson; Vânia Vera Fischer Depois da Gripe; Seo Alípio Leite de Magnésia; Sandoval Pinto Pequeno; Dona Márcia Bacalhau das Alterosas; Sueli Cara de Cu; Geraldo Pisa Torto; Dona Dita Asa de Moderato.


Tudo caco.



*****


Pedro atirou o elenco do Londrina Esporte Clube; Paulo, a frota de ônibus do Expresso Birigüi, que fazia a linha Araçatuba-Londrina em sete horas e meia; Tomé, suas próprias memórias corrigidas com Errorex; Pedro, um cartaz onde se lia 50 Anos Sem Freud; Pedro, umas fichas telefônicas que ele guardava não se sabe por quê; Paulo, as instituições da sociedade civil organizada; Tomé, a diretoria do Movimento pelo Ensino Superior Público, Gratuito, Laico e de Qualidade. Paulo, as polícias Militar, Civil e Rodoviária do Estado do Paraná.


*****


Por uma razão de praticidade, resolveram atirar no meio da rua a própria casa em que viviam, incluindo o casal de cachorros Jon Bon Jovi e Avril Lavigne. Estes, com o peculiar instinto de sobrevivência, latiram e ganiram, mas não foram ouvidos antes de se transformarem em louça quebrada.


Não contentes, os moradores agora sem-teto jogaram também a rua na própria rua, e o relógio que Pedro havia protegido da quebradeira final. Por esse motivo, Paulo e Tomé resolveram atirar Pedro ao monte de pedaços. Quando Tomé vacilou, Paulo o empurrou também.

*****


Apenas um homem restou para ouvir o silêncio desta manhã de domingo. E até que aquela xícara de chá não era tão ruim assim.

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Nossa força e nossa voz

Estou ficando antigo. Sou do tempo em que a UNE era oposição, não importava o presidente. Agora, Lula vai ao congresso da UNE e é ovacionado. Desde 2004, a UNE recebeu R$ 10 milhões do governo. Os militantes gritam: “Lula, guerreiro do povo brasileiro!”. Por que será, hein?

Sou da antiga; venho de um tempo em que sindicalistas defendiam trabalhadores. Agora, o presidente do sindicato diz que os motoristas de ônibus são “da geração Coca-Cola e videogame” e não querem nada com o pesado. E fica por isso mesmo.

Sou de um tempo em que os verdadeiros artistas e intelectuais não queriam nada com o governo; repudiavam incentivos oficiais em nome da independência. Hoje em dia a cultura virou refém do Estado – e parece apreciar o cativeiro.

Vivemos uma época bastante curiosa. Antes, as pessoas eram identificadas por suas profissões. A dona-de-casa Maria Costa. O advogado José Hosken de Novaes. O médico Euclydes Zerbini. O músico Antonio Carlos Jobim. O locutor esportivo Osmar Santos. O piloto Ayrton Senna. O pintor Iberê Camargo.

Agora, existem outras denominações. As pessoas são vistas não pelo que fazem, mas pelo grau de aproximação com alguém famoso, em algum momento da vida. Ou se definem por qualidades não enxadísticas, se é que vocês me entendem. A ex do Ronaldo. A ex do Latino. O ex da Juliana Paes. O ex-BBB. A filha da Gretchen. A sobrinha da Rita Cadillac. O gêmeo Fulano de Tal. A Surfistinha. A Melancia. A Moranguinho. A Bananinha. A Rebelde. A Barraqueira.

E as secretárias continuam perguntando ao telefone:

– Paulo Briguet, de onde?

Se houvesse telefone antigamente, as respostas seriam mais fáceis:

– Aqui é o Aristóteles de Estagira.

– Paulo de Tarso.

– Agostinho de Hipona.

– Jesus de Nazaré.

Também tem a outra perguntinha:

– Qual é assunto?

Sócrates responderia à secretária do jovem Platão:

– Tomei muito vinho ontem à noite e esqueci o que disse sobre a definição de amor. Não costumo tomar notas, será que o Platãozinho lembra alguma coisa?

Pascal diria à secretária de Descartes:

– Quero falar com o René sobre dualidade entre corpo e alma.

Churchill talvez tenha revelado à secretária de Roosevelt:

– Estou ligando para a gente salvar o planeta de um tirano genocida. Aquele do bigodinho, sabe?

Mas comigo essas perguntas são problemáticas. Nunca sei de onde sou nem qual é o assunto.

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O cão que veio com a chuva

Sem aviso, ele chegou no dia dos meus 39 anos: uma sexta-feira chuvosa. Deve ter sido abandonado por alguém. Tem olhos de dó, patas compridas, pelo dourado e bonito, o rabo entre as pernas. As orelhas se movimentam a qualquer ruído. Ficou assustado quando viu a própria imagem diante do espelho: achou que fosse outro cachorro. Latiu e chorou de medo, sem saber que o medo era de si mesmo. O reflexo no espelho, existência sem dono, parece ser uma noção muito sutil para um filhote de cinco meses. (Pelo menos essa foi a idade que o veterinário calculou, olhando a dentição do bicho, antes de dar um belo banho nele.)

Ele é o cão que veio com a chuva. Em espanhol, cão é perro; filhote de cão é cachorro. Ele é o cachorro que veio com a chuva, com o frio, com o final de semana. Se o deixássemos sozinho por mais uma noite ao relento, ele não resistiria. A essa altura, estaria brincando de bolinha com Tainá, lá no céu dos cachorros. Deus também oferece anjos aos cães. Um deles é Rosângela, minha mulher. Agora ela tem dois cachorros em casa. Eu e ele.

Ele tem a cabeça pequena e fina; as pernas são desproporcionalmente compridas. Parece um lobo. Será um lobo? Se ele uivar para a Lua, será um lobo. O homem é o lobo do homem. Mas acho que ele é cachorro mesmo: lobos não latem, e ele latiu para si mesmo no espelho.

O primeiro nome que demos a ele foi Lobinho. Mas é injusto. Lobos, a julgar pelas fábulas, são terríveis; ele é o ser mais indefeso do mundo. Quis subir no sofá, é bem verdade. Quis roer o tapete da sala. Mas sucumbe à menor repreensão. É um cão de romance russo.

Uma chave, segundo Chesterton, é um objeto absurdo sob todos os aspectos. Só serve para uma coisa: abrir a porta. Nós abrimos a porta para o filhote de cachorro que apareceu no dia do meu aniversário. É absurdo, eu sei. Tão absurdo quanto a imagem no espelho. Mas é tão necessário quanto o espelho nosso de cada dia.

E Rosângela chorou ao pensar em todas as crianças e cachorros que passavam frio na noite de sábado para domingo. Cheguei ao quarto, ela estava chorando. Chorava porque não podia salvar todas as criaturas de Deus que passavam frio naquele momento. Mas salvou uma.

Pensei que o cão poderia se chamar José. No Livro de Gênesis, José é abandonado pelos irmãos no fundo de um poço. No Novo Testamento, outro José é escolhido como o pai adotivo do Messias. O José do Antigo Testamento interpreta sonhos. O José marceneiro foge para o Egito com a mulher e o filho pequeno.

Mas estávamos passeando com o cachorro, no santuário aqui perto de casa, e uma moça o chamou de Cisquinho. Cisco é Francisco, protetor do seres indefesos, portador da mensagem de Deus. Abençoe este filhote, São José. Abençoe este cachorro, São Francisco. E obrigado pelo mais absurdo presente de aniversário.

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A gripe já pegou

O padre Fábio de Mello está fazendo sucesso. Era esperado para um show em Londrina neste domingo. Não vem mais. Bocas de Matildes dizem que ele não vem por causa da gripe suína. Mas é bom lembrar que, oficialmente, a assessoria do padre informa que ele adiou a apresentação por “motivos de força maior”.

Já que estamos falando de um padre, acredito que é coisa de Deus. Sou católico, não consigo imaginar força maior. Um amigo ateu diz que a força maior pode ser “o Ratzinger” (é assim que os ateus chamam o papa Bento XVI, brilhante teólogo e um dos homens mais preparados entre os que ocuparam o Trono de São Pedro nos últimos cem anos).

Mas acho que não foi “o Ratzinger”, não. O papa tem mais o que fazer. Talvez nem sequer o padre esteja sabendo por que o show foi adiado. Afinal de contas, Fábio de Mello é um homem cheio de compromissos: além dos shows, há os programas de TV, as entrevistas, os livros, as palestras. Para não falar nas missas, no estudo e nos momentos de oração.

Não sei se o padre está com medo de pegar gripe da gente, mas o fato é que a gripe pegou na gente. Até o momento há apenas um caso confirmado, mas a imagem da cidade está indissoluvelmente associada à pandemia. E não apenas por haver 22 casos suspeitos, mas também pelo fechamento do campus universitário. Espirrar e em seguida gritar “Eu sou londrinense!” equivale a gritar “Palmeiras!” na sede da Gaviões da Fiel; ou “Gilmar Mendes!” numa reunião do PT; ou “Milton Friedman!” numa plenária do PCdoB; ou “Twitter!” na presença do aiatolá Khamenei.

A Rosângela está lendo um livro escrito em parceria pelo padre Fábio de Mello e o professor Gabriel Chalita, ex-secretário estadual de Educação de São Paulo. “Sobre os medos contemporâneos” é um livro epistolar – um diálogo por meio de cartas entre amigos. Ainda não li, e será difícil fazê-lo agora. Tenho um montão de livros na fila. Quando digo montão, é montão mesmo: a Rô fica brava porque os livros encobrem o mostrador do rádio-relógio. (Coisas domésticas, que cabem na crônica.)

A gripe suína virou um dos medos contemporâneos. Eu tenho alguns medos piores – e o mais grave é que eles se realizaram. Um dos meus medos era Lula ser reeleito presidente. Ele não só foi reeleito como tem mais de 80% de popularidade, deixando-me sozinho na Kombi com mais meia dúzia de opositores. Nesta semana, apareceu abraçado a ditadores africanos – e falando de democracia. Meu medo é que Lula resolva importar um desses modelos de governança – Kadafi, Bashir, Ahmadinejad, Hugo Chávez – para as circunstâncias brasileiras. Afinal, Lula é igual a Sarney. Não é um ser humano comum. E essas coisas pegam.

Padre Fábio, reze por nós. Se der tempo.

PS: No texto original da crônica, publicada no JL, usei “exportar” em vez de “importar”. Mas, pensando bem, não ficou tão inadequado assim. Questão de perspectiva. Afinal, Lula é o nosso presidente que mais viaja – para encontrar ditadores. Nunca na história deste país...

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Quatro sonetos

1. DO JUIZ

Em minha defesa alego
que mal não quis a ninguém,
embora o erro – não nego –
em geral nasça do bem.

Por atenuante digo
que muitas vezes pensei
em rezar para o inimigo,
mas não cumpri essa lei.

Diante do Tribunal,
nada tenho a dizer, não.
Talvez, apenas: – Foi mal.

A punição do pecado
é tudo, porque mais não
foi dito nem perguntado.

2. DAS CALENDAS

Verão – não neste inverno –
o calor de uma estação
se olharem o eterno
ardor que nunca diz não.

Outono – digo à vera –
é folha quadripartida.
Em quatro partes impera:
morte, dor, amor e vida.

Inverno – sabe-se agora –
não existe neste chão,
ou será, a qualquer hora,

primavera – tempo irmão –:
a primeira a ir embora,
e nunca mais a verão.

3. DOS EXTREMOS

Ao extremo, egoísmo.
Ao extremo, caridade.
Um e outro, mesmo abismo:
de cada um, a metade.

Se um quer subir na vida
e outro faz fila pra morte,
ambos estão de partida
sem saber o que é o norte.

Sem saber o que é o este,
no sul me abandonei
de um solo tão agreste.

Egoísmo, caridade:
de cada um nada sei,
nem mesmo a meia verdade.


4. DA SEMANA

Para a segunda, a dor
de começar outra vez.
Dai-me forças, ó Senhor,
de ser, nesta terça, três.

Chega a quarta, bem-vinda:
já é meio da semana.
Mas eis que a quinta, linda,
a mim já não mais engana.

A sexta é da cerveja.
O sábado, o silêncio.
Por mais que o olho veja,
em outra coisa eu penso.

O domingo logo cai.
Só nele morre meu pai.

PS: Agradeço ao James, que me ensinou a fazer itálico e negrito.

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Não tenho telescópio em casa



Quando eu era menino, queria crescer logo. Meu sonho – ou melhor: meu objetivo – era virar adulto o mais rápido possível. Tinha dúvidas quanto a ser empresário, geólogo ou astrônomo. Mas a escolha era o menos importante. Essencial mesmo era fazer o relógio andar mais depressa e completar a maioridade. Grandes planos.

Ontem um não-leitor ou leitora (não sei: era anônimo) disse que estou em decadência. Boa notícia. Decadência é uma palavra mágica! Se decadente, já estive melhor. Quem é fóssil já viveu um dia. (O não-leitor ou não-leitora, é claro, nada tem a ver com meus sete queridos leitores.)

Quando eu era jovem, considerava-me velho. Ancião precoce, novidades não me empolgavam – e não me empolgam até hoje. Em minha opinião, juventude nunca foi mérito, nem qualidade. O tempo é muito escasso para perdê-lo sendo jovem.

Eis que cheguei, sem aviso ou preparo, à idade adulta. Deve ter acontecido há uns dez anos, pouco menos. Trinta anos para concluir o óbvio: maturidade não traz sabedoria. Maturidade é algo entre a obsolescência e a fadiga de material. Aliás, não tenho do que reclamar. Para meus modestos propósitos, venho funcionando bem. Visão, audição, paladar, equilíbrio, sono, apetite: tudo segue em paz, livre de desesperos e extravagâncias. Amo, sou amado, tenho amigos, trabalho, leio, conto piadas, faço imitações, ouço Bach, ando de ônibus, ando de táxi, entro no cheque especial. Engulo meu antidepressivo e meu remédio contra o colesterol. Sexta, cervejinha.

Tenho minhas implicâncias com o governo. Mas o que é o governo? Qual é o sentido de tomar posição política sobre assuntos banais, isto é, que não passam pela morte ou por Deus? Fico revoltado com os impostos, as frases do Lula, o puxa-saquismo, a arrogância da Petrossauro, o gigantismo do Estado, os anti-semitas, o Sarney, a Ideli Salvatti, o Requião, o PT, o Barbosa, o Belinati – mas sinceramente não vejo sentido em perder tempo com isso tudo. O tempo é muito escasso. Meu dom natural é a alienação política.

E a história do diploma de jornalismo? Passo. Rogério Fischer, meu querido amigo e mestre, com a veia que lhe é característica, emplacou o melhor título sobre a questão do diploma: “Você não vale nada, mas eu gosto de você”. Eu responderia com o verso seguinte da canção: “Tudo que eu queria era saber por quê”. O diploma continua valendo o que sempre valeu: nada. O que conta é o trabalho do indivíduo. O resto é retórica ou corporativismo – outros nomes para o medo.

Sou empresário, geólogo e astrônomo. Empresário de ideias falidas, geólogo de um só chão e astrônomo de céu nublado. Não tenho telescópio em casa, mas levo estas duas retinas para onde vou. Grandes planos, grandes planos.

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