1. DO JUIZEm minha defesa alego
que mal não quis a ninguém,
embora o erro – não nego –
em geral nasça do bem.
Por atenuante digo
que muitas vezes pensei
em rezar para o inimigo,
mas não cumpri essa lei.
Diante do Tribunal,
nada tenho a dizer, não.
Talvez, apenas: – Foi mal.
A punição do pecado
é tudo, porque mais não
foi dito nem perguntado.
2. DAS CALENDASVerão – não neste inverno –
o calor de uma estação
se olharem o eterno
ardor que nunca diz não.
Outono – digo à vera –
é folha quadripartida.
Em quatro partes impera:
morte, dor, amor e vida.
Inverno – sabe-se agora –
não existe neste chão,
ou será, a qualquer hora,
primavera – tempo irmão –:
a primeira a ir embora,
e nunca mais a verão.
3. DOS EXTREMOSAo extremo, egoísmo.
Ao extremo, caridade.
Um e outro, mesmo abismo:
de cada um, a metade.
Se um quer subir na vida
e outro faz fila pra morte,
ambos estão de partida
sem saber o que é o norte.
Sem saber o que é o este,
no sul me abandonei
de um solo tão agreste.
Egoísmo, caridade:
de cada um nada sei,
nem mesmo a meia verdade.
4. DA SEMANAPara a segunda, a dor
de começar outra vez.
Dai-me forças, ó Senhor,
de ser, nesta terça, três.
Chega a quarta, bem-vinda:
já é meio da semana.
Mas eis que a quinta, linda,
a mim já não mais engana.
A sexta é da cerveja.
O sábado, o silêncio.
Por mais que o olho veja,
em outra coisa eu penso.
O domingo logo cai.
Só nele morre meu pai.
PS: Agradeço ao James, que me ensinou a fazer itálico e negrito.