Nos últimos dias, vi dois filmes ótimos: ontem, no cinema,
O curioso caso de Benjamin Button e anteontem, em casa, DVD do camelô,
Ensaio sobre a cegueira. São filmes recentíssimos, de 2008, cujos enredos de tão simples e originais (talvez justamente por isso) nos remetem à pergunta boba: como não tinha pensado nisso antes?
Benjamin Button, com Brad Pitt no papel principal, foi dirigido por David Fincher, o mesmo de
Zodíaco e
Clube da luta. O argumento vem de um conto de F. Scott Fitzgerald e apresenta a história de um homem que nasce velho e com o passar do tempo rejuvenesce. Logo no início me chamou a atenção certas semelhanças com
Forrest Gump (1994), de Robert Zemeckis. Os dois personagens principais são extremamente carismáticos, doces, até meio abobalhados, deixam-se conduzir pelos percalços de suas vidas de modo pacífico. E são muitos os percalços e fatos históricos importantes que presenciam e dos quais participam. Contudo, a maior proximidade é o poder magnético da história, pois não se consegue desgrudar os olhos da tela um segundo sequer. A empatia causada pelos personagens centrais desenlaça as narrativas de modo suave e constante; os dois são exímios contadores de histórias. Além disso, a técnica utilizada em ambos é a do flashback, que confere um ar nostálgico irresistível.
São os temas que o filme apresenta que tocam mais fundo: a necessidade de adaptação à regras do mundo social, a finitude e, claro, o amor, encarnado na figura materna de Queenie e sobretudo de Daisy, personagem da lindíssima Cate Blanchett. O tempo, certamente o tema que permeia todos os outros, é visto de modo circular. Nos desencontros e acasos que nos regem, há um ponto demarcador das maiores aprendizagens valorizadas pela história: viver as convergências amorosas e saber se despedir daqueles aos quais nos apegamos.
Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles, prima pelo retrato do sufoco, da desorientação causada pela epidemia de cegueira, em que as condições humanas de sobrevivência ficam relegadas aos outros quatro sentidos restantes. O caos demonstrado por uma câmera e perspectiva quase sempre desfocadas, trêmulas, justamente para sugerir a desorientação humana diante de uma nova imposição natural, é implacável.
Só uma personagem continua vendo e é o apoio necessário que o espectador tem para compartilhar sua experiência: o mundo cuidado pelo ser humano que vê não é nada, em sua maior parte, melhor ou mais avançado moral e solidariamente que aquele imperado pelos cegos. O filme mantém a ideia principal de Saramago: qual a responsabilidade de se ter olhos quando ninguém mais vê? Fica a impressão de que a eficácia crítica das alegorias literária e fílmica é justamente conseguir fazer de todo mundo cego fisicamente para em seguida revelar que aquilo que é velado diariamente (a violência, o descaso, a corrupção, a miséria) venha à tona de forma mais contundente, já que quase nada muda no comportamento do homem. Dessa forma, a cegueira age como um espelho. Não é uma cegueira de trevas, são trevas brancas que acometem os indivíduos.
Ao comentar a literatura fantástica, José Paulo Paes escreveu: “Num conto fantástico, em nenhum momento o leitor perde a noção de realidade”. O mesmo se aplica a
Benjamin Button e
Ensaio sobre a cegueira, um cinema de cunho fantástico. Nunca somos suspensos da realidade dita concreta. E é exatamente isso o que a torna mais dolorosa e mantém o mistério de esses filmes serem realidades brutas. A fantasia é tão verossímil e a realidade tão extravagante que nessa ambiguidade reside o poder de a ficção e o cotidiano se alimentarem mutuamente, alargando nossas percepções da natureza e do ser humano.