Energia nuclear é inevitável para salvar clima

Meu comentário:

Para quem teve experiência com o fortíssimo ativismo anti-nuclear das décadas de 70 e 80, assim como sua continuidade em tom mais fraco a partir de então, em geral desconectada da realidade da tecnologia nuclear a partir do anos 90, é muito irônico o rumo que a questão do meio-ambiente versus energia nuclear está tomando, como vemos na notícia abaixo, que não é a primeira nesta linha de argumentação, a qual está se fortalecendo cada vez mais. O vilão está virando herói ?!?!


JC e-mail 3795, de 01 de Julho de 2009.

Energia nuclear é inevitável para salvar clima, diz Nobel

Sete laureados reunidos na Alemanha pedem ação imediata contra gases-estufa. "Não deveríamos jogar roleta com o planeta", diz Mario Molina, que elucidou papel de gás industrial no buraco da camada de ozônio

Marcelo Leite escreve para a “Folha de SP”:

Há poucos lugares no mundo, além de Estocolmo, onde se podem juntar numa mesa sete prêmios Nobel de Química. Aconteceu ontem de manhã numa cidadezinha do sul da Alemanha, durante a 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau, diante de seis centenas de jovens pesquisadores. Talvez ainda mais raro, todos concordaram: a mudança do clima é criada pelo homem e por ele tem de ser resolvida. Com urgência. E a maioria acha que talvez não dê para abrir mão da energia nuclear.

Se Nobel é sinônimo de craque em ciência, esse grupo deveria bastar para convencer de que o aquecimento global não é invenção de ambientalistas: Gerhard Ertl, alemão (2007); Robert Grubbs, americano (2005); Walter Kohn, austríaco (1988); Harold Kroto, britânico (1996); Rudolph Marcus, canadense (1992); Mario Molina, mexicano (1995); e Sherwood Rowland, americano (1995).

Molina, talvez a maior estrela entre os 23 Nobel presentes em Lindau, relacionou o que o planeta está vivenciando: decréscimo de 7% ao ano na extensão das geleiras, duplicação das regiões áridas, aumento estatisticamente significativo de enchentes, incêndios florestais e secas, de 1950 para cá.

"Não deveríamos jogar roleta com o planeta", disse Molina, também conselheiro científico da Presidência dos EUA. "São as atividades humanas que estão mudando o clima, esse é o consenso científico."

O mexicano, da Universidade da Califórnia em San Diego, afirmou que o ritmo, a amplitude e o padrão do aquecimento da atmosfera já observados não se encaixam em nenhum precedente conhecido de alteração do clima em muitos milênios.

Ele deve saber do que está falando. Molina e Rowland dividiram o Nobel de Química de 1995 com o holandês Paul Crutzen por seu trabalho sobre a destruição da camada de ozônio. Foram pesquisas como essas que levaram ao bem sucedido Protocolo de Montreal (1987), banindo os gases CFCs.

Os efeitos de Montreal podem ser sentidos agora. O buraco no ozônio sobre a Antártida e a Patagônia, na primavera, vem diminuindo de tamanho.

Apesar de muito mais grave, a mudança climática global só contou até agora com o modesto e fracassado Protocolo de Kyoto (1997). A expectativa se volta agora para a conferência de Copenhague, em dezembro, que deveria finalizar um tratado sucessor para Kyoto, para vigorar depois de 2012.

A atmosfera demora a reagir. Gases produzidos hoje podem ficar dezenas ou centenas de anos em ação. É o que ocorre com o principal gás do efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2). Para estabilizar sua concentração daqui a cem anos, é preciso cortar emissões pela metade nas próximas décadas.

Da plateia veio a pergunta que não queria calar, sobretudo por haver nela 45 pesquisadores indianos e 27 chineses: é inevitável diminuir o crescimento da população ou do nível de vida no planeta para conter a mudança climática?

Mais uma vez foi Molina quem falou pela maioria: "Inevitável, não". Para ele, a humanidade já dispõe das tecnologias para enfrentar o problema.
"Só é um desafio gigantesco."

Na primeira rodada da mesa, cada um havia listado contribuições que a química poderia dar para ajudar a atacar o desafio. Muitas: baterias mais eficientes, novos materiais para abaixar o custo e melhorar o desempenho de painéis fotovoltaicos e de turbinas de vento, processos para retirar CO2 da atmosfera e armazená-lo.

Resvalando da química para a física, a energia nuclear também foi lembrada. A fusão de átomos para obter energia, que três décadas atrás era encarada como a grande solução, permanece ainda como promessa - para daqui a 50 ou cem anos.

Já a fissão (quebrar núcleos atômicos), base das atuais usinas nucleares, tem um papel mais ou menos garantido, reconheceram quase todos, meio a contragosto. No mínimo é preciso intensificar a pesquisa para avançar a nova geração de reatores, mais seguros.

A voz discordante veio de Walter Kohn: "Sou velho o bastante para ter testemunhado as bombas atômicas no Japão e jovem o bastante para ler jornais e saber do que está acontecendo na Coreia do Norte e no Irã". Disse que, para satisfazer as necessidades crescentes de energia, centenas de reatores teriam de ser construídos, trazendo o risco de proliferação.

"Será uma pressão enorme", concordou Harold Kroto, mas com um eufemismo: "A probabilidade de comportamentos repreensíveis aumentará dramaticamente. Temos de pensar nisso com cuidado".
(Marcelo Leite viajou para a Alemanha a convite da 59ª Reunião de Prêmios Nobel em Lindau)
(Folha de SP, 1/7)

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=64432

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