Escrevi o texto abaixo no último domingo, a pedido da Helena, pra ser usado em um programa de TV (esta matéria é um dos frutos do último Putz, pelo que fiquei sabendo). Quem me conhece e já conversou comigo sobre o assunto, sabe que eu tenho uma visão mais “purista” do tema e não concordo com a banalização do termo trash, que ultimamente tá sendo usado e abusado indiscriminadamente pra taxar qualquer coisa que seja ridícula, absurda, sanguinolenta, de mal gosto ou mal feita - acho que é tudo culpa daquele corno que escreveu aquele artigo horrívir na veja em 1995.
Modéstia à parte, gostei desse meu texto. Acho que resume bem a história, coloca uns pingos nos is, cita diversos nomes pra quem quiser procurar, e até faz as devidas conexões com hollywood e com fatos recentes. Lá vai:
Trash Movies
Cultuados por milhares de fãs pelo mundo afora, os filmes trash, também conhecidos como filmes B, são produções cinematográficas de baixíssimo orçamento e que, de tão mal feitas, acabam provocando risos no espectador devido a sua precariedade. O termo Filme B vem do fato de muitos destes filmes baratos serem rodados em cenários reaproveitados de outros filmes maiores. Trash, em inglês, significa “lixo”, uma forma pejorativa de taxar estes filmes fora dos padrões da grande indústria cinematográfica.
Sua origem ocorreu nos anos de 1950, quando o jovem aspirante a cineasta Ed Wood realizava o sonho de ser diretor de cinema. Graças a sua criatividade e ingenuidade, as histórias de seus filmes eram ricas em elementos que se tornaram características fundamentais dos trash movies, como horror, suspense, monstros, alienígenas, cenários capengas, garotas sensuais, humor negro, tudo somado a roteiros absurdos e sem lógica. Seus clássicos são “Plan Nine From Outer Space”, “Glenn or Glenda” e “The Bride of the Monster”.
A novidade despertou o interesse de dois estúdios da época que começaram a abrir suas portas para gênero: Universal Studios, nos Estados Unidos, e a Hammer, na Inglaterra. Ambas investivam em diversos monstros clássicos como Drácula, Frankeinstein, A Múmia, O Monstro da Lagoa Negra, Lobisomem, O Fantasma da Ópera, entre tantos outros.
A imaginação fértil dos diretores gera histórias desconcertantes que levam títulos curiosos como “A Noite dos Mortos-Vivos”, “O ataque dos tomates assassinos”, “A invasão das mulheres-abelhas”, “papai noel conquista os marcianos”, “palhaços assassinos do espaço sideral”, só para citar alguns exemplos.
Um filme trash não o é por opção do diretor. Este acredita que está fazendo um grande trabalho e procura fazer seu filme da melhor maneira possível dentro de suas condições técnicas limitadas e do orçamento apertado. Mas quando o resultado é mal feito e risível, aí ele recebe o título de trash. Se enquadram neste perfil nomes como Ed Wood, Roger Corman, George Romero e Dario Argento. No entanto, há diretores que fazem trash proposital, e isto é mal visto pelos fãs do gênero, e neste caso os filmes recebem a classificação de “Camp”. A produtora Troma, de Nova Iorque, investe neste filão há 30 anos. Seu diretor mais conhecido é Lloyd Kaufmann, responsável pelo maior clássico da empresa, “O Vingador Tóxico”.
No Brasil, o nome mais conhecido do gênero trash é José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que nem sempre aceita o termo para classificar seus filmes. Ele se defende alegando que o que ele faz é um cinema caseiro, de poucos recursos, mas de muitas idéias. Outro nome a ser citado é o de Petter Baiestorf, que na década de 90, fundou sua pequena produtora, a Canibal Produções, em Palmitos, interior de Santa Catarina. Realizou dezenas de filmes, dos quais o mais conhecido é “O Mostro Legume do Espaço”. A grande maioria é feita em video, mas as dificuldades de produção são as mesmas enfrentadas pelo cinema tradicional.
Em Hollywood, um fato recente causou espanto em toda a comunidade de fãs do gênero: foi a contratação de cultuados diretores trash para comandarem grandes blockbusters. Sam Raimi, que dirigiu “A Morte do Demônio” e “Uma Noite Alucinante” ficou responsável pelos filmes da série “O Homem Aranha”. Já o neozelandês Peter Jackson, o mesmo de “Fome Animal” e “Náusea Total”, ficou a cargo da trilogia “O Senhor dos Anéis”. As produções hollywoodianas feitas pelos dois diretores foram alguns dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema.
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