Eu não gosto de gente efusiva. Não sei lidar com pessoas que chegam nos lugares com melancias imaginárias no pescoço. Não acho natural alguém que não me conheça me chamar de "amiga", e reajo mal ao exagero gestual e sonoplástico. Não tenho paciência com vendedoras de loja que me chamam pelo diminuitivo segundos após eu ter dito o meu nome, e que insistem em dizer que o jeans ficou ótimo quando o espelho grita de horror. Ok, talvez essas pessoas não sejam efusivas de verdade. Talvez elas façam isso com o único objetivo de vender mais. Comigo não funciona. A verdade é que eu valorizo a discrição, talvez até pela minha própria personalidade, que eu não diria que é totalmente instrospectiva, mas, sim, é muito mais "pra dentro" do que o contrário. Adoro quem fala baixo, quem chega sorrateiro, quem tem o bom senso de não achar que é íntimo sem o ser. Esses dias eu estava no Vilão com dois amigos, igualmente defensores da causa, quando um grupo de cinco meninas efusivas sentou numa mesa próxima à nossa. Minutos depois, já tínhamos algumas informações sobre a vida de cada uma delas, e sabíamos que a Cris tinha "pegado" o garçom. Tentamos continuar a nossa conversa e fingir que não era com a gente. E não deveria mesmo ser, mas o fato é que foi ficando praticamente impossível sustentar um assunto na nossa mesa quando a poucos metros de distância o nível de decibéis ultrapassava os limites, se não os permitidos por lei, os permitidos pela nossa tolerância. Os incomodados que se retirem? Os incomodados bem que tentaram, mas não havia outra mesa, e a nossa garrafa de vinho ainda estava na metade. Resolvemos, então, por ém prática o outro dito popular e nos juntamos aos inimigos, uma vez que não era possível vencê-los. Não, não fomos nos sentar com elas, mas pusemos fim à tentativa de continuar o nosso assunto e nos dedicamos unicamente a ouvir a conversa das meninas, que estavam falando sobre gostos musicais, até que:
- Quando eu era pequena, eu era bem mais culturada e ouvia mais MPB, tipo Roberto Carlos, Jorge Benjor, Agepê. Depois do Raça Negra eu parei um pouco porque pagode é mais alto astral e...
- O que é Agepê?
Enquanto o coral da mesa das meninas cantava "Deixa eu Te Amar" em uníssono, nós, em silêncio, pedíamos a conta.
Eu não sei dizer ainda se foi nível auditivo, gramatical, cultural ou musical da conversa que doeu mais os ouvidos da nossa mesa "toda-ouvidos", mas decidimos terminar o vinho e o papo em outro lugar.