O pai dela sempre quis ter um filho homem. Sonhava que o filho inexistente iria tocar acordeão como ninguém. No interior do Paraná, filho que se preza tem que tocar acordeão para a família, nos fins de semana, nas festas de fim de ano. Quando fez 11 anos ela se encheu das provocações paternas: aprendeu em segredo tocar o instrumento. Mãos frágeis, femininas, dedos curtos para alcançar um sem número de chaves e teclas. Conseguiu. Aprendeu três músicas, assim... para variar o repertório. No fim de ano, ninguém esperava, e ela fez um concerto. Mãe orgulhosa, pai agradecido.
Agora ela já podia sair de casa.
Foi pra capital e hoje veste uma roupa de festa em pleno meio-dia. Toca as três músicas que sabe para os motoristas nos pontos de táxi.