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tipos, tipinhos e afins: genealogias

tipos geek
Quando o tipos começou foi há muito tempo atrás, alguns amigos, a vontade de escrever e um cara legal que sabia muito de mexer com computador. Aí a comunidade tipos cresceu e eu ganhei desse bom amigo meu blog de presente.
Eu estava na casa do José Carlos (acho) quando escrevi a primeira vez aqui. Com o tempo o tipos ampliou-se. No começo eu escrevia bastante e com frequência. Mais aí com tantos blogs bons, eu lia e comentava mais que escrevia. Meu tipos ganhou teia de aranha. Vieram as "hecatombes" e muito se perdeu nelas, muita coisa mudou, muita gente foi embora. Ainda assim tinha sempre um certo frescor, gente nova aparecendo. Novas discussões e muita mudança. Uma linha tipos móveis, que já nos blogs davam novos sentidos e novas direções ao tipos. Die neue welle.

Tipos Móveis

(Tipos móveis - de metal e de madeira. Foto: H. Wren)

Agora o tipos está diferente. Talvez por isso eu escreva mais aqui agora. Porque fico buscando as gentes que conheço e nossos tipos antigos. E porque fiquei feliz demais que não acabou. Mesmo esse blog com seu layout não ter mais minha cara, mesmo eu sentindo a falta daquelas mil gentes, aqueles mil tipos, que fizeram desse espaço sem território uma das melhores paisagens que já vi.

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queria tanto voltar a ler entre tantos: gabi, ade, miguel, moraes, ygor, james, zamba, vaca, zero, claudinho, manza, groucho, grota, gi, briguet, guilherme, marcelo, chico, sara, daniel (do preto fosco), maria rita, fernanda brun, etc e etc e etc. saudade de ler vocês.

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Identidade Caipirinha

(Ode a de Onde Eu Vim e aos Meus Avós)


caipirinha-eu: colagem minha, com influencia de volpi, foto minha

Como aqui só escrevo de mim, lá vai mais sobre mim para todos que puderem não se interessar (eu sei que são muitooos).
Bem, desde que tenho um amigo-novo-carioca percebo mais e mais a minha identidade caipirinha. Nascida no interior de São Paulo o meu "r" é ééri mesmo. Desses erres que estalam no céu da boca direto das profundezas da garganta.
Além disso entre gostar de carnaval e outras festas, sou muito mais uma festa junina, com dança de quadrilha, quitutes de milho, até os modelos de festa junina acho mais luxo, estampas florais, babados. Eu adooooro um babado (em todos os sentidos).
E minha barriguinha caipira adora os sabores da terra: arroz e feijao com banana frita, batata doce, sopa de mandioquinha ou a mesma refogadinha, bolo de fubá, goiabada, geléia de goiba, comer fruta direto da árvore, adoooro quiabo, rocambole com recheio de goiaba, um cafézinho com pao na chapa, comida de fogao a lenha e assim por diante. Minha barriga é caipira, meu gosto e paladar também.
No guarda-roupa tenho mil peças xadrez. Meu casaco de inverno é xadrez. Minha moda é caipira.
Ainda hoje uso trancinhas no cabelo. É a ingenuidade que preciso para não ser ingênua. O caipira tem essa dubiosidade. Ele sabe olhar desintendido entendendo tudinho. E ele cala para não falar demais. É esperto em seu silêncio. E quando fala demais é sabendo das consequências. O caipira adora uma prosa. Eu sou proseadeira.
De Alfredo Volpi

Além disso parte de minha identidade caipira é da minha história pessoal. Além de morar no interior paulista, passei a infância indo pro sítio. Sempre correndo atrás dos pintinhos (sem segundos pensamentos hein), subindo no pé de manga, comendo abacate com limão, embalando os fins de tarde na varanda no balanço da rede. A ducha era fria no sítio e refrescante, porque o interior paulista é quente. A noitinha minha vó colocava a gente na cama, esticava a colcha de retalhos e ligava a luz dum abajur que era um santinho: seu josé com o menino jesus no colo. A caipirice tem suas crenças e eu mesmo ateista de coração e convicção ainda amo o Seu Zé com seu menino no colo.
A minha avó é daquelas que fazia requeijão caseiro, yogurth caseiro, queijo minas, bolo de laranja, bolinho de chuva, rabanada no natal, bolo de fubá com erva doce, rocambole com goiabada e que contava histórias antes da gente dormir e meio que dormia antes de terminar a história antes da gente dormir.
O barulho do sítio a noite era uma imensidão de ruídos e de vida. Eram cigarras, eram sapos, era uma sinfonia. A gente dormia cedo. Acordava cedo quando o tio tinha trazido o leite fresquinho, que a vó fervia no fogão a lenha. A gente ia às vezes ver o café ser peneirado no pátio. Ser colocado nas lonas e ser mexido com a inchada. Às vezes a gente brincava de fazer igual. Às vezes a gente ia andar a cavalo, mexer com as vacas no pasto (oferecendo capim a elas da beirada da cerca). Às vezes a gente ia pra horta, onde os legumes felizes tomavam banho de sol.
Isso é ser caipira. Toda uma história, todo um habitus, toda uma composição de coisas e vida. Então meu érre arrastado é orgulhosamente caipira. Porque a gente que é caipira é muito menosprezado pelo resto do Brasil. Mas de onde vem o que eles tem de bom? É dos nossos lados, das gentes das terras, com os sotaques arrastados. E donde vem o que vivemos de bom na infância (que duvido que alguém teve tanto quanto nós)? É aí do nosso interior.
No interior da pele, do corpo, também mora o coração.


PS: tudo bem que pulei a parte de viver no interior com os agroboys, as baladas sertanojos, as baladas nos postos de gasolina e as músicas sertanejas-trashs. Mas é que disso, nunca fiz parte e sempre odiei. Não é preciso isso pra ser caipira bão. Na caipirice também há vida alternativa.

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a cabeça de uma mulher

colagem e foto: Ísis Fernandes Pintocolagem e foto: Ísis Fernandes Pinto

na cabeça de uma mulher acontecem muitas coisas. é quase como numa poesia feminina ou numa dessas modernistas, cheias de onomatopéias. ao menos na minha é assim e

EU SOU UMA MULHER.


no entanto, quando eu enuncio "eu sou uma mulher", sei de toda perfomance que insiro no ato de ser algo, mesmo sabendo que todo gênero é um pouco absurdo e restringente. restringente mesmo, apesar de talvez ser ainda mais restritivo. (será que estou sendo redundante? talvez, é a falta de familiaridade com o português, que anda em desuso nessa minha vida de agora). em verdade

sou Ísis.


mas enfim... voltemos à minha cabeça. na minha cabeça há diferentes histórias, memórias, segredos. entre os mais corriqueiros estão os ideias de amor e as fantasias de sexo. esses dois sempre se comunicam, se atraem e se repelem, numa ciranda infinita, na qual sempre me jogam no meio e fico buscando o meu ritmo e minha hora de voltar à roda. ao final meio tonta percebo que estou sendo levanda impulsionada a algo e a mim, numa fluidez sem fim.
essa minha cabeça, meio zonza, me induz a mil percepções que talvez só eu entenda e só eu não-entenda. ela induz meus olhos, envenena meus atos, me bota em xeque.
um dia um amigo meu me disse: ísis nunca leio seus posts porque não os compreendo, acho que nem você o faz. lembro que ri. ri porque sei que essa "nênia noctâmbula" é minha cabeça. tem um entre-ato nesse blog. e em mim há mil hiatos. e mais uma multidão inteira, esperando eu escrever algo, sentenciar, enunciar. aí venho aqui e me derramo. derramo minha cabeça como se a estourasse com o tiro, mil palavras são os miolos que grudam agora nessa folha virtual. bi-zar-ro.
então essa minha cabeça de mulher me questiona: que você quer dizer, por exemplo agora?
E eu respondo: "que me confundo. me confundo muito. me confundo no amor, na fantasia, no sexo, nos textos e na minha própria percepção disso tudo, do que sou e do que reflito que sou e ponto e na verdade me revelo todo dia, pros desconhecidos e pra mim. entre uma linha e outra me perco, entre um início e fim, mudo".

será que posso publicar-me assim?

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de ontem, a boemia

andando pelas ruas eu e mais três homens.
Modern Bohemia by Ernst Ludwig Kirchner

todos eles, todos nós já bebados, já em cada posicao consequente dos comportamentos entre tres homens e uma mulher.
ontem pelas ruas até o bar éramos quatro, depois da festa, caminhando.
e no bar, brandy, vodka, cerveja, mil trocas de risos, impressoes, incertezas, inversos: gêneros. se fala de homem e mulher, se fala de textos, se fala de histórias, de gentes que se conhece, de coisas que nao acontecem, de vodka-conhaque-brandy-cerveja.
depois a saidera.
depois a baboseira.
depois tentativa de beijo.
o pedido d'um cigarro.
outro homem, mais cortejos.
ai os três homens se perguntam, quando foi que isso aconteceu, de sairmos, bebermos, rirmos e do cigarro? volta o mesmo circulo, menos um, que era o intruso (que ainda insistirá pelo numero do telefone).
aí somos quatro, os da festa, os da neve, os caminhantes. os do bar: vodka, brandy, cerveja, brandy.
aí sete horas. a derradeira. aí os comentários de um possível vinho, um homem mais sonolento se retira. dois e uma. e mais vinho, mais música, mais bêbados. mil cortejos e nada de acontecimentos, a graca é no entre-ato.

O ato é supérfluo.


depois da boemia, o bocejo. sono. sonhos. outro dia. outros planos (um sarau), uns adeuses. de ontem, a boemia - tentativa de uma quase literatura.

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Noite Branca

fotografia e imagem: Ísis Fernandes Pinto

Ainda agora vi-me num momento mágico. A cidade branca, como se um tapete alvíssimo se estendesse pela rua, calcada, sob meus pés. Que linda, que branca, que alva, que limpa a cidade pareceu, ainda mais com a noite, que disfarca tudo. Senti-me a última pessoa existente, a pessoa que caminha só sob a neve, numa solidao doída, mas de uma beleza impar. Andei devagar, pisei a neve, meus pes eram os primeiros a fazê-lo já que nao havia antes ninguém passado por ali, a cidade estava em silêncio, quase em toque de recolher. Eram já passado das nove, quase dez da noite e só eu aproveitava aquela brancura,

aquela noite de marfim.

Eu vi a cidade branca, alva, como uma virgem do romantismo. Eu caminhei sob a neve, sobre a neve, com um saborear quase maldoso em pisar pela primeira vez aquela beleza, mas ao empurrar a neve do chao, das coisas, já outra neve pousava silenciosamente sobre tudo. Era como se um manto se estendesse pelo caminho, como se uma noiva gélida passasse com seu véu alvíssimo. A albugínea da vida. A brancura do silêncio. Assim esteve a cidade ainda agorinha e deve estar ainda agora e estará até amanha pouco antes das seis - quando ainda os passantes nao tiveram espezinhado tudo até transforma-la em água suja, lama.

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deixar-se levar (recital de uma anciã)

tem certas coisas que acontecem na vida e são como uma brisa constante na vela da embarcação. a vida acontece cada dia, parece soar óbvio ou cliché, mas é a sentença mais honesta e mais dura também.
De Brossa, Poema Objeto

é um segundo atrás do outro e nosso tempo vai sendo marcado como num relógio gigante. somos efémeros. somos de carne e osso. somos o agora ansiando ser algo pela imensa angústia de sabermos que estamos a padecer. a cada dia estamos indo. sim, obrigada. tchau, até logo. e o logo? se vem, foi muito rápido. e cá estamos e enquanto estamos o tempo vai passando, correndo, voando. é como se o tempo fosse um corredor, tão rápido, de pernas tão longos, de dimensões tão absurdas, que é impossível competir com ele.
Poema Objeto

então os convido a ver. VEJAMOS! o tempo é um corpo que nos lembra que nosso corpo é passageiro. logo já não estaremos. resta o silêncio. o silêncio que guardamos nas coisas que tentamos mudar a cada dia para o melhor de algo que não veremos, assim tentamos acreditar que algo de nós ficará depois: a terra, isso que foi nosso lugar, nosso cenário. como bons artistas que somos temos que aceitar: há sempre um momento em que se deve deixar o palco. mas o palco nunca deve deixar de existir, se não a magia da arte (da vida) desaparece.

...
Natureleza Muerta, Poema Objeto

a velhice do corpo, a finitude da morte é apenas uma sentença. o que fica, este espaço que deixamos é o segredo do qual fazemos parte e talvez isso se chame vivenda. talvez, no mais, nós sejamos o parênteses entre isso e o sentido profundo da existência.

...
que seja festejada a transitoriedade, mas a nossa! e que o espaço que nos recebe em toda nossa brevidade seja cuidado com zelo e afeto, por nós todos que ainda somos e estamos.
e que o corpo tal nau deixe-se levar!

A língua

  • Disse o poeta: "deveria ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira".


  • Francesca Woodman. Self-portrait: poderia ser o meu retrato?


    Responde a discípula: "sendo debochada, sinto saudade do gosto de viver minha própria língua"


    Woodman: Sloan/Tongue, 1976. Essa língua poderia ser a minha e no entanto nao o é.

    Impressões e "Impressionistas" (ou ode àqueles que causam as impressões) II

    Mulheres e uma camera de capturar imagens

    I. Diane Arbus

    Arbus Pokus: o perigo de estar à deriva da faca

    II. Nan Goldin

    a espera do clicar de olhos mecanicos

    III. Cindy Sherman

    a fantasia de sermos outros em nós mesmos frente à camêra

    IV. Gertrud Arndt

    a partir da beleza, da textura e da imagem feminina

    V. Grete Stern

    investigando qualquer coisa onírica

    VI. Claude Cahun

    quando buscar a identidade se torna a imagem no espelho

    (eu bem que poderia postar ad infinitum, colocar algo de mim, vislumbrar mil outras elas e suas camêras e suas lentes, mas me redimo dessa busca, passo aos outros, a você e a mim de outro tempo. por exemplo uma fotógrafa que sempre me impressionou e impressiona é Maria Fernanda Vilela de Magalhães, mas infelizmente nao encontro nada na internet dela para colar nesse mural de palavras, sentidos e imagens eletrônicas. quem sabe um outro dia.)

    Novas impressoes nesse novo mundo: primeiro a palavra sem imagens

    buraco negro de mil letras

    Estou mais perdida que cego em tiroteio. Mais perdida que agulha no palheiro. Mais perdida que qualquer areia no vento a beira mar. Meu Deus! Quanta mudanca... Todas as minhas imagens sumiram. Tudo que ficou foram palavras, perdidas como eu, nessa imensa sopa de letrinhas.

    Impressões e "Impressionistas" (ou ode àqueles que causam as impressões)

    A. Dança

    I. Merce Cunningham

    MerceCunningham: sendo a cadeira ou sentado além da cadeira

    II. Kazuo Ohno

    ("I dance into the light")

    Kazuo into the light

    III. Martha Graham

    Martha Graham: expressionista alema em impressao fotográfica


    IV. Pina Bausch

    Pina Bausch

    V. Vaslav Nijinsky

    Nijinsky e súbito o mundo tornou-se moderno!

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