(Ode a de Onde Eu Vim e aos Meus Avós)
Como aqui só escrevo de mim, lá vai mais sobre mim para todos que puderem não se interessar (eu sei que são muitooos).
Bem, desde que tenho um amigo-novo-carioca percebo mais e mais a minha identidade caipirinha. Nascida no interior de São Paulo o meu "r" é ééri mesmo. Desses erres que estalam no céu da boca direto das profundezas da garganta.
Além disso entre gostar de carnaval e outras festas, sou muito mais uma festa junina, com dança de quadrilha, quitutes de milho, até os modelos de festa junina acho mais luxo, estampas florais, babados. Eu adooooro um babado (em todos os sentidos).
E minha barriguinha caipira adora os sabores da terra: arroz e feijao com banana frita, batata doce, sopa de mandioquinha ou a mesma refogadinha, bolo de fubá, goiabada, geléia de goiba, comer fruta direto da árvore, adoooro quiabo, rocambole com recheio de goiaba, um cafézinho com pao na chapa, comida de fogao a lenha e assim por diante. Minha barriga é caipira, meu gosto e paladar também.
No guarda-roupa tenho mil peças xadrez. Meu casaco de inverno é xadrez. Minha moda é caipira.
Ainda hoje uso trancinhas no cabelo. É a ingenuidade que preciso para não ser ingênua. O caipira tem essa dubiosidade. Ele sabe olhar desintendido entendendo tudinho. E ele cala para não falar demais. É esperto em seu silêncio. E quando fala demais é sabendo das consequências. O caipira adora uma prosa. Eu sou proseadeira.
Além disso parte de minha identidade caipira é da minha história pessoal. Além de morar no interior paulista, passei a infância indo pro sítio. Sempre correndo atrás dos pintinhos (sem segundos pensamentos hein), subindo no pé de manga, comendo abacate com limão, embalando os fins de tarde na varanda no balanço da rede. A ducha era fria no sítio e refrescante, porque o interior paulista é quente. A noitinha minha vó colocava a gente na cama, esticava a colcha de retalhos e ligava a luz dum abajur que era um santinho: seu josé com o menino jesus no colo. A caipirice tem suas crenças e eu mesmo ateista de coração e convicção ainda amo o Seu Zé com seu menino no colo.
A minha avó é daquelas que fazia requeijão caseiro, yogurth caseiro, queijo minas, bolo de laranja, bolinho de chuva, rabanada no natal, bolo de fubá com erva doce, rocambole com goiabada e que contava histórias antes da gente dormir e meio que dormia antes de terminar a história antes da gente dormir.
O barulho do sítio a noite era uma imensidão de ruídos e de vida. Eram cigarras, eram sapos, era uma sinfonia. A gente dormia cedo. Acordava cedo quando o tio tinha trazido o leite fresquinho, que a vó fervia no fogão a lenha. A gente ia às vezes ver o café ser peneirado no pátio. Ser colocado nas lonas e ser mexido com a inchada. Às vezes a gente brincava de fazer igual. Às vezes a gente ia andar a cavalo, mexer com as vacas no pasto (oferecendo capim a elas da beirada da cerca). Às vezes a gente ia pra horta, onde os legumes felizes tomavam banho de sol.
Isso é ser caipira. Toda uma história, todo um habitus, toda uma composição de coisas e vida. Então meu érre arrastado é orgulhosamente caipira. Porque a gente que é caipira é muito menosprezado pelo resto do Brasil. Mas de onde vem o que eles tem de bom? É dos nossos lados, das gentes das terras, com os sotaques arrastados. E donde vem o que vivemos de bom na infância (que duvido que alguém teve tanto quanto nós)? É aí do nosso interior.
No interior da pele, do corpo, também mora o coração.
PS: tudo bem que pulei a parte de viver no interior com os agroboys, as baladas sertanojos, as baladas nos postos de gasolina e as músicas sertanejas-trashs. Mas é que disso, nunca fiz parte e sempre odiei. Não é preciso isso pra ser caipira bão. Na caipirice também há vida alternativa.