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a cabeça de uma mulher

colagem e foto: Ísis Fernandes Pintocolagem e foto: Ísis Fernandes Pinto

na cabeça de uma mulher acontecem muitas coisas. é quase como numa poesia feminina ou numa dessas modernistas, cheias de onomatopéias. ao menos na minha é assim e

EU SOU UMA MULHER.


no entanto, quando eu enuncio "eu sou uma mulher", sei de toda perfomance que insiro no ato de ser algo, mesmo sabendo que todo gênero é um pouco absurdo e restringente. restringente mesmo, apesar de talvez ser ainda mais restritivo. (será que estou sendo redundante? talvez, é a falta de familiaridade com o português, que anda em desuso nessa minha vida de agora). em verdade

sou Ísis.


mas enfim... voltemos à minha cabeça. na minha cabeça há diferentes histórias, memórias, segredos. entre os mais corriqueiros estão os ideias de amor e as fantasias de sexo. esses dois sempre se comunicam, se atraem e se repelem, numa ciranda infinita, na qual sempre me jogam no meio e fico buscando o meu ritmo e minha hora de voltar à roda. ao final meio tonta percebo que estou sendo levanda impulsionada a algo e a mim, numa fluidez sem fim.
essa minha cabeça, meio zonza, me induz a mil percepções que talvez só eu entenda e só eu não-entenda. ela induz meus olhos, envenena meus atos, me bota em xeque.
um dia um amigo meu me disse: ísis nunca leio seus posts porque não os compreendo, acho que nem você o faz. lembro que ri. ri porque sei que essa "nênia noctâmbula" é minha cabeça. tem um entre-ato nesse blog. e em mim há mil hiatos. e mais uma multidão inteira, esperando eu escrever algo, sentenciar, enunciar. aí venho aqui e me derramo. derramo minha cabeça como se a estourasse com o tiro, mil palavras são os miolos que grudam agora nessa folha virtual. bi-zar-ro.
então essa minha cabeça de mulher me questiona: que você quer dizer, por exemplo agora?
E eu respondo: "que me confundo. me confundo muito. me confundo no amor, na fantasia, no sexo, nos textos e na minha própria percepção disso tudo, do que sou e do que reflito que sou e ponto e na verdade me revelo todo dia, pros desconhecidos e pra mim. entre uma linha e outra me perco, entre um início e fim, mudo".

será que posso publicar-me assim?

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de ontem, a boemia

andando pelas ruas eu e mais três homens.
Modern Bohemia by Ernst Ludwig Kirchner

todos eles, todos nós já bebados, já em cada posicao consequente dos comportamentos entre tres homens e uma mulher.
ontem pelas ruas até o bar éramos quatro, depois da festa, caminhando.
e no bar, brandy, vodka, cerveja, mil trocas de risos, impressoes, incertezas, inversos: gêneros. se fala de homem e mulher, se fala de textos, se fala de histórias, de gentes que se conhece, de coisas que nao acontecem, de vodka-conhaque-brandy-cerveja.
depois a saidera.
depois a baboseira.
depois tentativa de beijo.
o pedido d'um cigarro.
outro homem, mais cortejos.
ai os três homens se perguntam, quando foi que isso aconteceu, de sairmos, bebermos, rirmos e do cigarro? volta o mesmo circulo, menos um, que era o intruso (que ainda insistirá pelo numero do telefone).
aí somos quatro, os da festa, os da neve, os caminhantes. os do bar: vodka, brandy, cerveja, brandy.
aí sete horas. a derradeira. aí os comentários de um possível vinho, um homem mais sonolento se retira. dois e uma. e mais vinho, mais música, mais bêbados. mil cortejos e nada de acontecimentos, a graca é no entre-ato.

O ato é supérfluo.


depois da boemia, o bocejo. sono. sonhos. outro dia. outros planos (um sarau), uns adeuses. de ontem, a boemia - tentativa de uma quase literatura.

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Noite Branca

fotografia e imagem: Ísis Fernandes Pinto

Ainda agora vi-me num momento mágico. A cidade branca, como se um tapete alvíssimo se estendesse pela rua, calcada, sob meus pés. Que linda, que branca, que alva, que limpa a cidade pareceu, ainda mais com a noite, que disfarca tudo. Senti-me a última pessoa existente, a pessoa que caminha só sob a neve, numa solidao doída, mas de uma beleza impar. Andei devagar, pisei a neve, meus pes eram os primeiros a fazê-lo já que nao havia antes ninguém passado por ali, a cidade estava em silêncio, quase em toque de recolher. Eram já passado das nove, quase dez da noite e só eu aproveitava aquela brancura,

aquela noite de marfim.

Eu vi a cidade branca, alva, como uma virgem do romantismo. Eu caminhei sob a neve, sobre a neve, com um saborear quase maldoso em pisar pela primeira vez aquela beleza, mas ao empurrar a neve do chao, das coisas, já outra neve pousava silenciosamente sobre tudo. Era como se um manto se estendesse pelo caminho, como se uma noiva gélida passasse com seu véu alvíssimo. A albugínea da vida. A brancura do silêncio. Assim esteve a cidade ainda agorinha e deve estar ainda agora e estará até amanha pouco antes das seis - quando ainda os passantes nao tiveram espezinhado tudo até transforma-la em água suja, lama.

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deixar-se levar (recital de uma anciã)

tem certas coisas que acontecem na vida e são como uma brisa constante na vela da embarcação. a vida acontece cada dia, parece soar óbvio ou cliché, mas é a sentença mais honesta e mais dura também.
De Brossa, Poema Objeto

é um segundo atrás do outro e nosso tempo vai sendo marcado como num relógio gigante. somos efémeros. somos de carne e osso. somos o agora ansiando ser algo pela imensa angústia de sabermos que estamos a padecer. a cada dia estamos indo. sim, obrigada. tchau, até logo. e o logo? se vem, foi muito rápido. e cá estamos e enquanto estamos o tempo vai passando, correndo, voando. é como se o tempo fosse um corredor, tão rápido, de pernas tão longos, de dimensões tão absurdas, que é impossível competir com ele.
Poema Objeto

então os convido a ver. VEJAMOS! o tempo é um corpo que nos lembra que nosso corpo é passageiro. logo já não estaremos. resta o silêncio. o silêncio que guardamos nas coisas que tentamos mudar a cada dia para o melhor de algo que não veremos, assim tentamos acreditar que algo de nós ficará depois: a terra, isso que foi nosso lugar, nosso cenário. como bons artistas que somos temos que aceitar: há sempre um momento em que se deve deixar o palco. mas o palco nunca deve deixar de existir, se não a magia da arte (da vida) desaparece.

...
Natureleza Muerta, Poema Objeto

a velhice do corpo, a finitude da morte é apenas uma sentença. o que fica, este espaço que deixamos é o segredo do qual fazemos parte e talvez isso se chame vivenda. talvez, no mais, nós sejamos o parênteses entre isso e o sentido profundo da existência.

...
que seja festejada a transitoriedade, mas a nossa! e que o espaço que nos recebe em toda nossa brevidade seja cuidado com zelo e afeto, por nós todos que ainda somos e estamos.
e que o corpo tal nau deixe-se levar!

A língua

  • Disse o poeta: "deveria ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira".


  • Francesca Woodman. Self-portrait: poderia ser o meu retrato?


    Responde a discípula: "sendo debochada, sinto saudade do gosto de viver minha própria língua"


    Woodman: Sloan/Tongue, 1976. Essa língua poderia ser a minha e no entanto nao o é.

    Impressões e "Impressionistas" (ou ode àqueles que causam as impressões) II

    Mulheres e uma camera de capturar imagens

    I. Diane Arbus

    Arbus Pokus: o perigo de estar à deriva da faca

    II. Nan Goldin

    a espera do clicar de olhos mecanicos

    III. Cindy Sherman

    a fantasia de sermos outros em nós mesmos frente à camêra

    IV. Gertrud Arndt

    a partir da beleza, da textura e da imagem feminina

    V. Grete Stern

    investigando qualquer coisa onírica

    VI. Claude Cahun

    quando buscar a identidade se torna a imagem no espelho

    (eu bem que poderia postar ad infinitum, colocar algo de mim, vislumbrar mil outras elas e suas camêras e suas lentes, mas me redimo dessa busca, passo aos outros, a você e a mim de outro tempo. por exemplo uma fotógrafa que sempre me impressionou e impressiona é Maria Fernanda Vilela de Magalhães, mas infelizmente nao encontro nada na internet dela para colar nesse mural de palavras, sentidos e imagens eletrônicas. quem sabe um outro dia.)

    Novas impressoes nesse novo mundo: primeiro a palavra sem imagens

    buraco negro de mil letras

    Estou mais perdida que cego em tiroteio. Mais perdida que agulha no palheiro. Mais perdida que qualquer areia no vento a beira mar. Meu Deus! Quanta mudanca... Todas as minhas imagens sumiram. Tudo que ficou foram palavras, perdidas como eu, nessa imensa sopa de letrinhas.

    Impressões e "Impressionistas" (ou ode àqueles que causam as impressões)

    A. Dança

    I. Merce Cunningham

    MerceCunningham: sendo a cadeira ou sentado além da cadeira

    II. Kazuo Ohno

    ("I dance into the light")

    Kazuo into the light

    III. Martha Graham

    Martha Graham: expressionista alema em impressao fotográfica


    IV. Pina Bausch

    Pina Bausch

    V. Vaslav Nijinsky

    Nijinsky e súbito o mundo tornou-se moderno!

    à procura de rossè

    uma imagem de zlaba feita por ninfalibertina
    onde estás?
    que horas serao em tua vida?
    será que sabes o quanto penso em ti?
    na marca que deixaste?
    do resto de teus passos em meu caminho, esse fim da picada?
    é da falta que é feita essa foto distorcida do seu rosto que enfeita qualquer tela virtual que nao é tua.

    mas um dia talvez tu ouças minha voz que silencia a te chamar:

    j

    (r)osé

    !

    da ânsia de escrever

    de brossa, poema objeto
    às vezes ela bate na porta. letras caminham em fila indiana. sem dar as mãos elas avançam o sinal vermelho. um a esborrachou-se em meio a pista, um i perdeu seu acento agudo, pior o u separado de sua trema tragicamente, nunca mais será o mesmo em sua linguística. e eu, dispersa em segurar pelo rabo uma consoante que me foge e cola-la com uma vogal que me escapa, me perco na hora e mal percebo que amanhece o dia lá fora.

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