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Aula de jornalismo nº 6: a ditadura das aspas


Tem dias que essa profissão vale a pena. Na verdade eu devo ser muito idealista, porque acho que quase sempre vale a pena sair para rua, ouvir as pessoas, ver a situação das coisas e escrever sobre aquilo em um veículo que você sabe que bastante gente, uma hora ou outra, lê. Ontem foi um dia que valeu a pena.

Assinei a capa do caderno com uma reportagem importante, curiosa, dramática, comovente. O Liceu Coração de Jesus é um colégio que tem 124 anos e fica no bairro dos Campos Elíseos. O Briguet, que nasceu na Barão de Limeira, deve conhecer esse colégio.

Do 11º andar do edifício onde trabalho é possível reparar como ele se destaca na paisagem, com sua igreja e uma estátua de Jesus Cristo no topo, se não me engano.



Acontece que esse liceu, onde estudaram Monteiro Lobato, Grande Otelo, Sergio Cardoso, Toquinho, filhos de imigrantes italianos, filhos de escravos libertos, filhos de fazendeiros do café, está definhando em meio à degradação da cracolândia.

Ano que vem, vai fechar as três últimas turmas do ensino médio. O local, que tem 17 mil m², já abrigou mais de 3.000 alunos. Hoje tem 288. Ano que vem, 200 no máximo. Além das transferências, a escola não consegue alunos novos.

Quem avisou sobre a pauta foi um professor aposentado da escola, que mandou uma carta para o painel do leitor. Um amigo da redação, cuja família está se mudando para São Paulo, me passou a história dizendo que tinha ido ao local para matricular os filhos, mas desistiu pelo mesmo motivo que o professor apontava.

Cheguei ao liceu e a situação foi me deixando muito triste. Eu tenho um grande respeito pelos colégios tradicionais. Sejam particulares ou públicos. Católicos ou leigos. Estudei em dois tradicionalíssimos, o Estadual do Paraná e o Cefet-PR. O liceu me lembrava mais o Estadual e fiquei pensando como seria triste ver o grandioso e centenário colégio da rua Luiz Leão onde estudei da 5ª à 8ª séries reduzido a um vazio demográfico.

A matéria foi apurada com antecedência. Na terça-feira, quando ia fechar, já estava tudo apurado. Fotos ótimas. Comecei a escrever cedo. A primeira versão do abre ficou pronta e passei para meu editor. De repente, ele me chama.

“Cadê tais e tais informações? Você está colocando tudo na boca do padre (sim o jornalismo tem essa linguagem quase erótica: Quantos centímetros você quer? Quem pega o fulano? Bota na boca de alguém isso aí...). Esse começo tá parecendo tese de mestrado... Você tem que aprender uma coisa: aspas empobrece o texto. O importante é a sua apuração e você contar o que viu, o que sentiu. Foi assim que você escreveu aquele texto da cracolândia. Aspas só se for uma acusação muito grave ou muito impactante, que dê força ao texto.”

Foi a melhor coisa que um editor já me disse. Eu vivia preso à ditadura das aspas, pois nos outros lugares em que trabalhei não havia um editor que desse credibilidade aos seus repórteres. “Isso é coisa de editor covarde, que não se responsabiliza pelos repórteres que tem, que não banca a apuração”, esclareceu minha amiga.

Voltei e comecei a narrar. Os textos finais estão aqui, para assinantes: Escola de Monteiro Lobato definha na cracolândia; Aluno assaltado três vezes não queria mudar de colégio; frase de Toquinho, ex-aluno do liceu

O resultado foi sensacional. Um amigo da arte falou que ficou com vontade se matricular no liceu. Meu namorado diz que quase chorou. O editor e o ombudsman elogiaram. Uma carta dizia que, graças à reportagem, iriam criar um movimento chamado “Viva Liceu” para salvar aquela escola. Hoje, um editorial (O liceu e o crack), um artigo de Clóvis Rossi (Os cacos de uma cidade) e duas cartas no painel do leitor sobre a reportagem.

Elogios à parte, a intenção quando escrevi aquele texto foi mesmo chamar a atenção da cidade sobre o descaso que São Paulo tem pela própria história. Um dia me disseram que aqui há uma barbárie urbana. Passa-se por cima de tudo para construir edifícios neoclássicos. Fui dormir com a sensação de que, dessa vez, fiz jornalismo de verdade.

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Falado em aprendizado, este será meu último post no Tipos. Agradeço ao Moraes pela oportunidade que ele me deu de aprender a ser blogueiro, a ponto de criar um site de blogs que, se tudo der certo, entra no ar amanhã.

Lembro-me do dia em que ele me convidou. Estávamos na praia, pós-réveillon 2002. Alpheu surtando. Todo mundo cor de camarão. Burgo fazendo churrasco. Falei que não queria ter a obrigação de escrever. Hoje sou viciado nisso.

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O grande peido


Dentre as coisas que me impressionam em São Paulo, há especificamente uma com a qual não me conformo. Como os paulistanos conseguem viver sentindo cheiro da própria merda há tantos anos?

Explico: estou acompanhando as obras de duplicação da marginal e, a cada vez que passo por lá, me dá ânsia de vômito. Ontem, no carro da reportagem, comentei com o motorista e com a fotógrafa que, ali, a frase "quem peidou?" não faria o menor sentido, já que a atmosfera ao redor das marginais Pinheiros e Tietê é como se fosse um grande peido.



Não consigo entender. Imagine você recebendo as visitas de sua casa em uma daquelas latrinas cavadas no chão, que tinha nos sítios, cheias de merda e de vermes. É mais ou menos isso que os paulistanos fazem, porque a marginal é a porta de entrada da cidade.

Claro que haverá os que diriam que o objetivo é exatamente este: espantar os migrantes, mas sabemos que esse cinismo serve apenas para mascarar o descaso e o relaxo de pobres, ricos, classe média e administração pública.

Os pobres, claro, têm sempre a desculpa de serem pobres, em dinheiro e de espírito, e como vivem em condições precárias, acabam usando isso para justificar a própria falta de civilidade. Ou, como dizia minha mãe, é aquele tipo de gente que não lava bunda porque acha que, já que no dia seguinte vai suar e feder de novo, pensa que a higiene é um esforço vão.

Os ricos porque são especialistas em criar bolhas de sobrevivência dentro da bolha de carniça. Não é à toa que grandes centros empresarias como a Berrini e bairros nobres cheios de condomínios de luxo se proliferam exatamente ao redor da marginal Pinheiros. Chegam a pagar R$ 1 milhão num apartamento de um andar inteiro, com isolamento térmico, acústico e olfativo a ponto de olharem de cima para o esgoto a céu aberto chamado rio Pinheiros com a ilusão de contemplar o Sena ou o Tâmisa. O templo do consumo de luxo, a Daslu, também fica defronte ao fedor. E o próprio governador de São Paulo, que mora no Alto Pinheiros, em dias de muito calor recebe a visita do grande peido na praça Panamericana.

Já a classe média sempre procura responsabilizar aqueles que não podem se defender, como a chatinha que me parou no meio da rua para se indignar com a merda dos cães na calçada.

Agora, seria tão difícil que todas essas empresas, empresários e políticos que habitam o redor de tamanha latrina montar uma força tarefa para despoluir o Tietê e o Pinheiros em troca de renúncia fiscal? E, mesmo sendo os ricos egoístas a ponto de consertarem apenas a calçada em frente a suas casas e aos shopping centers que frequentam, seria tão difícil fazer algo pelo rio, nem que fosse apenas para preservar o olfato dos próprios narizes empinados e, por consequencia, causar um bem coletivo? Mas não, eles preferem construir um shopping bem em frente à marginal e pagar um segurança para, vez ou outra, quando o miasma estiver muito forte, abrir seu paletó de "Men in Black", sacar um frasco de bom ar e borrifar o perfume inócuo no hall de entrada.

"É como cagar e limpar o cu com a bosta", diria meu avô sobre essa situação.

Literalmente, seu Gérson, literalmente...

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Caim

Enquanto a casa nova não fica pronta, vou escrevendo aqui na casa antiga, onde completar anos era uma tradição de há séculos, e a minha felicidade e a dos outros era certa como uma religião qualquer...

E falando em religião, estou lendo "Caim", o novo romance do José Saramago, que muita gente sabe é de longe meu escritor favorito. Embora esse livro lembre bastante "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", continuo me divertindo muito ao ler as linhas de sarcasmo do português em relação ao Todo-Poderoso.

O livro também é mais curto e com capítulos mais curtos, o que convém a um tema que não é necessariamente novo na obra do escritor. Além do mais, acho que a ironia está mais refinada.

Embora o Luis Felipe Pondé não tenha gostado do romance e considere isso de ser revoltado com Deus uma infantilidade, eu ainda fico feliz de ver que há gente com coragem o suficiente para ridicularizar as crenças disparatadas que a humanidade insiste em cultivar.

Por exemplo, é muito divertido imaginar que a primeira frase que Adão disse para Eva foi : "Vamos para a cama". Assim como a primeira coisa que José fez ao acordar pela manhã com tesão de mijo foi dar uma bela mijada e depois fazer o Jesus na Maria sem aquela demagogia de concepção do espírito santo.

Aprendi a ler aos cinco anos de idade e, em uma família de formação presbiteriana e midática, pouco afeita à educação formal e, consequentemente, à literatura, em minha casa só havia discos de vinil com trilhas sonoras de novelas e a Bíblia.

Dos discos, lia as fichas técnicas com nomes do produtores e atores das tramas, o que me fez saber que eram Gilberto Martinho, Celia Biar e Leina Krespi.



Já a Bíblia, comecei-a pelo começo e terminei pelo fim. Alguns livros do meio me deram muita preguiça, principalmente aqueles com o código moral dos hebreus em peregrinação pelo deserto do Sinai.

Mas, em geral, lia tudo vorazmente. Adorava a travessia do Mar Vermelho, aliás, Moisés foi um dos meus heróis de infância, um espíritio forte, inabalável e que pecou pela vaidade, punido de forma exemplar, proibido de entrar na terra prometida/saqueada.

Ainda hoje há ensinamentos dessa cultura que, de certa forma, aplico em minha vida, como a conquista daquilo que se ama pelo trabalho, mais precisamente o exemplo de Jacó, que trabalhou sete anos pela mulher que amava, mas, ao completar a jornada, teve de se casar coma irmã mais velha e trabalhar outros sete anos para, enfim, casar-se com Raquel, que ironica e rapidamente morreria de parto.

Embora achasse já aos cinco anos algumas passagens bem sem pé nem cabeça, adorava o relato histórico das conquistas judaicas a despeito de todas as adversidades de, por recomendação divina, viver disputando uma terra árida como é a Palestina.

Mas os questionamentos "infantis" de Saramago, sobre por que a humanidade ainda dá ouvidos a ensinamentos tão anacrônicos _obviamente escritos para o contexto da infância da humanidade_ sempre martelaram minha cabeça.

Lembro de uma vez deixar minha mãe sem resposta sobre a Quarta-feira de Cinzas. Perguntei o que era. E ela me respondeu que era um dia em que as pessoas íam à igreja pedir perdão dos pecados cometidos no Carnaval. Perguntei então se tinha Carnaval e Quarta-feira de Cinzas todo ano. Minha mãe respondeu que sim. Então a encurralei: "Então a gente peca no Carnaval e pede perdão na Quarta-feira de Cinzas todo ano? Simples assim?"

Outro desses questionamentos infantis que tinha aparecem no livro. Afinal, por que Deus nos criou e colocou uma árvore da tentação no meio do jardim do Éden? Qual o sentido disso? Uma brincadeira divina? Um teste?

Adão do livro faz a mesma pergunta ao querubim que guarda as portas do Éden e conclui que "melhor estaríamos com o pó que éramos antes, sem vontade nem desejo".

E Saramago aproveita para concluir que "se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado".

Mais uma coisa que adoro nos livros do Saramago são as epígrafes. A de "Caim", que revisita as principais passagens do Velho Testamento com o testemunho do primeiro assassino de que se tem notícia, é a seguinte:

"Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala." (Hebreus, 11, 4)
Livro dos Disparates


Na verdade, pensando bem, o Pondé tem razão quando fala de infantilidade, porque toda crítica à Bíblia só pode ser infantil, já que a maneira com que esse livro apresenta as relações humanas é infantil, muitas vezes sem lógica, com uma dramaturgia que lembra em muito as novelas da Glória Perez. O Pondé, assim como Deus, escreveu certo por linhas tortas...

P.S.: Atenção, sem-teto do Tipos, entrem em contato comigo pelo e-mail presente no post anterior.

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Mensagem aos sem-teto


Caros, há algum tempo eu e alguns dos Tipos estamos tocando um projeto que já está em fase de programação. É uma comunidade de blogs, mas não só isso.

Como o Tipos vai fechar, quem não quiser ficar sem teto, entre em contato comigo pelo mail jamescimino@gmail.com e conto os detalhes.

Abraço.

Aula de jornalismo nº 5: Você não vale nada, mas eu gosto de você


E daí que começa bem o dia quando seu chefe te pede pra ir cobrir a seguinte história: um carro foi parar dentro do rio Tietê durante a madrugada.

Segundo diversas notas na internet, após uma discussão, o motorista, que tentava reatar com a namorada, joga o veículo de propósito dentro do lodoso e fétido rio que corta a capital paulista, de acordo com a versão da moça, por não se conformar com o fim do namoro.

Lá vou eu para o 28º DP, na Freguesía do Ó, zona norte da cidade, onde o boletim foi registrado, ja que o acidente ocorrera na ponte de mesmo nome. Chego lá, consigo o b.o. sem grandes problemas e vou atrás dos envolvidos.

Por telefone, falo com a mãe da garota, que já se mostrasse disposta a conversar. Pergunto se a garota mora perto do DP, e ela diz que não, que mora muito longe do local. Que mora, na verdade, EM GUAIANAZES, extremo da zona "Lost".

São quase cinco da tarde. Ligo para a redação e pergunto se devo ir até lá ou fazer a entrevista por telefone mesmo. Minha editora acertadamente recomenda que eu vá até o local para sentir o clima da história. Como o casal é vizinho de quintal, pelo menos mato os dois coelhos de uma vez.

O problema é que Guaianazes fica tão longe, mas tão longe, que quando saio do local, às 19h30, levo cerca de 40 minutos para atingir o extremo leste da linha vermelha do metrô, ou seja, ainda tem mais pelo menos meia hora de carro até a o jornal.

Chego, entrevisto a moça, cercada pelas irmãs, pai, mãe, primos etc... Falam muito mal do cara. Acusam-no de ser um psicopata, dissimulado, que ele acabaria até conquistando minha simpatia.

Vou à casa do rapaz, ele me recebe calmamente, sua mãe idem, seus irmãos chegam pouco a pouco, sem pressa, acompanham silenciosamente a entrevista. Ele me mostra o carro, acusa a moça de ser infiel e interesseira e, sinceramente, conquista minha simpatia. Não por nada, mas simplesmente porque ele não parecia muito preocupado em me convencer de que estava certo, tampouco tentou depreciar a reputação da garota (exceto pelo fato de chamá-la de interesseira e infiel). Além disso, deu o argumento de que não jogaria no rio um carro de R$ 20 mil que havia comprado fazia um mês. Alegou que passou mal, pois não dormia havia duas noites.

Saio da zona lost com essa história que, a meu ver, não passa de mais uma das inúmeras histórias de sem-vergonhice de pobre que presenciei na infância. Nada demais. Nada que os sites e os programas sensacionalistas de TV já não tivessem dado. Ligo e dou retorno. Minha editora pergunta: "Qual ideia de lead você tem?"

"Não faço a menor ideia!"

Chego na redação e penso que nada me resta a não ser relatar a história com a ironia que ela merece, afinal, o cara não jogou o carro da ponte (se é que jogou), mas da marginal mesmo. Ninguém morreu, ninguém se machucou...

Olha o naipe do casal...


Um relato, com um tom meio NP. O chefe já me chama achando que quero derrubar a matéria. Tranquilizo-o e digo que já estou escrevendo. Em 20 minutos o texto está pronto.

Hoje, pela manhã, tomando banho, recebo uma ligação. É uma amiga dizendo que amou o texto. Chego ao jornal, meu chefe também adorou. O pauteiro gostou, a assessora da CET, para quem ligo sobre outra matéria, também. Coleguinhas de outros veículos mandam mensagens. Só o ombudsman que achou "de muito mau gosto" fazer graça com a desgraça alheia... Mas, que remédio, quando os próprios envolvidos fazem graça da própria falta de graça?

Enfim, quando não se tem uma grande história, conte apenas a história com o humor que ela merece que tá tudo certo.

Quem quiser ver a matéria, está aqui, só para assinantes: Romance entre balconista e motorista acaba com carro dentro do rio Tietê

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Dia do Marmanjo


Embora eu esteja fora de ação há quase duas semanas por causa de inverno fora de hora que me jogou num hospital por uma semana, consegui, com a ajuda da minha coleguinha Mariana Barros, finalizar uma reportagem que já estava planejando havia cerca de um mês.

Aqui em São Paulo as lojas de brinquedos tradicionais estão se adaptando a uma tendência de consumo que já existe muito no Japão e nos Estados Unidos, os brinquedos colecionáveis, destinados ao público adulto de alto poder aquisitivo.

Essa estátua da Vampira custa R$ 1.100


Especialmente na rua da Consolação com a Jaú tem uma loja que inaugurou em abril chamada "Limited Edition", que é de deixar qualquer um com menos de 10 anos de idade mental.

Esse busto de Ludwig van Beethoven encontramos na Plastik, na Melo Alves, por nada menos que R$ 2.400


Os donos, que também são colecionadores, trazem peças exclusivas e limitadas que deixariam qualquer viciado em quadrinhos e cinema embasbacado, bobo e pobre.

Aqui o Marco Luque do


Quem me acompanhou e elaborou as fotos foi a Letícia Moreira, coleguinha daí de Curitiba. Lembramos muito do Claudinho, não sei por que, hehehe.

O colecionador de Barbies


Tô colocando aqui o link para o texto principal, que tá na Folha Online, mas na edição digital da Folha, na página C4 de Cotidiano, tem a reportagem completa.

O Coringa do Heath Ledger tem em duas versões, é todo articulado, vem com mini-granadas e até a máscara que ele usa no assalto ao banco do início do filme


Espero que vocês todos fiquem idiotas como eu fiquei com as peças, principalmente com um estátua da Mísitica que é igualzinha à da minha tattoo.

A Mística da minha tattoo. R$ 1.200


Pela primeira vez me deu contade de investir nesse tipo de objeto de fazer arte.

Feliz Dia do Marmanjo pra vocês.

P.S.: A Letícia vai me mandar mais fotos e daí faço um uptade nas imagens do post.

Senador Palpatine custa R$ 3.000

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Leblon - 16/06/2006

Desde a semana passada, quando estreou "Viver a Vida", a nova novela de Manoel Carlos, muito se comentou sobre o autor e seu modelo de teledramaturgia. Fuçando os arquivos do meu computador, achei a íntegra de uma entrevista que fiz com Maneco no dia do meu aniversário de 30 anos para a revista "Imprensa". Na época, ia estrear "Páginas da Vida".

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O reflexo da violência carioca não está apenas nas novelas do autor Manoel Carlos, 73 anos, que, neste mês, estréia “Páginas da Vida”, sua nova trama no horário nobre da Globo. Quem chega a seu apartamento no Leblon, bairro que sempre serve de cenário a suas histórias, percebe a grande preocupação do autor. Além da guarita, que isola a rua lateral de seu edifício, a porta de entrada de seu apartamento duplex possui um sistema de segurança tão complexo que faz o dueto chave/fechadura parecer coisa da pré-história.

A casa, no entanto, não é nenhum monumento à ostentação e traz, desde a entrada, uma atmosfera de conforto e aconchego que, segundo o próprio Maneco, apelido pelo qual gosta de ser chamado, é obra de sua mulher.

Na sala de estar, onde o autor recebeu a reportagem de IMPRENSA, dividem o pouco espaço disponível fotos de família, inúmeros CDs, livros sobre cinema e fotografia. A única parede livre é a porta de vidro que dá vista para o Cristo Redentor, de quem o autor deu falta pouco antes da entrevista. “Hoje o Cristo está escondido.” “Ah, então você tem vista para o Cristo?”, pergunta o repórter desatento. “Acha que eu iria morar longe do Cristo Redentor?”.

Só para a TV, Maneco escreve há 55 anos. “Novela nos moldes da TV Globo eu faço há 25 anos.. Escrevi mais de 100 teleteatros para a Tupi. O fato de vir a fazer novela é uma conseqüência de trabalhar na televisão. Fiz musicais, programas humorísticos, dirigi “O Fino da Bossa”, Hebe Camargo, “Família Trapo”, “Essa Noite se Improvisa”, fui o primeiro diretor-geral do “Fantástico”. Um dia o Herval Rossano me falou “você não quer fazer novela?”, respondi: “vamos lá”.



IMPRENSA - Qual é a sua relação com o jornalismo?

Manoel Carlos -
A minha relação com a imprensa é de quem trabalha nela, afinal, escrevo uma crônica para a revista “Veja Rio” e fui colaborador em muitos jornais. Fui crítico de teatro em São Paulo no jornal “O Tempo”, que foi propriedade do Hugo Borghi, aquele que foi candidato ao governo de São Paulo várias vezes. Acho que quando escrevi para aquele jornal eu tinha 18 anos. Hoje eu estou com 73, imagina há quanto tempo eu mexo com isso...

IMPRENSA - Conforme a novela foi colecionando sucessos, sua produção foi se profissionalizando, assim como a relação da imprensa com ela. Ainda hoje, contudo, há uma parcela da imprensa que considera a novela um subproduto da indústria cultural. Outra parte a vê como um fenômeno social. O que mudou na relação imprensa x telenovela desde quando você começou? Melhorou ou piorou?

Manoel Carlos -
Olha, eu acho que essa relação foi sempre melhorando. O que fez mudar a novela e trazê-la ao estágio em que estamos hoje foi o sucesso dela. Já começou como sucesso na TV Excelsior, inclusive, mas não chamava tanto a atenção, não era uma coisa que monopolizasse como hoje, não só no Brasil, como no mundo inteiro. Isso exigiu um aprimoramento da produção que a levou a um nível só comparável ao do cinema americano. Tanto que, quando os americanos vêm aqui, ficam estarrecidos. Eles vão lá ao Projac (complexo de estúdios da Rede Globo em Jacarepaguá) e não conseguem compreender, aceitar, acreditar que a gente faz novela, um capítulo por dia, quatro novelas, todas gravando ao mesmo tempo, com mais de 200 capítulos ao todo, 80 atores, 5 a 6 diretores. Muitos cenários, vários estúdios, cidade cenográfica, unidades externas. Isso tudo fez com que a mídia passasse a olhar a novela de outra maneira. Não importa se ela vê a novela como subproduto ou como fenômeno social. Para mim não importa isso. O importante é que a mídia tem de aceitar que a novela é vista por 40 milhões de pessoas toda noite e isso é um fato. Uma coisa assim não se pode ignorar. Agora, a novela é boa, a novela é ruim, aquela é uma porcaria, é subproduto, deseduca, educa, é uma mensagem social, não é, cada autor faz conscientemente o que deve fazer. Uns têm preocupações sociais, outros não, uns aprimoram o texto, outros não, uns cuidam mais da música, outros não. Algumas fazem sucesso, outras não... A coisa tem de ser julgada sob uma ótica muito ampla, porque, fundamentalmente, o que está no âmago da questão da novela é o grande sucesso que ela é.

IMPRENSA - A que você atribui o fato de um país tão multicultural quanto é o Brasil ter a novela como uma linha que, por vezes, coloca 40 milhões de pessoas em um mesmo patamar? Por que, uma hora ou outra, alguém pára para ver uma novela?

Manoel Carlos -
O ouvir uma história é uma coisa muito atraente e sedutora. A minha geração -e mais ainda a sua-, foi forjada no cinema, no teatro, na história em quadrinhos. A gente gosta de ouvir histórias. Isso é no mundo inteiro. No Brasil, antes de a novela estourar, na Argentina já era um sucesso. Em Cuba, então, nem se fale. Nos Estados Unidos tem a "soap opera", os seriados que prendem as pessoas em casa. Quando morei em Nova York, esse "Sex and the City" era uma coisa brutal. Parecia novela. Eu punha minha cabeça pra fora da janela do apartamento, para a área interna, era "Sex and the City" em todas as casas, todo mundo estava vendo. Agora, a novela, como nós fazemos, essa o americano não entendeu bem. Eu tenho a impressão de que, quando ele entender e fizer, será um sucesso estrondoso.



IMPRENSA - E o que falta ao povo americano entender da telenovela brasileira?

Manoel Carlos -
Acho que eles não acham muito rentável, muito possível. Acham meio complicado. Talvez eles pensem em gravar uma novela integralmente antes de coloca-lá no ar. Isso nunca deu certo, não dá certo...

IMPRENSA - Por que não?

Manoel Carlos -
Porque a novela vive de uma certa inquietação, de uma certa ansiedade de todo mundo que é estimulante. A TV Globo já tentou encomendar a autores uma novela inteira. O cara escreve, entrega 200 capítulos, a emissora paga, mas nunca usou. Vários autores já fizeram isso. Geraldo Vietri já fez isso. Depois a emissora desistiu. A novela precisa, independente de ela ser contemporânea ou não, sentir o que o público está achando. Precisa de um feedback. Ela é feita dessa relação com o público. Então, não adianta você fazer 200 capítulos e colocar no ar e, depois de tudo pronto, descobrir que o mocinho não teve química com a mocinha. Aí você está ferrado. A novela só funciona porque justamente virou uma obra aberta. Ela pode ser feita a cada dia. Eu, por exemplo, faço novela fazendo. Quando sento diante do computador todos os dias eu penso: “bem o que é que eu vou fazer”? Aí mudo todos os meus planos. Às vezes, no dia anterior, escrevi um roteirozinho para mim, chego e mudo tudo na hora de escrever. Invento, não faço, penso em terminar o capítulo de um jeito, termino de outro. Ela vive dessa ansiedade. Vive de o capítulo estar no ar, você assistir, aí sair para jantar e encontrar uma pessoa que diz “acabei de ver o seu capítulo”. Aí você pergunta: “gostou?”. A pessoa responde: “gostei, mas aquele personagem...”. Aí você pensa “pô, eu não tinha pensado nisso”. A novela vive disso.

IMPRENSA - Então a novela comunga da visão do autor e da visão de cada telespectador?

Manoel Carlos -
A minha mulher tem influência, meu filho de 14 anos tem influência, minha filha de 23, o meu filho de 52, o meu vizinho, a minha irmã que liga de São Paulo e fala “ah, não gostei daquele personagem”. Tem influência. Não vou dizer que vou matar um personagem por causa da minha irmã, mas eu vejo um ruído e me pergunto: “por que não gostou?”. Passo a ver o personagem com outros olhos. Então, para o americano, isso deve ser difícil de entender. Porque eles são tão programados. Esses seriados, por exemplo, têm de 10 a 12 tratamentos antes de começar a gravar. Vai, passa pelo diretor, volta para o autor. Isso eles vão fazendo e preparam a temporada toda. Eles não entendem como fazemos 200 capítulos que vão ao ar todos os dias e são gravados todos os dias, sendo que, algumas vezes (novela minha acontece isso o tempo todo), cenas são gravadas de um dia para o outro. Os últimos capítulos, o último capítulo, no dia da exibição, ainda está sendo gravado. Eles não entendem isso.

IMPRENSA - A novela brasileira, então, empresta uma dinâmica do próprio jornalismo? Como é essa relação que faz com que a novela paute a imprensa, como foi o caso do transplante de medula óssea de sua novela “Laços de Família” (2000)? Você acha que os telespectadores podem confundir realidade e ficção?

Manoel Carlos -
As pessoas mais simples são capazes de confundir mesmo, né? Mas eu tenho preocupação nesse sentido. Quando fiz a cena aqui da bala perdida em “Mulheres Apaixonadas” (2003), foi uma loucura. O prefeito não queria deixar fazer, outro disse que podia. Foi uma briga. A imprensa estava em todo lugar. E eu estava fazendo uma cena de ficção, que tem todo dia, porque bala perdida aqui tem todo dia, matando gente. Mas, na novela, essa cena fica com uma dimensão muito maior do que na realidade, porque são 40 milhões vendo aquilo.

IMPRENSA - E qual é essa dimensão? A ficção atinge mais que a realidade?

Manoel Carlos -
Muito mais. A realidade está no jornal ou no dia-a-dia. Uma bala perdida, em uma menina, como ocorreu dia desses, sai, no dia seguinte, em todos os jornais. Alguns na primeira página, outros na terceira, quinta página. O “Jornal Nacional”, dependendo do caso, veicula. Os telejornais do dia seguinte dão, com pouco mais de ênfase ou menos, depende. E atinge, essencialmente, a menina e a família da menina. No dia seguinte tem um gol do Ronaldinho e caiu fora. A novela não. São 40 milhões que estão vendo ali e tem repercussão diária. A novela dá mais audiência de que qualquer outro telejornal, logo, a repercussão é maior. E a bala perdida, a repercussão do que aconteceu, é feita por atores carismáticos, que têm grande sintonia com o público. Isso tudo dá uma dimensão muito maior.



IMPRENSA - Como autor, você não acha preocupante que uma grande massa da população se ocupe de um fato que eu considero emblemático, como o assassinato da personagem Odete Roitmann (“Vale Tudo”, 1988), um crime que, de fato, nunca aconteceu?

Manoel Carlos -
Não acho, não. Porque não é só a novela que faz isso. Nem só a Copa do Mundo. O programa “Praça da Alegria”, com o Manoel de Nóbrega e o Golias, fechava os cinemas. Eu fiz programas como “O Fino da Bossa” e o Festival de Música da Record, a edição em que ganhou “A Banda”, do Chico Buarque, o cinema fechou em São Paulo e deve ter fechado em vários outros lugares. O fenômeno é o seguinte: ficou mais atraente o que estava na televisão do que o que estava na rua.

IMPRENSA - E, em nosso país, na maior parte do tempo o que está na televisão é mais atraente do que a realidade?

Manoel Carlos -
É muito mais atraente. Você veja hoje em dia... Naquela época não existia essa violência explícita, diária e constante. Some a isso o fato seguinte: não tem nada mais barato que a televisão. Passa na favela: lotado de televisão. Você compra uma por R$ 20 ao mês. De graça e de cueca você liga e vê a Copa na Alemanha. A mulher, pelada, de calcinha, sutiã, o filho de pijama, comendo uma pizza, tomando uma cerveja, o mundo vê aquelas torres explodindo em Nova York. Vêem a morte e o enterro da Lady Di. O cara vê na favela. Então, a televisão não pode ser comparada a nada. Tem um alcance extraordinário no Brasil. E no mundo inteiro. O americano levanta, ainda adormecido, liga a TV e vai para o chuveiro. Ele vai sabendo como vai o tempo, se vai chover, se não vai. É a primeira coisa que ele faz também quando chega em casa, quando mora sozinho, além de ser a última coisa a fazer, desligar a TV. Por quê? O mundo inteiro chega a ela. Temos a guerra do Iraque dentro de casa. Não há concorrência com a TV. Tudo nela fica superlativo. Ela é tão mágica que você dá uma entrevista na TVE, às 3h da manhã, dá traço de audiência. E daí, no dia seguinte, você sai na rua e alguém te diz: “eu te vi ontem hein?” Alguém vê. Então, a audiência da novela é cada vez maior. Fui ontem ao Projac e vi os cenários da minha nova novela, falei para o Jayme Monjardim: “aonde a gente vai parar com isso?” O casarão da Gávea, aonde vai morar o Tarcísio Meira, o cara pode morar dentro. A entrada do casarão com portões de ferro, alamedas com carros entrando, árvores. Eu costumo dizer que o sonho de todo brasileiro é morar em um cenário da TV Globo. E o café da manhã? Que tem suco de várias cores, queijos de vários tipos, pães, croissants, e todos são alegres e felizes. E ninguém é pobre. Mesmo quem é pobre, sempre tem um charme aquilo ali. É uma pobreza com charme.

IMPRENSA - Quando você está montando a novela, preocupa-se em não deixar a pobreza tão real?

Manoel Carlos -
Eu acho que não há como deixar. Não é jornalismo. É ficção. Porque se eu fosse mostrar toda a verdade, como é que eu faria? Eu corto para uma casa, lá está o marido falando palavrão, a mulher espancando o filho... Como é que eu vou mostrar isso?

IMPRENSA - Mas, ao mesmo tempo, você mostra, dentro dessa perfeição aparente, discussões familiares contundentes. Pessoas comentam “isso já aconteceu comigo”. Sua novela incomoda?

Manoel Carlos -
Incomoda. Tenho uma preocupação em relação a isso...

IMPRENSA - Dá a impressão que você já presenciou várias das cenas que escreve...

Manoel Carlos -
Há muitos e muitos anos eu tenho essa preocupação. Em reproduzir o que eu ouço na rua. Convivo com as pessoas. Ando todos os dias no Leblon. Faço caminhadas, converso com o português da padaria, com o cara que aponta o jogo do bicho aqui na esquina, o cara que vende ovos na outra esquina, o chaveiro, aí ele fala da mulher. Converso com todo mundo. Colho isso tudo e tenho uma boa memória para registrar. Eu escrevo coisas que ouvi da minha mãe, dos meus tios. Coisas que vi, que aconteceram com vizinhos meus, que meu amigo me conta, que minha mulher me conta. Que você, se bater um papo comigo e eu registrar uma coisa interessante, eu coloco na novela. E tem um sabor de verdade tudo o que é verdade.



IMPRENSA - Você é um autor que procura manter os pés na realidade para produzir sua ficção?

Manoel Carlos -
Eu costumo dizer que eu não faço uma ficção delirante, mas crível. Eu não me preocupo com a realidade, mas com o verossímil. O Huxley tinha uma frase que eu adoro: “o problema da ficção é que ela precisa fazer sentido”. A realidade não precisa. Você lê num jornal que um sujeito caiu do oitavo andar e saiu andando foi para um botequim e tomou uma cerveja. Como é que você vai botar isso em uma novela? Quando a pessoa lê no jornal, ela acredita. Porque é um fato real, jornalístico. Quando vê na novela, vai dizer: “esse cara tá me gozando”. Mas acontece. A realidade não tem lógica nenhuma. Essa menina que morreu de bala perdida dia desses. Estava dormindo, na cama dela. Nesse caso, você pode pôr na novela, porque é uma realidade cotidiana. Todo mundo conhece um caso semelhante. A minha preocupação foi o que você falou mais atrás. Sair na rua e o sujeito me dizer assim: “porra cara eu tenho um tio igualzinho àquele que você colocou na novela”. Não é novidade para mim. Eu sei que vou encontrar isso porque tirei as histórias da realidade.

IMPRENSA - Muitas pessoas que não gostam de novela. Dizem que ela transforma a realidade, e por conseguinte a vida, numa seqüência de clichês e repetições...

Manoel Carlos -
Mas a vida é um clichê, e ninguém escapa dele. A vida é repetitiva. Tem uma história que eu gosto de contar, do Agripino Grieco, um crítico literário que morreu há mais de 20 anos e que era um excelente conferencista. Contava sempre as mesmas histórias. Eu, e mais alguns amigos de São Paulo, acompanhávamos as palestras dele. Um dia ele falou: “todo mundo diz que, nas conferências que eu faço, falo as mesmas histórias e conto as mesmas coisas. Nós temos todos dias o mesmo pôr-do-sol, e Deus tem muito mais recursos do que eu. No entanto, ele repete todo dia o mesmo pôr-de-sol”. É claro que a novela é repetitiva, pois tenta retratar o tempo todo cenas familiares. Corta para um almoço, jantar, café da manhã. É sempre a mesma coisa. Eu tomo café da manhã todos os dias com meu filho. Acordo às 6h30 da manhã, independente da hora em que eu tenha ido dormir. Tomo café com ele todos os dias e faço as mesmas perguntas. Ele até já me gozou por isso. Sento ali e falo: “Pedro, quais as aulas que você tem hoje? Pedro, vê se estuda, em matemática você tá uma merda, porra! Agora, depois da escola, o que é que você tem? Tem alguma festa no sábado? Agora vai lá, dá um beijo na mamãe e escova os dentes, hein?” Ou seja, todo dia a mesma coisa.

IMPRENSA - O cotidiano, então, é a matéria prima de qualquer novela?

Manoel Carlos -
Das minhas novelas.

IMPRENSA - E das outras?

Manoel Carlos -
Nem vejo. Quer dizer, vejo, várias vezes por semana. Mas nem dá para julgar...

IMPRENSA - Não há um a linha que todas sigam?

Manoel Carlos -
Olha, eu não gosto é das novelas absurdas. Isso é uma coisa minha. Sempre gostei de literatura. Leio e escrevo desde os 10 anos de idade e nunca gostei de realismo mágico, realismo fantástico. Tampouco de ficção científica. E nunca gostei muito de história em quadrinhos, nem quando criança. Eu sempre gostei dos romances realistas. Dos contos do Machado de Assis que li desde pequeno. Nunca gostei muito do José de Alencar, porque ele falava de um mundo que eu não conhecia bem, como em “Iracema” e “O Guarani”, mas eu gostava de “Senhora”. Gostava dos contos, das noveletas do Alencar, porque eram realistas, verdadeiras...

IMPRENSA – Ou era porque elas tinham mais relação com a sua realidade?

Manoel Carlos –
Exatamente. Eu sou essencialmente urbano. Na ficção, você pode ter uma relação com a realidade ou pode divagar, delirar, se for o caso do realismo fantástico. Aí você pode sair por aí voando pela janela, como fez muito bem o Aguinaldo Silva e o Dias Gomes. Eu não saberia fazer esse tipo de novela. Para mim tem de ser assim: toma café, vai para a escola, tem de ser cotidiano. O mais corriqueiro possível.

IMPRENSA – Como ficou a relação entre os escritores de novelas e a imprensa especializada, que antecipa capítulos, histórias, resumos...?

Manoel Carlos –
Olha, eu não atendo a telefonemas, porque se eu for atender a cada pedido, não consigo escrever. Mas, por e-mail eu respondo.

IMPRENSA – Mas você se importa de adiantar tramas?

Manoel Carlos –
Nunca me importei com isso.

IMPRENSA – Mas você acha que não tira a magia de a pessoa ir assistir e se surpreender com a história?

Manoel Carlos –
Tem dois aspectos: o sujeito assiste porque não sabe o que vai acontecer e o sujeito assiste porque sabe o que vai acontecer e ele quer ver como vai acontecer. Anuncia-se que amanhã morre o personagem tal, ninguém sai de casa. Pôxa, mas já sabe que o cara vai morrer. É capaz de ele não saber e sair de casa. Para mim, antecipar (não em detalhes mínimos, claro, que é até de mau gosto), mas dizer o que acontece, não vejo problema. Mesmo porque, minhas novelas não dependem de grandes previsões. Ator nunca recebeu sinopse minha. Eu costumo dizer: “Gente é que nem a vida, vocês têm sinopse da vida? Sabe quando vai morrer, ficar doente, não sabe, né?” Novela minha é assim, ninguém sabe nada. As pessoas que trabalham comigo há muito tempo, como o Tony [Ramos], José Mayer, Regina Duarte já tranqüilizam os outros. Digo aos meus atores que eu quero que eles se surpreendam com o papel. Não fique preocupado com quem o personagem vai casar, com quem acaba no final. E uma das razões pelas quais eu acabei com isso nas minhas novelas era porque eu antecipava coisas e, muitas vezes, o ator me cobrava isso. Quando fiz “Mulheres Apaixonadas”, a [atriz] Maria Padilha recebeu o capítulo e disse: “Porra! Eu to com câncer! Eu tava tão boa...”

IMPRENSA – Então você considera que a imprensa ajuda ou atrapalha na divulgação da novela?

Manoel Carlos –
Claro que ajuda. É fundamental. Você passa nas bancas de jornal e tem um monte de gente com aquelas revistinhas falando de novela.

IMPRENSA – Como é o tratamento do chamado “merchandising social” em suas novelas? Como você elege um tema a ser tratado?

Manoel Carlos –
Simplesmente elejo. Baseado em coisas que eu sinto latentes na sociedade e mando minhas pesquisadoras levantarem os problemas. Tudo que eu faço é isso. O transplante de medula óssea, por exemplo, estava uma crise de falta de doadores. Não via isso na imprensa, mas conhecia gente que estava na fila do transplante. Mandei minha pesquisadora ir atrás. Ela foi ao hospital do câncer e entrevistou pessoas. Cheguei à seguinte conclusão: a maior razão pela qual a maioria das pessoas se negava a fazer essas doações era porque ninguém sabia o que era. Quando falavam para o sujeito em transplante de medula, ele pensava que ia tirar alguma coisa do corpo dele como acontece com rim, fígado e coração. O cara pensava: “Por que é que eu vou fazer isso? Vai que me tiram alguma coisa?” É invasivo. Quando ficaram sabendo que o processo é colocar uma agulha, tira um líquido e nasce em você outra vez o mesmo líquido, não transmite nada e não te faz falta, formou fila no hospital. Aí, do ponto de vista dramático, criei a história da menina que tem a leucemia, não há nenhum doador compatível na família, e cuja mãe, como último esforço, engravida do mesmo pai da menina para ter o filho e tentar salvá-la. A chave estava aí. Agora, por exemplo, vou falar da síndrome de Down (em “Páginas da Vida”). Um problema mundial, mas muito grave no Brasil, que é a inclusão e a exclusão. Você coloca uma criança com esse problema em uma escola especializada ou em uma escola dita normal? E os problemas que advém dessa escola, pois os pais das crianças reclamam porque acham que seus filhos estão atrasados por culpa da criança portadora. A partir do momento que os jornais noticiaram que eu iria abordar esse assunto, a quantidade de cartas, e-mails e livros sobre o assunto que eu recebi é enorme. Sei estatisticamente que há muitas crianças com essa síndrome, mas nunca imaginei que essas famílias se manifestassem tanto. Aí pedi para aprofundar a pesquisa. Tem aspectos fantásticos que eu posso explorar, como o preconceito familiar, inclusive. O número enorme de pais e mães que, quando chega visita, manda a criança para quarto brincar. Têm vergonha porque a criança é diferente, ou porque a criança não come na mesa porque derruba a comida. Outro aspecto fantástico é o número de casamento que se desfaz por causa disso. Quase sempre o pai se manda. O casamento esfria. Arrolei vários casos. A mãe passa a dormir no quarto com o filho e dá menos atenção ao marido. Dependendo do grau, ela praticamente tem de cuidar do filho 24 horas por dia. Sem contar que o homem é muito mais covarde que a mulher, aliás, a mulher é heróica, porque, afinal põe a criança no mundo. Aí você fica sabendo de uma coisa dessas e pensa: “Será que eu não faria a mesma coisa? Será que não é melhor mesmo a exclusão? A criança ir para uma escola especializada com crianças iguais a ela?” É uma discussão de grande fertilidade porque ninguém resolve. Vou botar isso em discussão. Não vou dizer que sou de um partido ou de outro. Vou botar na mesa. Mas eu sou favorável pela inclusão, porque acho que a criança vai crescer com as diferenças. Mas eu não tenho uma criança assim, em casa.

IMPRENSA – E a questão da AIDS, que também será abordada por você em “Páginas da Vida”. Ela estacionou em um ponto, não é verdade?

Manoel Carlos –
Ela estacionou porque parou de morrer artista. Deixou de morrer gente importante. Quando morre artista ela vai para primeira página. Vou mostrar primeiro que se baixou a guarda. As pessoas pararam de se cuidar, voltaram a fazer sexo promíscuo e desprezam o preservativo. Já não estou nem me referindo aos contaminados pela transfusão de sangue, porque aí, você não tem culpa nem eu. A culpa é do Ministério da Saúde, que fiscaliza isso. Mas sim a sua responsabilidade consigo mesmo e com o outro. Fiz entrevistas com prostitutas e minha pesquisadora perguntava: “Mas você toda vez que você faz sexo você usa preservativo? Você exige?”. Elas respondem: “Nããão. Tem homem que não faz. Dizem que, se for para usar camisinha, não querem. E eu preciso ganhar, preciso viver.” Quer dizer: tem o cara que vai lá e faz dessa maneira. Sabendo, expondo-se a ele, a mulher, a prostituta. Acho esse tipo de advertência fundamental, porque considero as campanhas que o governo faz muito ruins. A intenção é boa, mas em uma novela a coisa tem uma dimensão diferente. O exemplo é dado dentro de uma história e em situações críveis. Quando fiz “Laços de Família”, a Capitu era uma garota de programa. O cara vai para cima dela, ela faz um gesto e dá a camisinha na mão dele. Não precisa fazer muito.

IMPRENSA – Você tratou a questão do homossexualismo feminino em sua última novela de forma poética. Recentemente, a novela “América” também criou um personagem que gerou uma imensa expectativa acerca do beijo gay. Acha que a coisa foi abordada de uma maneira errada?

Manoel Carlos –
Eu fiz do jeito que eu gosto e sei fazer. Não quero agredir ninguém. Porque é que eu colocaria um beijo na boca entre as meninas e brigar com a imprensa inteira, lutar, por quê? Eu não preciso e não tenho necessidade disso. Coloquei a cena final de “Romeu & Julieta”, uma de Romeu, outra de Julieta e todo mundo que é medianamente inteligente entendeu tudo. Não preciso escandalizar ninguém. Mas não sou contra mostrar. Achei uma bobagem proibir o beijo, mas...



IMPRENSA – E o marketing comercial, como funciona em suas tramas?

Manoel Carlos –
O processo é o mesmo com todos os autores. A gente tem liberdade de escolha.

IMPRENSA – Pergunto porque o Lima Duarte reclamou da ingerência dos diretores de comerciais no meio das gravações em entrevista à Folha de S.Paulo...

Manoel Carlos –
O Lima Duarte só fez o merchandising que aceitou fazer, e ganhou por isso. Não há nenhuma propaganda que entre sem que o autor aprove. Eu recebo propostas. Já recebi para essa próxima novela. Aceito sugestões, às vezes topo fazer de um jeito diferente, mas nenhuma passa sem minha aprovação. Depois disso, a Globo vai e pergunta ao ator solicitado pela marca para a fazer o merchandising. O Tony Ramos, por exemplo, não faz nem de bebida nem de remédio. E deixa de ganhar o dinheiro dele. Portanto, não tem sentido o Lima reclamar. O Cassiano Gabus Mendes fez uma novela inteira sem aceitar merchandising. A empresa pode não gostar, mas não pode te obrigar a fazer. Para o tipo de novela que eu faço, o merchandising comercial é bem-vindo. Por que deixa mais real. Ninguém pede refrigerante. O povo pede uma Coca-Cola, um guaraná. Me dá uma cerveja??? Me dá um Antarctica....

IMPRENSA – Sua novela vai ser exibida durante o período eleitoral. Vai haver algum reflexo da política brasileira?

Manoel Carlos –
Não pode.

IMPRENSA – Mas você trará para o cotidiano de seus personagens algum respingo? Afinal, as pessoas acabam sendo vítimas da política em situações corriqueiras.

Manoel Carlos –
Ah, sim! Eu posso conceituar isso, mas não posso fazer nada que soe a favorecimento deste ou daquele candidato. Eu não posso induzir. Não posso tomar partido. Não posso dizer: “pôxa, acho que o cara aí vai ser reeleito, putz, que merda, hein?” Não posso dizer isso.

IMPRENSA – Qual sua opinião sobre a nossa situação política?

Manoel Carlos –
Péssima.

IMPRENSA – O que aconteceu com o PT, na sua opinião?

Manoel Carlos -
O que eu mais ou menos esperava. Sou eleitor do Lula desde que ele foi candidato pela primeira vez, como deputado federal. Só ganhei dessa vez e na última, que votei nele para presidente. Dei uma entrevista dizendo que ia votar no Lula, que ele poderia fazer um bom governo, que deveríamos experimentar um operário no poder. Mas disse que eu tinha muito medo de que o PT influenciasse mal o presidente, porque eles são sectaristas, fanáticos. No Lula eu confio, no PT não.

IMPRENSA – Então você acredita que o Lula seja inocente nessa história de mensalão?

Manoel Carlos –
Não. Isso eu falei antes, quando ele foi eleito. No decorrer dos acontecimentos cheguei à seguinte conclusão: ou ele não tem a menor condição de ser presidente da República, porque ignora o que se faz até na sala ao lado da dele. Porque nem sequer esperto ele é, ou está mentindo. Não tem inocência nisso. Ou ele é incapaz ou ele é corrupto. De uma maneira ou de outra eu não o quero mais como presidente. Não vou votar nele.

IMPRENSA – Você acha que os problemas sociais e cotidianos que você retrata têm ligação direta com o fato de vivermos em um país em que a corrupção é aceita?

Manoel Carlos –
Sem dúvida. Eu fico bobo com as coisas que eu vejo. A Copa do Mundo, por exemplo. Você passa por todas as ruas do Brasil e as pessoas se mobilizam para pintar a rua. Fazer a fotografia do Ronaldo. Escrevem que o Brasil vai ganhar. Bandeiras, gastam dinheiro com fogos de artifício. Porque não se mobilizam para se manifestar contra a corrupção? Você já imaginou se cada rua escrevesse, em verde e amarelo, “fora corruptos”? Mas não... Quando chega nessa época de eleição, os jornais fazem aquela pesquisa perguntando em quem você votou para deputado. Ninguém sabe. O brasileiro tem um tipo de comportamento meio bizarro. Ninguém parece dar bola para isso. A corrupção, é claro, não é exclusividade do Brasil. Mas eu acho que existe muito pouca vontade de mudar as coisas no Brasil. Somos, de certa forma, coniventes. Meu pai dizia que o brasileiro é muito carneirinho, Maria-vai-com-as-outras. Não protesta, não reclama, não reivindica. Não se sente com força para isso. Ranço colonialista.

IMPRENSA – Em suas novelas, o personagem principal é uma mulher, a Helena. E, andando pela sua casa, percebi que há um toque feminino evidente na decoração. Qual é o motivo de seu fascínio pelo universo feminino?

Manoel Carlos –
A mulher tem mais o que contar. Acho a mulher muito mais rica que nós homens. Elas são mais valentes, heróicas... Isso não é só fruto meu. Há mais filmes com mulheres do que com homens, há mais atrizes do que atores, há mais grandes atrizes do que grandes atores. Na literatura, por exemplo. Todas as grandes personagens do Balzac são mulheres. O maior romance moderno, que inaugurou a literatura moderna no século 19, foi “Madame Bovary”. As mulheres, por terem passado um largo período da História sempre sendo discriminadas, injustamente, claro, elas são mais confessionais, por isso me interesso por elas. Se o marido a trai, ela conta para as amigas que ele a traiu com a secretária, e chora, e todas as amigas choram. O homem não. Ele não tem coragem assumir que foi corneado. É sempre ele que deixou a mulher. As mulheres são hipócritas no dia a dia, mas , em termos de sentimentos, elas não mentem nunca. Sofrimento de mulher é sofrimento verdadeiro.



IMPRENSA – E a concorrência da Record? O Tiago Santiago vai usar finais interativos em sua trama. O que você acha disso?

Manoel Carlos –
Acho ótimo. Por que não? É muito bom para a TV Globo, para o público, abre mercado. Temos que melhorar o que fazemos.

IMPRENSA – Como você lida com os índices do Ibope?

Manoel Carlos –
Eu me preocupo, sem fanatismos, mas eu me sinto um sujeito bem pago para dar audiência. Não é só para escrever novela. Isso qualquer um faz. Eu sei (nunca passei por isso, graças a Deus), mas sei que um fracasso numa novela é um grande problema na empresa. Porque as novelas e o “Jornal Nacional” carregam a grade toda da empresa. Quando ela te dá uma novela para fazer, a emissora espera que você faça uma grande novela de sucesso.

IMPRENSA – Suas novelas das oito, como você mesmo disse, sempre foram fenômenos de audiência. Houve alguma trama que você percebeu não estar fazendo tanto sucesso?

Manoel Carlos –
Claro. Eu fiscalizo isso. Mas é difícil de prever. Tem cenas em que você leva grande fé e não surpreendem. Mas tem as cartas marcadas, como “quem matou quem” etc., que você sabe que serão fenômenos.

IMPRENSA – Por que você acha que os vilões atraem tanto a atenção da audiência?

Manoel Carlos –
Primeiro porque os vilões são sedutores, atraentes. Tem também porque as pessoas se divertem vendo situações em que, nem sempre, elas se colocariam. O diabo é muito sedutor, né? Os filmes de terror sempre foram atraentes. Têm grande audiência.

IMPRENSA – Terá algum grande vilão em sua novela?

Manoel Carlos –
De um ponto de vista absolutamente humano. A Lília Cabral será uma grande vilã, se você considerar que ela acolhe o neto sadio e diz: “o ‘doente’ eu não quero”, vai ser vista como uma pessoa cruel. Não uso tintas excessivamente fortes. Começa que, na vida real, e eu me preocupo com isso, todos somos heróis, vilões, mocinhos a vida inteira. Você tem manhãs de vilania. À tarde você já está melhor. À noite é capaz de uma crueldade. Como as crianças... Esse maniqueísmo eu odeio. O cara que é mau 24 horas por dia... Não acredito. Só o demônio. O sujeito que é bom o tempo todo também, só Santa Rita de Cássia e, assim mesmo, nem ela.

Fotos: Sergio Huoliver

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Genealogias


Lembro-me de quando aprendi a ler e, como já disse, o primeiro livro que li foi Bíblia (era o único que tinha em casa). Em diversos dos livros daquele que é chamado o livro sagrado havia capítulos inteiros apenas discorrendo sobre genealogias. "Adão, Sete, Enos..." até chegar a Noé, depois até chegar ao rei Davi, depois até chegar a Jesus Cristo.

Essa remissão às genealogias da Bíblia é por conta de uma reportagem que publiquei ontem na Folha sobre um livro chamado "Origem - Retratos de Família no Brasil", que contém 50 retratos de famílias com as mais diversas origens e etnias, feitas pela fotógrafa Fifi Tong. Além das fotos, há pequenas narrativas escritas por um dos integrantes de cada família contando um pouco de suas histórias remotas e recentes.

É um belo trabalho, com imagens intrigantes, que mostram que, a despeito de toda a miscigenção que ocorre no Brasil, os traços familiares se preservam em três, quatro e até cinco gerações.

A família Cruz, que estampa a capa do livro


A fotógrafa me contou que, a princípio, pensou em fazer fotos apenas de mulheres, mas que percebeu a perseverança das feições também em homens e, por isso, ampliou o projeto.

Pensei nas mulheres da minha família materna. A família Pinto. São TODAS AS SEIS muito parecidas. Nenhuma delas fugiu às feições de minha avó Leonor, morta antes mesmo de eu nascer com um câncer de fígado.

Isso se preservou na geração seguinte, a das minhas primas, que embora possuam rostos mais delicados, não negam as origens, mesmo uma delas, que nunca fez parte da família.

Explico: uma de minhas tias, a mais nova, tinha 16 anos em 1978. Engravidou. Expulsa de casa pelo meu avô, que temia a língua dos vizinhos, foi para Curitiba ficar na casa dos meus pais. Cuidava de mim, com pouco mais de um ano, enquanto gestava sua filha.

Sem apoio dos familiares e do pai da criança, inexperiente, sem condições financeiras, deu sua filha no dia em que ela nasceu, há 31 anos, para o médico que fez o parto, que entregou a pequena Araceli a uma família com melhores condições.

Nunca mais se teve notícias dessa menina. Minha tia transferiu todo seu amor materno a mim e a meus primos, e crescemos compartilhando sua dor e culpa por todos esses anos.

Na semana passada, dia 20 de agosto, minha tia completou 49 anos. No domingo, Maria Fernanda, 31, apareceu em sua casa procurando a mãe.

Tia Ivone sempre teve muito temor em procurar a menina. Medo da rejeição. Isso permanece. Mas Maria Fernanda, que também tem uma filha de 12, disse tê-la perdoado. Mesmo assim, minha tia ainda tem muito medo.

Minha nova prima então contou como se deu sua história após sair do útero. Ela foi criada por uma mulher que, na época, tinha 50 anos, as filhas crescidas e não podia mais engravidar. "Queria muito que alguém deixasse uma criança na minha porta", dizia essa senhora a uma de suas filhas, que trabalhava como chefe de enfermagem no Hospital Evangélico de Curitiba, onde Maria Fernanda nasceu.

Sabendo da história da minha tia, combinou com o médico de levar a menina. Naquela época era tudo menos burocrático. Colocou a então pequena Araceli em um moisés e deixou-a na porta da casa de sua mãe.

Maria Fernanda cresceu muito perto de nós. Houve uma época em que tia Ivone vivia na avenida Nossa Senhora Aparecida, no Seminário, vizinha à menina, que ia sempre brincar no condomínio onde a mãe biológica morava. É capaz de nós termos brincado juntos naquela época, pois eu sempre passava finais de semana por lá.

Isso tudo me remete ao livro de Fifi Tong. Maria Fernanda é a cara de minha prima Letícia, muito parecida com a mãe e, segundo tia Ivone, tem o nariz da minha mãe.

Estou particularmente ansioso por conhecê-la, já que sempre tive curiosidade em saber dessa minha prima e só não a procurei com medo de causar um transtorno emocional na vida das duas. Foi melhor assim. As coisas aconteceram naturalmente, já que Maria Fernanda tomou a iniciativa de conhecer suas origens. Espero que ela não se assuste com a intensidade da nossa família.

Também tenho a sensação de que podemos nos dar bem, já que ela cresceu sem todas as cicatrizes familiares que nós, os Pinto, carregamos. Eu, que também amadureci longe, posso trazê-la para dentro com mais cuidado. Espero...

E depois dizem que as novelas são inverossímeis...

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Lei antifumo e Psiu estão matando os botecos


Nesse fim de semana saí para fazer uma reportagem sobre como a lei antifumo em conjunto com o Psiu (Programa de Silêncio Urbano) estavam descaracterizando a noite na rua Augusta, famosa pela diversidade de clubes noturnos, bares e tribos que a frequentam no fim de semana.

No primeiro fim de semana de vigência da lei antifumo, o Psiu, criado pelo Pitta ou pelo Maluf, se não me engano, aproveitou o embalo para, de repente, se lembrar de que havia bares na Augusta que funcionavam de madrugada há anos.

Segundo o Psiu, esses botecos, se quiserem funcionar depois da 1h da manhã, têm que insatalar portas de vidro, isolamento acústico, ter convênio com estacionamento e, ainda, ter segurança na porta, ou isso, ou multa e, no caso de reincidência, lacra-se o bar.

Ou seja, sob pretexto de estabelecer uma ordem nessa cidade que é caótica justamente por décadas de negligência do órgãos públicos, estão querendo transformar os botecos de sinuca, lugares democráticos, onde entra e sai qualquer um, em baladinhas com estacionamento e segurança. Lugares que, aliás, são os mais adequados em tempos de lei antifumo, já que você pode sair, fumar e voltar a beber e bater papo.

Querem transformar boteco em balada de playboy, basicamente. O que será das putas pobres, dos bêbados, dos punks, dos manos, das travestis e dos baladeiros que não sabem a hora de ir pra casa?

É uma questão controversa, porque, embora eu entenda que tem gente que queira dormir à noite, acho que São Paulo e, principalmente, a rua Augusta, não são os melhores lugares para uma vida tranquila e residencial.

Além do mais, a lei de zoneamento em São Paulo é interpretada de uma forma peculiar: não é feita para criar zonas residenciais e comerciais, mas para transformar a cidade numa verdadeira zona mesmo, com comércio, balada e residência tudo no mesmo lugar, afinal, respeita-se a lei apenas quando se trata de pequenos empreendimentos, já que os grandes sempre têm uma graninha pra molhar a mão do fiscal, como é conhecimento geral da nação...

Enfim, conforme disse acima, nas duas primeiras semanas os botecos fecharam à 1h, e a rua, sempre lotada de gente na madruga, deu uma esvaziada.

Mas, no último fim de semana, os botecos começaram a reagir, conforme reportagem publicada hoje na Folha e que reproduzo abaixo.

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Bares da Augusta montam "campana" contra fiscais do Psiu

De madrugada, eles baixam portas à meia altura e põem 'olheiros'; "parece camelô fugindo do rapa", diz cliente




JAMES CIMINO
DA REDAÇÃO

No último fim de semana, a região central conhecida como Baixo Augusta voltou a ficar cheia de gente nas calçadas. Isso porque os botecos reagiram ao Psiu (Programa de Silêncio Urbano) e voltaram a funcionar na madrugada. Para isso, criaram uma tática: recolhem mesas, baixam portas até meia altura e põem funcionários de "campana" na entrada. Caso a fiscalização apareça, fecham.

"Parece camelô fugindo do rapa", diz Luana Viana, 22, estudante da USP e frequentadora do Bar do Netão, que tem ao fundo uma pista de dança e cuja entrada é livre. "É muita lei para a minha cabeça. Assim, isso aqui vai virar o Bar Secreto..."

Há 15 dias, o Psiu, que atua contra a poluição sonora, pegou o "vácuo" do início da lei antifumo e re-intensificou sua atuação. Quem quiser funcionar após a 1h tem que ter porta de vidro, tratamento acústico, convênio com estacionamento e segurança na entrada.

Silva Neto Irineu, dono do Bar do Netão, confirma que a fiscalização ficou mais intensa após a nova lei e diz que já está correndo atrás das exigências.

Até agora, afirma, já gastou R$ 6.000 e vai gastar mais R$ 4.000, mas, enquanto não recebe a porta nova, diz não ter opção a não ser funcionar depois da 1h. "Já amarguei prejuízo de 50%. Se eu fizer o mesmo hoje [sábado], não pago funcionários nem fornecedores."

Questionado se não tinha medo de ter o bar lacrado, Irineu diz que, se fecharem, terá de recorrer na Justiça.

Outro bar ficou descaracterizado até no nome: o 24 Horas, que tem mesas de sinuca. Agora, segundo o balconista José Gomes, 42, fecha à 1h. No entanto, também usou a tática da vigília. Às 3h30 ainda estava atendendo. "Temos tido prejuízo de mais de R$ 1.000 por noite", afirma Gomes.

O Bar Ibotirama é um dos que respeita a lei, mas já foi multado e lacrado. Mesmo assim, o gerente Arcenio Miranda Silva reclama. Segundo ele, o bar, que também funciona durante o dia, perde o horário mais lucrativo, em que são comercializados bebidas e cigarros. "Primeiro foi o Psiu. Agora a lei antifumo tirou mais 30% dos meus clientes."

O DJ Gil Riquerme, não fumante, ficou duas semanas sem tocar na festa Posh. Ele acha que a ação conjunta descaracteriza os botecos. "A lei antifumo joga os fumantes na rua e o Psiu completa o serviço mandando todo mundo para casa. Parece toque de recolher. Esses bares são os mais apropriados para quem fuma. Você entra e sai quando quiser. O boteco não faz do cliente seu refém."

Ele e o amigo André LaFace ironizam o Psiu no panfleto de divulgação da festa: "A noite dura até a hora que alguém lacrar."

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Esperem que a coisa vai piorar bastante, porque o Serra vai ser o próximo presidente e essa direita raivosa, que teve que engolir o Lula durante oito anos, vai vir com tudo...

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Fumei, mas não traguei...


E daí que me irrita muito essa cara de pau de políticos, atores, autoridades e celebridades de, sempre que aparecem na mídia falando sobre drogas, virem com esse papo de que "fumei só uma vez" ou, como o Clinton, que fumou, mas não tragou... E a dona Lily, que tem 750 anos e, na TPM, afirma que tomou um porre de sete vodkas com a Hebe que "foi a primeira vez que fez isso na vida"...

Hoje, na Ilustrada, a Fernanda Torres vem com mais uma dessas cascatas para explicar o processo criativo de uma peça escrita por ela, chamada "Deus é Química", que narra uma "viagem" provocada por alguma droga, "sem usar tarja preta ou maconha". "Eu estou tão limpa na minha vida que agora posso escrever essa peça."

Beleza, ela diz "estou", o que pode sugerir que ela já usou muito, certo? Ou errado? Pergunto porque ela faz questão de dizer que hoje está limpa. Ou seja, mesmo que já tenha usado, hoje faz o mea culpa dizendo estar "limpa" e que, só por isso, pôde escrever a peça.

Fernanda, desculpe, mas você só pôde escrever uma peça desse tipo, sugerindo que nossa concepção sobre Deus não passa do resultado de um transe provocado ou pelo uso de drogas ou por um culto da Igreja Universal, porque um dia andou "se sujando" bastante no mundo das drogas ou no dos cultos da Universal, não é verdade? Do contrário, você é uma tremenda de uma hipócrita e não tem o menor conhecimento de causa para escrever uma peça sobre drogas. Então, já que resolveu falar desse assunto, põe tudo na roda, gata... Conta o que o usou, o que não usou, se vomitou, se cagou nas calças durante o processo, mas não me faça mea culpa. Senão eu vou entender que essa peça é uma merda, escrita por alguém que nada entende de drogas.

Não digo que ela tenha que fazer apologia das drogas, mas se ela está fazendo uma peça sobre o tema, poderia, pelo menos, ter uma postura honesta quanto a sua propriedade sobre o tema. Não precisa bancar a Rebordosa, mas também não precisa fingir que não sabe do que se trata.

Cobri TV durante dois anos e já me enchi desses clichês de artistas: "o papel é um presente"; "fumei uma vez só..."

Estudei teatro durante três anos. Na minha primeira aula, meu diretor falou: "A primeira coisa que vocês têm que saber é que ator é tudo viado, atriz é tudo puta e os dois são tudo maconheiro..." Era uma brincadeira, mas ele estava nos preparando para a imagem que teriam da gente.

Porra, até um ator de "Malhação" que uma colega entrevistou consegue ser mais criativo. Quando questionado se já havia fumado maconha, ele disse: "Você não pode me perguntar isso. Se eu disser que não, estarei sendo hipócrita. Mas eu trabalho com adolescentes e não posso dizer que sim..."

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Talvez por isso o título da reportagem seja "Tenho vergonha de dizer que escrevo".

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