Desde a semana passada, quando estreou "Viver a Vida", a nova novela de Manoel Carlos, muito se comentou sobre o autor e seu modelo de teledramaturgia. Fuçando os arquivos do meu computador, achei a íntegra de uma entrevista que fiz com Maneco no dia do meu aniversário de 30 anos para a revista "Imprensa". Na época, ia estrear "Páginas da Vida".
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O reflexo da violência carioca não está apenas nas novelas do autor Manoel Carlos, 73 anos, que, neste mês, estréia “Páginas da Vida”, sua nova trama no horário nobre da Globo. Quem chega a seu apartamento no Leblon, bairro que sempre serve de cenário a suas histórias, percebe a grande preocupação do autor. Além da guarita, que isola a rua lateral de seu edifício, a porta de entrada de seu apartamento duplex possui um sistema de segurança tão complexo que faz o dueto chave/fechadura parecer coisa da pré-história.
A casa, no entanto, não é nenhum monumento à ostentação e traz, desde a entrada, uma atmosfera de conforto e aconchego que, segundo o próprio Maneco, apelido pelo qual gosta de ser chamado, é obra de sua mulher.
Na sala de estar, onde o autor recebeu a reportagem de IMPRENSA, dividem o pouco espaço disponível fotos de família, inúmeros CDs, livros sobre cinema e fotografia. A única parede livre é a porta de vidro que dá vista para o Cristo Redentor, de quem o autor deu falta pouco antes da entrevista. “Hoje o Cristo está escondido.” “Ah, então você tem vista para o Cristo?”, pergunta o repórter desatento. “Acha que eu iria morar longe do Cristo Redentor?”.
Só para a TV, Maneco escreve há 55 anos. “Novela nos moldes da TV Globo eu faço há 25 anos.. Escrevi mais de 100 teleteatros para a Tupi. O fato de vir a fazer novela é uma conseqüência de trabalhar na televisão. Fiz musicais, programas humorísticos, dirigi “O Fino da Bossa”, Hebe Camargo, “Família Trapo”, “Essa Noite se Improvisa”, fui o primeiro diretor-geral do “Fantástico”. Um dia o Herval Rossano me falou “você não quer fazer novela?”, respondi: “vamos lá”.
IMPRENSA - Qual é a sua relação com o jornalismo?
Manoel Carlos - A minha relação com a imprensa é de quem trabalha nela, afinal, escrevo uma crônica para a revista “Veja Rio” e fui colaborador em muitos jornais. Fui crítico de teatro em São Paulo no jornal “O Tempo”, que foi propriedade do Hugo Borghi, aquele que foi candidato ao governo de São Paulo várias vezes. Acho que quando escrevi para aquele jornal eu tinha 18 anos. Hoje eu estou com 73, imagina há quanto tempo eu mexo com isso...
IMPRENSA - Conforme a novela foi colecionando sucessos, sua produção foi se profissionalizando, assim como a relação da imprensa com ela. Ainda hoje, contudo, há uma parcela da imprensa que considera a novela um subproduto da indústria cultural. Outra parte a vê como um fenômeno social. O que mudou na relação imprensa x telenovela desde quando você começou? Melhorou ou piorou?
Manoel Carlos - Olha, eu acho que essa relação foi sempre melhorando. O que fez mudar a novela e trazê-la ao estágio em que estamos hoje foi o sucesso dela. Já começou como sucesso na TV Excelsior, inclusive, mas não chamava tanto a atenção, não era uma coisa que monopolizasse como hoje, não só no Brasil, como no mundo inteiro. Isso exigiu um aprimoramento da produção que a levou a um nível só comparável ao do cinema americano. Tanto que, quando os americanos vêm aqui, ficam estarrecidos. Eles vão lá ao Projac (complexo de estúdios da Rede Globo em Jacarepaguá) e não conseguem compreender, aceitar, acreditar que a gente faz novela, um capítulo por dia, quatro novelas, todas gravando ao mesmo tempo, com mais de 200 capítulos ao todo, 80 atores, 5 a 6 diretores. Muitos cenários, vários estúdios, cidade cenográfica, unidades externas. Isso tudo fez com que a mídia passasse a olhar a novela de outra maneira. Não importa se ela vê a novela como subproduto ou como fenômeno social. Para mim não importa isso. O importante é que a mídia tem de aceitar que a novela é vista por 40 milhões de pessoas toda noite e isso é um fato. Uma coisa assim não se pode ignorar. Agora, a novela é boa, a novela é ruim, aquela é uma porcaria, é subproduto, deseduca, educa, é uma mensagem social, não é, cada autor faz conscientemente o que deve fazer. Uns têm preocupações sociais, outros não, uns aprimoram o texto, outros não, uns cuidam mais da música, outros não. Algumas fazem sucesso, outras não... A coisa tem de ser julgada sob uma ótica muito ampla, porque, fundamentalmente, o que está no âmago da questão da novela é o grande sucesso que ela é.
IMPRENSA - A que você atribui o fato de um país tão multicultural quanto é o Brasil ter a novela como uma linha que, por vezes, coloca 40 milhões de pessoas em um mesmo patamar? Por que, uma hora ou outra, alguém pára para ver uma novela?
Manoel Carlos - O ouvir uma história é uma coisa muito atraente e sedutora. A minha geração -e mais ainda a sua-, foi forjada no cinema, no teatro, na história em quadrinhos. A gente gosta de ouvir histórias. Isso é no mundo inteiro. No Brasil, antes de a novela estourar, na Argentina já era um sucesso. Em Cuba, então, nem se fale. Nos Estados Unidos tem a "soap opera", os seriados que prendem as pessoas em casa. Quando morei em Nova York, esse "Sex and the City" era uma coisa brutal. Parecia novela. Eu punha minha cabeça pra fora da janela do apartamento, para a área interna, era "Sex and the City" em todas as casas, todo mundo estava vendo. Agora, a novela, como nós fazemos, essa o americano não entendeu bem. Eu tenho a impressão de que, quando ele entender e fizer, será um sucesso estrondoso.
IMPRENSA - E o que falta ao povo americano entender da telenovela brasileira?
Manoel Carlos - Acho que eles não acham muito rentável, muito possível. Acham meio complicado. Talvez eles pensem em gravar uma novela integralmente antes de coloca-lá no ar. Isso nunca deu certo, não dá certo...
IMPRENSA - Por que não?
Manoel Carlos - Porque a novela vive de uma certa inquietação, de uma certa ansiedade de todo mundo que é estimulante. A TV Globo já tentou encomendar a autores uma novela inteira. O cara escreve, entrega 200 capítulos, a emissora paga, mas nunca usou. Vários autores já fizeram isso. Geraldo Vietri já fez isso. Depois a emissora desistiu. A novela precisa, independente de ela ser contemporânea ou não, sentir o que o público está achando. Precisa de um feedback. Ela é feita dessa relação com o público. Então, não adianta você fazer 200 capítulos e colocar no ar e, depois de tudo pronto, descobrir que o mocinho não teve química com a mocinha. Aí você está ferrado. A novela só funciona porque justamente virou uma obra aberta. Ela pode ser feita a cada dia. Eu, por exemplo, faço novela fazendo. Quando sento diante do computador todos os dias eu penso: “bem o que é que eu vou fazer”? Aí mudo todos os meus planos. Às vezes, no dia anterior, escrevi um roteirozinho para mim, chego e mudo tudo na hora de escrever. Invento, não faço, penso em terminar o capítulo de um jeito, termino de outro. Ela vive dessa ansiedade. Vive de o capítulo estar no ar, você assistir, aí sair para jantar e encontrar uma pessoa que diz “acabei de ver o seu capítulo”. Aí você pergunta: “gostou?”. A pessoa responde: “gostei, mas aquele personagem...”. Aí você pensa “pô, eu não tinha pensado nisso”. A novela vive disso.
IMPRENSA - Então a novela comunga da visão do autor e da visão de cada telespectador?
Manoel Carlos - A minha mulher tem influência, meu filho de 14 anos tem influência, minha filha de 23, o meu filho de 52, o meu vizinho, a minha irmã que liga de São Paulo e fala “ah, não gostei daquele personagem”. Tem influência. Não vou dizer que vou matar um personagem por causa da minha irmã, mas eu vejo um ruído e me pergunto: “por que não gostou?”. Passo a ver o personagem com outros olhos. Então, para o americano, isso deve ser difícil de entender. Porque eles são tão programados. Esses seriados, por exemplo, têm de 10 a 12 tratamentos antes de começar a gravar. Vai, passa pelo diretor, volta para o autor. Isso eles vão fazendo e preparam a temporada toda. Eles não entendem como fazemos 200 capítulos que vão ao ar todos os dias e são gravados todos os dias, sendo que, algumas vezes (novela minha acontece isso o tempo todo), cenas são gravadas de um dia para o outro. Os últimos capítulos, o último capítulo, no dia da exibição, ainda está sendo gravado. Eles não entendem isso.
IMPRENSA - A novela brasileira, então, empresta uma dinâmica do próprio jornalismo? Como é essa relação que faz com que a novela paute a imprensa, como foi o caso do transplante de medula óssea de sua novela “Laços de Família” (2000)? Você acha que os telespectadores podem confundir realidade e ficção?
Manoel Carlos - As pessoas mais simples são capazes de confundir mesmo, né? Mas eu tenho preocupação nesse sentido. Quando fiz a cena aqui da bala perdida em “Mulheres Apaixonadas” (2003), foi uma loucura. O prefeito não queria deixar fazer, outro disse que podia. Foi uma briga. A imprensa estava em todo lugar. E eu estava fazendo uma cena de ficção, que tem todo dia, porque bala perdida aqui tem todo dia, matando gente. Mas, na novela, essa cena fica com uma dimensão muito maior do que na realidade, porque são 40 milhões vendo aquilo.
IMPRENSA - E qual é essa dimensão? A ficção atinge mais que a realidade?
Manoel Carlos - Muito mais. A realidade está no jornal ou no dia-a-dia. Uma bala perdida, em uma menina, como ocorreu dia desses, sai, no dia seguinte, em todos os jornais. Alguns na primeira página, outros na terceira, quinta página. O “Jornal Nacional”, dependendo do caso, veicula. Os telejornais do dia seguinte dão, com pouco mais de ênfase ou menos, depende. E atinge, essencialmente, a menina e a família da menina. No dia seguinte tem um gol do Ronaldinho e caiu fora. A novela não. São 40 milhões que estão vendo ali e tem repercussão diária. A novela dá mais audiência de que qualquer outro telejornal, logo, a repercussão é maior. E a bala perdida, a repercussão do que aconteceu, é feita por atores carismáticos, que têm grande sintonia com o público. Isso tudo dá uma dimensão muito maior.

IMPRENSA - Como autor, você não acha preocupante que uma grande massa da população se ocupe de um fato que eu considero emblemático, como o assassinato da personagem Odete Roitmann (“Vale Tudo”, 1988), um crime que, de fato, nunca aconteceu?
Manoel Carlos - Não acho, não. Porque não é só a novela que faz isso. Nem só a Copa do Mundo. O programa “Praça da Alegria”, com o Manoel de Nóbrega e o Golias, fechava os cinemas. Eu fiz programas como “O Fino da Bossa” e o Festival de Música da Record, a edição em que ganhou “A Banda”, do Chico Buarque, o cinema fechou em São Paulo e deve ter fechado em vários outros lugares. O fenômeno é o seguinte: ficou mais atraente o que estava na televisão do que o que estava na rua.
IMPRENSA - E, em nosso país, na maior parte do tempo o que está na televisão é mais atraente do que a realidade?
Manoel Carlos - É muito mais atraente. Você veja hoje em dia... Naquela época não existia essa violência explícita, diária e constante. Some a isso o fato seguinte: não tem nada mais barato que a televisão. Passa na favela: lotado de televisão. Você compra uma por R$ 20 ao mês. De graça e de cueca você liga e vê a Copa na Alemanha. A mulher, pelada, de calcinha, sutiã, o filho de pijama, comendo uma pizza, tomando uma cerveja, o mundo vê aquelas torres explodindo em Nova York. Vêem a morte e o enterro da Lady Di. O cara vê na favela. Então, a televisão não pode ser comparada a nada. Tem um alcance extraordinário no Brasil. E no mundo inteiro. O americano levanta, ainda adormecido, liga a TV e vai para o chuveiro. Ele vai sabendo como vai o tempo, se vai chover, se não vai. É a primeira coisa que ele faz também quando chega em casa, quando mora sozinho, além de ser a última coisa a fazer, desligar a TV. Por quê? O mundo inteiro chega a ela. Temos a guerra do Iraque dentro de casa. Não há concorrência com a TV. Tudo nela fica superlativo. Ela é tão mágica que você dá uma entrevista na TVE, às 3h da manhã, dá traço de audiência. E daí, no dia seguinte, você sai na rua e alguém te diz: “eu te vi ontem hein?” Alguém vê. Então, a audiência da novela é cada vez maior. Fui ontem ao Projac e vi os cenários da minha nova novela, falei para o Jayme Monjardim: “aonde a gente vai parar com isso?” O casarão da Gávea, aonde vai morar o Tarcísio Meira, o cara pode morar dentro. A entrada do casarão com portões de ferro, alamedas com carros entrando, árvores. Eu costumo dizer que o sonho de todo brasileiro é morar em um cenário da TV Globo. E o café da manhã? Que tem suco de várias cores, queijos de vários tipos, pães, croissants, e todos são alegres e felizes. E ninguém é pobre. Mesmo quem é pobre, sempre tem um charme aquilo ali. É uma pobreza com charme.
IMPRENSA - Quando você está montando a novela, preocupa-se em não deixar a pobreza tão real?
Manoel Carlos - Eu acho que não há como deixar. Não é jornalismo. É ficção. Porque se eu fosse mostrar toda a verdade, como é que eu faria? Eu corto para uma casa, lá está o marido falando palavrão, a mulher espancando o filho... Como é que eu vou mostrar isso?
IMPRENSA - Mas, ao mesmo tempo, você mostra, dentro dessa perfeição aparente, discussões familiares contundentes. Pessoas comentam “isso já aconteceu comigo”. Sua novela incomoda?
Manoel Carlos - Incomoda. Tenho uma preocupação em relação a isso...
IMPRENSA - Dá a impressão que você já presenciou várias das cenas que escreve...
Manoel Carlos - Há muitos e muitos anos eu tenho essa preocupação. Em reproduzir o que eu ouço na rua. Convivo com as pessoas. Ando todos os dias no Leblon. Faço caminhadas, converso com o português da padaria, com o cara que aponta o jogo do bicho aqui na esquina, o cara que vende ovos na outra esquina, o chaveiro, aí ele fala da mulher. Converso com todo mundo. Colho isso tudo e tenho uma boa memória para registrar. Eu escrevo coisas que ouvi da minha mãe, dos meus tios. Coisas que vi, que aconteceram com vizinhos meus, que meu amigo me conta, que minha mulher me conta. Que você, se bater um papo comigo e eu registrar uma coisa interessante, eu coloco na novela. E tem um sabor de verdade tudo o que é verdade.
IMPRENSA - Você é um autor que procura manter os pés na realidade para produzir sua ficção?
Manoel Carlos - Eu costumo dizer que eu não faço uma ficção delirante, mas crível. Eu não me preocupo com a realidade, mas com o verossímil. O Huxley tinha uma frase que eu adoro: “o problema da ficção é que ela precisa fazer sentido”. A realidade não precisa. Você lê num jornal que um sujeito caiu do oitavo andar e saiu andando foi para um botequim e tomou uma cerveja. Como é que você vai botar isso em uma novela? Quando a pessoa lê no jornal, ela acredita. Porque é um fato real, jornalístico. Quando vê na novela, vai dizer: “esse cara tá me gozando”. Mas acontece. A realidade não tem lógica nenhuma. Essa menina que morreu de bala perdida dia desses. Estava dormindo, na cama dela. Nesse caso, você pode pôr na novela, porque é uma realidade cotidiana. Todo mundo conhece um caso semelhante. A minha preocupação foi o que você falou mais atrás. Sair na rua e o sujeito me dizer assim: “porra cara eu tenho um tio igualzinho àquele que você colocou na novela”. Não é novidade para mim. Eu sei que vou encontrar isso porque tirei as histórias da realidade.
IMPRENSA - Muitas pessoas que não gostam de novela. Dizem que ela transforma a realidade, e por conseguinte a vida, numa seqüência de clichês e repetições...
Manoel Carlos - Mas a vida é um clichê, e ninguém escapa dele. A vida é repetitiva. Tem uma história que eu gosto de contar, do Agripino Grieco, um crítico literário que morreu há mais de 20 anos e que era um excelente conferencista. Contava sempre as mesmas histórias. Eu, e mais alguns amigos de São Paulo, acompanhávamos as palestras dele. Um dia ele falou: “todo mundo diz que, nas conferências que eu faço, falo as mesmas histórias e conto as mesmas coisas. Nós temos todos dias o mesmo pôr-do-sol, e Deus tem muito mais recursos do que eu. No entanto, ele repete todo dia o mesmo pôr-de-sol”. É claro que a novela é repetitiva, pois tenta retratar o tempo todo cenas familiares. Corta para um almoço, jantar, café da manhã. É sempre a mesma coisa. Eu tomo café da manhã todos os dias com meu filho. Acordo às 6h30 da manhã, independente da hora em que eu tenha ido dormir. Tomo café com ele todos os dias e faço as mesmas perguntas. Ele até já me gozou por isso. Sento ali e falo: “Pedro, quais as aulas que você tem hoje? Pedro, vê se estuda, em matemática você tá uma merda, porra! Agora, depois da escola, o que é que você tem? Tem alguma festa no sábado? Agora vai lá, dá um beijo na mamãe e escova os dentes, hein?” Ou seja, todo dia a mesma coisa.
IMPRENSA - O cotidiano, então, é a matéria prima de qualquer novela?
Manoel Carlos - Das minhas novelas.
IMPRENSA - E das outras?
Manoel Carlos - Nem vejo. Quer dizer, vejo, várias vezes por semana. Mas nem dá para julgar...
IMPRENSA - Não há um a linha que todas sigam?
Manoel Carlos - Olha, eu não gosto é das novelas absurdas. Isso é uma coisa minha. Sempre gostei de literatura. Leio e escrevo desde os 10 anos de idade e nunca gostei de realismo mágico, realismo fantástico. Tampouco de ficção científica. E nunca gostei muito de história em quadrinhos, nem quando criança. Eu sempre gostei dos romances realistas. Dos contos do Machado de Assis que li desde pequeno. Nunca gostei muito do José de Alencar, porque ele falava de um mundo que eu não conhecia bem, como em “Iracema” e “O Guarani”, mas eu gostava de “Senhora”. Gostava dos contos, das noveletas do Alencar, porque eram realistas, verdadeiras...
IMPRENSA – Ou era porque elas tinham mais relação com a sua realidade?
Manoel Carlos – Exatamente. Eu sou essencialmente urbano. Na ficção, você pode ter uma relação com a realidade ou pode divagar, delirar, se for o caso do realismo fantástico. Aí você pode sair por aí voando pela janela, como fez muito bem o Aguinaldo Silva e o Dias Gomes. Eu não saberia fazer esse tipo de novela. Para mim tem de ser assim: toma café, vai para a escola, tem de ser cotidiano. O mais corriqueiro possível.
IMPRENSA – Como ficou a relação entre os escritores de novelas e a imprensa especializada, que antecipa capítulos, histórias, resumos...?
Manoel Carlos – Olha, eu não atendo a telefonemas, porque se eu for atender a cada pedido, não consigo escrever. Mas, por e-mail eu respondo.
IMPRENSA – Mas você se importa de adiantar tramas?
Manoel Carlos – Nunca me importei com isso.
IMPRENSA – Mas você acha que não tira a magia de a pessoa ir assistir e se surpreender com a história?
Manoel Carlos – Tem dois aspectos: o sujeito assiste porque não sabe o que vai acontecer e o sujeito assiste porque sabe o que vai acontecer e ele quer ver como vai acontecer. Anuncia-se que amanhã morre o personagem tal, ninguém sai de casa. Pôxa, mas já sabe que o cara vai morrer. É capaz de ele não saber e sair de casa. Para mim, antecipar (não em detalhes mínimos, claro, que é até de mau gosto), mas dizer o que acontece, não vejo problema. Mesmo porque, minhas novelas não dependem de grandes previsões. Ator nunca recebeu sinopse minha. Eu costumo dizer: “Gente é que nem a vida, vocês têm sinopse da vida? Sabe quando vai morrer, ficar doente, não sabe, né?” Novela minha é assim, ninguém sabe nada. As pessoas que trabalham comigo há muito tempo, como o Tony [Ramos], José Mayer, Regina Duarte já tranqüilizam os outros. Digo aos meus atores que eu quero que eles se surpreendam com o papel. Não fique preocupado com quem o personagem vai casar, com quem acaba no final. E uma das razões pelas quais eu acabei com isso nas minhas novelas era porque eu antecipava coisas e, muitas vezes, o ator me cobrava isso. Quando fiz “Mulheres Apaixonadas”, a [atriz] Maria Padilha recebeu o capítulo e disse: “Porra! Eu to com câncer! Eu tava tão boa...”
IMPRENSA – Então você considera que a imprensa ajuda ou atrapalha na divulgação da novela?
Manoel Carlos – Claro que ajuda. É fundamental. Você passa nas bancas de jornal e tem um monte de gente com aquelas revistinhas falando de novela.
IMPRENSA – Como é o tratamento do chamado “merchandising social” em suas novelas? Como você elege um tema a ser tratado?
Manoel Carlos – Simplesmente elejo. Baseado em coisas que eu sinto latentes na sociedade e mando minhas pesquisadoras levantarem os problemas. Tudo que eu faço é isso. O transplante de medula óssea, por exemplo, estava uma crise de falta de doadores. Não via isso na imprensa, mas conhecia gente que estava na fila do transplante. Mandei minha pesquisadora ir atrás. Ela foi ao hospital do câncer e entrevistou pessoas. Cheguei à seguinte conclusão: a maior razão pela qual a maioria das pessoas se negava a fazer essas doações era porque ninguém sabia o que era. Quando falavam para o sujeito em transplante de medula, ele pensava que ia tirar alguma coisa do corpo dele como acontece com rim, fígado e coração. O cara pensava: “Por que é que eu vou fazer isso? Vai que me tiram alguma coisa?” É invasivo. Quando ficaram sabendo que o processo é colocar uma agulha, tira um líquido e nasce em você outra vez o mesmo líquido, não transmite nada e não te faz falta, formou fila no hospital. Aí, do ponto de vista dramático, criei a história da menina que tem a leucemia, não há nenhum doador compatível na família, e cuja mãe, como último esforço, engravida do mesmo pai da menina para ter o filho e tentar salvá-la. A chave estava aí. Agora, por exemplo, vou falar da síndrome de Down (em “Páginas da Vida”). Um problema mundial, mas muito grave no Brasil, que é a inclusão e a exclusão. Você coloca uma criança com esse problema em uma escola especializada ou em uma escola dita normal? E os problemas que advém dessa escola, pois os pais das crianças reclamam porque acham que seus filhos estão atrasados por culpa da criança portadora. A partir do momento que os jornais noticiaram que eu iria abordar esse assunto, a quantidade de cartas, e-mails e livros sobre o assunto que eu recebi é enorme. Sei estatisticamente que há muitas crianças com essa síndrome, mas nunca imaginei que essas famílias se manifestassem tanto. Aí pedi para aprofundar a pesquisa. Tem aspectos fantásticos que eu posso explorar, como o preconceito familiar, inclusive. O número enorme de pais e mães que, quando chega visita, manda a criança para quarto brincar. Têm vergonha porque a criança é diferente, ou porque a criança não come na mesa porque derruba a comida. Outro aspecto fantástico é o número de casamento que se desfaz por causa disso. Quase sempre o pai se manda. O casamento esfria. Arrolei vários casos. A mãe passa a dormir no quarto com o filho e dá menos atenção ao marido. Dependendo do grau, ela praticamente tem de cuidar do filho 24 horas por dia. Sem contar que o homem é muito mais covarde que a mulher, aliás, a mulher é heróica, porque, afinal põe a criança no mundo. Aí você fica sabendo de uma coisa dessas e pensa: “Será que eu não faria a mesma coisa? Será que não é melhor mesmo a exclusão? A criança ir para uma escola especializada com crianças iguais a ela?” É uma discussão de grande fertilidade porque ninguém resolve. Vou botar isso em discussão. Não vou dizer que sou de um partido ou de outro. Vou botar na mesa. Mas eu sou favorável pela inclusão, porque acho que a criança vai crescer com as diferenças. Mas eu não tenho uma criança assim, em casa.
IMPRENSA – E a questão da AIDS, que também será abordada por você em “Páginas da Vida”. Ela estacionou em um ponto, não é verdade?
Manoel Carlos – Ela estacionou porque parou de morrer artista. Deixou de morrer gente importante. Quando morre artista ela vai para primeira página. Vou mostrar primeiro que se baixou a guarda. As pessoas pararam de se cuidar, voltaram a fazer sexo promíscuo e desprezam o preservativo. Já não estou nem me referindo aos contaminados pela transfusão de sangue, porque aí, você não tem culpa nem eu. A culpa é do Ministério da Saúde, que fiscaliza isso. Mas sim a sua responsabilidade consigo mesmo e com o outro. Fiz entrevistas com prostitutas e minha pesquisadora perguntava: “Mas você toda vez que você faz sexo você usa preservativo? Você exige?”. Elas respondem: “Nããão. Tem homem que não faz. Dizem que, se for para usar camisinha, não querem. E eu preciso ganhar, preciso viver.” Quer dizer: tem o cara que vai lá e faz dessa maneira. Sabendo, expondo-se a ele, a mulher, a prostituta. Acho esse tipo de advertência fundamental, porque considero as campanhas que o governo faz muito ruins. A intenção é boa, mas em uma novela a coisa tem uma dimensão diferente. O exemplo é dado dentro de uma história e em situações críveis. Quando fiz “Laços de Família”, a Capitu era uma garota de programa. O cara vai para cima dela, ela faz um gesto e dá a camisinha na mão dele. Não precisa fazer muito.
IMPRENSA – Você tratou a questão do homossexualismo feminino em sua última novela de forma poética. Recentemente, a novela “América” também criou um personagem que gerou uma imensa expectativa acerca do beijo gay. Acha que a coisa foi abordada de uma maneira errada?
Manoel Carlos – Eu fiz do jeito que eu gosto e sei fazer. Não quero agredir ninguém. Porque é que eu colocaria um beijo na boca entre as meninas e brigar com a imprensa inteira, lutar, por quê? Eu não preciso e não tenho necessidade disso. Coloquei a cena final de “Romeu & Julieta”, uma de Romeu, outra de Julieta e todo mundo que é medianamente inteligente entendeu tudo. Não preciso escandalizar ninguém. Mas não sou contra mostrar. Achei uma bobagem proibir o beijo, mas...
IMPRENSA – E o marketing comercial, como funciona em suas tramas?
Manoel Carlos – O processo é o mesmo com todos os autores. A gente tem liberdade de escolha.
IMPRENSA – Pergunto porque o Lima Duarte reclamou da ingerência dos diretores de comerciais no meio das gravações em entrevista à Folha de S.Paulo...
Manoel Carlos – O Lima Duarte só fez o merchandising que aceitou fazer, e ganhou por isso. Não há nenhuma propaganda que entre sem que o autor aprove. Eu recebo propostas. Já recebi para essa próxima novela. Aceito sugestões, às vezes topo fazer de um jeito diferente, mas nenhuma passa sem minha aprovação. Depois disso, a Globo vai e pergunta ao ator solicitado pela marca para a fazer o merchandising. O Tony Ramos, por exemplo, não faz nem de bebida nem de remédio. E deixa de ganhar o dinheiro dele. Portanto, não tem sentido o Lima reclamar. O Cassiano Gabus Mendes fez uma novela inteira sem aceitar merchandising. A empresa pode não gostar, mas não pode te obrigar a fazer. Para o tipo de novela que eu faço, o merchandising comercial é bem-vindo. Por que deixa mais real. Ninguém pede refrigerante. O povo pede uma Coca-Cola, um guaraná. Me dá uma cerveja??? Me dá um Antarctica....
IMPRENSA – Sua novela vai ser exibida durante o período eleitoral. Vai haver algum reflexo da política brasileira?
Manoel Carlos – Não pode.
IMPRENSA – Mas você trará para o cotidiano de seus personagens algum respingo? Afinal, as pessoas acabam sendo vítimas da política em situações corriqueiras.
Manoel Carlos – Ah, sim! Eu posso conceituar isso, mas não posso fazer nada que soe a favorecimento deste ou daquele candidato. Eu não posso induzir. Não posso tomar partido. Não posso dizer: “pôxa, acho que o cara aí vai ser reeleito, putz, que merda, hein?” Não posso dizer isso.
IMPRENSA – Qual sua opinião sobre a nossa situação política?
Manoel Carlos – Péssima.
IMPRENSA – O que aconteceu com o PT, na sua opinião?
Manoel Carlos - O que eu mais ou menos esperava. Sou eleitor do Lula desde que ele foi candidato pela primeira vez, como deputado federal. Só ganhei dessa vez e na última, que votei nele para presidente. Dei uma entrevista dizendo que ia votar no Lula, que ele poderia fazer um bom governo, que deveríamos experimentar um operário no poder. Mas disse que eu tinha muito medo de que o PT influenciasse mal o presidente, porque eles são sectaristas, fanáticos. No Lula eu confio, no PT não.
IMPRENSA – Então você acredita que o Lula seja inocente nessa história de mensalão?
Manoel Carlos – Não. Isso eu falei antes, quando ele foi eleito. No decorrer dos acontecimentos cheguei à seguinte conclusão: ou ele não tem a menor condição de ser presidente da República, porque ignora o que se faz até na sala ao lado da dele. Porque nem sequer esperto ele é, ou está mentindo. Não tem inocência nisso. Ou ele é incapaz ou ele é corrupto. De uma maneira ou de outra eu não o quero mais como presidente. Não vou votar nele.
IMPRENSA – Você acha que os problemas sociais e cotidianos que você retrata têm ligação direta com o fato de vivermos em um país em que a corrupção é aceita?
Manoel Carlos – Sem dúvida. Eu fico bobo com as coisas que eu vejo. A Copa do Mundo, por exemplo. Você passa por todas as ruas do Brasil e as pessoas se mobilizam para pintar a rua. Fazer a fotografia do Ronaldo. Escrevem que o Brasil vai ganhar. Bandeiras, gastam dinheiro com fogos de artifício. Porque não se mobilizam para se manifestar contra a corrupção? Você já imaginou se cada rua escrevesse, em verde e amarelo, “fora corruptos”? Mas não... Quando chega nessa época de eleição, os jornais fazem aquela pesquisa perguntando em quem você votou para deputado. Ninguém sabe. O brasileiro tem um tipo de comportamento meio bizarro. Ninguém parece dar bola para isso. A corrupção, é claro, não é exclusividade do Brasil. Mas eu acho que existe muito pouca vontade de mudar as coisas no Brasil. Somos, de certa forma, coniventes. Meu pai dizia que o brasileiro é muito carneirinho, Maria-vai-com-as-outras. Não protesta, não reclama, não reivindica. Não se sente com força para isso. Ranço colonialista.
IMPRENSA – Em suas novelas, o personagem principal é uma mulher, a Helena. E, andando pela sua casa, percebi que há um toque feminino evidente na decoração. Qual é o motivo de seu fascínio pelo universo feminino?
Manoel Carlos – A mulher tem mais o que contar. Acho a mulher muito mais rica que nós homens. Elas são mais valentes, heróicas... Isso não é só fruto meu. Há mais filmes com mulheres do que com homens, há mais atrizes do que atores, há mais grandes atrizes do que grandes atores. Na literatura, por exemplo. Todas as grandes personagens do Balzac são mulheres. O maior romance moderno, que inaugurou a literatura moderna no século 19, foi “Madame Bovary”. As mulheres, por terem passado um largo período da História sempre sendo discriminadas, injustamente, claro, elas são mais confessionais, por isso me interesso por elas. Se o marido a trai, ela conta para as amigas que ele a traiu com a secretária, e chora, e todas as amigas choram. O homem não. Ele não tem coragem assumir que foi corneado. É sempre ele que deixou a mulher. As mulheres são hipócritas no dia a dia, mas , em termos de sentimentos, elas não mentem nunca. Sofrimento de mulher é sofrimento verdadeiro.

IMPRENSA – E a concorrência da Record? O Tiago Santiago vai usar finais interativos em sua trama. O que você acha disso?
Manoel Carlos – Acho ótimo. Por que não? É muito bom para a TV Globo, para o público, abre mercado. Temos que melhorar o que fazemos.
IMPRENSA – Como você lida com os índices do Ibope?
Manoel Carlos – Eu me preocupo, sem fanatismos, mas eu me sinto um sujeito bem pago para dar audiência. Não é só para escrever novela. Isso qualquer um faz. Eu sei (nunca passei por isso, graças a Deus), mas sei que um fracasso numa novela é um grande problema na empresa. Porque as novelas e o “Jornal Nacional” carregam a grade toda da empresa. Quando ela te dá uma novela para fazer, a emissora espera que você faça uma grande novela de sucesso.
IMPRENSA – Suas novelas das oito, como você mesmo disse, sempre foram fenômenos de audiência. Houve alguma trama que você percebeu não estar fazendo tanto sucesso?
Manoel Carlos – Claro. Eu fiscalizo isso. Mas é difícil de prever. Tem cenas em que você leva grande fé e não surpreendem. Mas tem as cartas marcadas, como “quem matou quem” etc., que você sabe que serão fenômenos.
IMPRENSA – Por que você acha que os vilões atraem tanto a atenção da audiência?
Manoel Carlos – Primeiro porque os vilões são sedutores, atraentes. Tem também porque as pessoas se divertem vendo situações em que, nem sempre, elas se colocariam. O diabo é muito sedutor, né? Os filmes de terror sempre foram atraentes. Têm grande audiência.
IMPRENSA – Terá algum grande vilão em sua novela?
Manoel Carlos – De um ponto de vista absolutamente humano. A Lília Cabral será uma grande vilã, se você considerar que ela acolhe o neto sadio e diz: “o ‘doente’ eu não quero”, vai ser vista como uma pessoa cruel. Não uso tintas excessivamente fortes. Começa que, na vida real, e eu me preocupo com isso, todos somos heróis, vilões, mocinhos a vida inteira. Você tem manhãs de vilania. À tarde você já está melhor. À noite é capaz de uma crueldade. Como as crianças... Esse maniqueísmo eu odeio. O cara que é mau 24 horas por dia... Não acredito. Só o demônio. O sujeito que é bom o tempo todo também, só Santa Rita de Cássia e, assim mesmo, nem ela.
Fotos: Sergio Huoliver