O jornalismo é adepto dos números. Percebi logo que, para você emplacar uma matéria, é bom que ela sempre esteja calcada em números, embora grande parte dos jornalistas não seja muito afeita à matemática e pouquíssimos saibam fazer um simples cálculo de porcentagem.
Em apenas cinco anos de carreira, três aviões grandes caíram em meu colo. A cobertura frenética do assunto sempre traz especialistas e articulistas discorrendo acerca da segurança nos voos, e SEMPRE existe a seguinte ponderação: "as estatísticas comprovam que, mesmo assim, ainda é muito mais seguro viajar de avião do que de carro".
O tocante artigo da Barbara Gancia de ontem fala exatamente isso, embora não fale disso: "a probabilidade de um passageiro morrer de avião é uma em um milhão".
Até tem rima, mas, nessa afirmação reside minha implicância, afinal de contas, existem muito mais carros e pessoas que neles viajam pelo mundo do que aviões e do que pessoas que viajam de avião.
"Mas a questão é de proporção", retrucam os defensores da estatística. Concordo, mas isso não passa de um alívio estatístico, afinal, pode até ser verdade que a probabilidade de acontecer um acidente de avião seja pequena, mas ninguém comenta que a probabilidade de alguém morrer em um acidente de avião é de quase 100%.
Tanto é verdade que, não fossem as caixas pretas, ninguém nunca saberia detalhes de nenhum acidente aéreo, já que quase nunca sobram testemunhas.
E já que o assunto são os números, vamos a eles. Mais precisamente à matemática aplicada às leis da física, aquelas que nenhum brasileiro, por mais jeitinho que tenha, é capaz de burlar.
Primeira coisa para se elaborar um problema de física é coletar os dados. O Airbus 330 tem um peso máximo para decolagem de 285 toneladas, isso significa que, caso ultrapasse esse peso, o avião nem mesmo levanta voo. Mas, quando levanta voo, o mque por si só já é um grande feito, alcança a altura chamada de cruzeiro, a cerca de 10.700 m de altura, e atinge uma velocidade média de 840 km/h, o que gera nos passageiros uma inércia absurda.
Agora, relembremos os probleminhas de física do antigo segundo grau. Lembram-se da queda livre? A fórmula para se calcular a velocidade de um corpo em queda livre é
vf² = v0² + 2ad, na qual
vf é a velocidade final do corpo,
v0, a inicial,
a é a aceleração da gravidade e
d, a distância (no caso do avião, a altitude).
Vou fazer o cálculo simplificado, considerando apenas a componente vertical da queda e desconsiderando o atrito originado pelo ar durante a mesma.
v0 é 0 mesmo.
vf² = 2 x 10m/s² x 10.700m, o que dá uma velocidade de
462m/s. Fazendo-se as transformações de metros por segundo para quilômetros por hora, chegamos a uma velocidade
1.665 km/h quando o avião tocar o solo ou o mar, nesse caso específico.
Mas o que isso significa? Significa que, a essa velocidade, o impacto libera uma energia equivalente à liberada pela explosão de uma bomba.
Vamos a outra fórmula, a da energia cinética, a energia originada pelo movimento de um corpo, cujo cálculo vem da fórmula
EC = mv², em que
m é massa e
v, velocidade. Portanto,
EC = 285.000kg x 462m/s x 1/2, cujo resultado é 66 milhões de Joules.
Não achei nenhum comparativo em termos de explosão, mas, quem se lembra do avião da TAM que caiu em Congonhas em 2007, quando já estava aterrisando e em processo falho de desaceleração, pode imaginar o resultado. Se essa imagem não for suficiente, é só lembrar do 11 de setembro ou, ainda, do recente caso do deputado Carli Filho, que, a meros 190 km/h, conseguiu arrancar a cabeça de um dos garotos que matou. E, veja só, saiu vivo...
Os acidentes de avião podem ser menos frequentes, mas são mais mortais. Nem poderia ser diferente. Quem pilota avião é especializado nisso, já quem dirige carro pode ser qualquer otário (e sabemos que há muitos pelas ruas). No entanto, quando acontece uma falha mecânica em um carro, raramente alguém morre por causa disso. O que mata bastante no trânsito não são os carros e suas falhas mecânicas, como ocorrer com os aviões, mas os motoristas e sua imprudência.
Ou seja, viajar de avião, é como transar sem camisinha. Você faz porque é bom. Pode ser que não aconteça nada, mas, se der alguma merda, vai ser uma merda muito grande, pois a viagem de avião é um desafio gigantesco às leis da física; um fenômeno que tira do solo um corpo de quase 300 toneladas e faz com que ele se projete pelo ar a quase mil por hora. Qualquer problema, por mínimo que seja terá um resultado fatal.
Fora isso, há o contexto externo ao avião. Ele está imerso em uma massa de ar rarefeito, a uma temperatura muitos graus abaixo de zero e a uma pressão atmosférica baixíssima. Por mais que fosse possível minimizar os impactos dinâmicos do avião, os fatores externos contribuiriam para uma morte quase que instantânea de seus tripulantes.
Quando se viaja de carro não existem esses fatores externos e há diversas possibilidades de se minimizar os efeitos de um acidente, fora os golpes de sorte, vide o deputado paranaense. Já no avião, não tem perhaps...
Felizmente para os franceses, isso tudo que eu demonstrei aqui de forma simplista já foi deduzido, tanto pelos familiares das vítimas, quanto pelo seu presidente, que já no primeiro dia disse que as esperanças de encontrar alguém com vida eram mínimas. No dia seguinte, lotaram a Notre-Dame, choraram, vão processar quem tiverem que processar, se isso for possível, mas, concomitantemente a tudo isso, vão tocar a vida para a frente.
Enquanto isso, no Brasil, sempre aparece alguém querendo mostrar que o sofrimento de quem ficou vivo é tão grande ou maior do que o de quem morreu. Sem falar nos oportunistas querendo imputar responsabilidade a companhias aéreas que, em última instância, não têm a menor condição de garantir a segurança de ninguém, uma vez que são incapazes de controlar as leis da física, mas que, mesmo assim, prometem o improvável.
Não que eu não acredite no sofrimento da maioria dos familiares, mas, quem está sofrendo de verdade pela perda de alguém, sofre com dignidade, sem estardalhaço e a última coisa que vai pensar é que dinheiro substitui uma vida.
Segurança é algo subjetivo. Tanto que, quando me dizem que o avião é o meio de transporte "mais seguro do mundo", respondo: "Eu não me sinto seguro lá em cima. Não entro em pânico, mas só consigo relaxar quando ponho os pés no chão. Portanto, se não me sinto seguro, é porque não é seguro."
Nem por isso vou deixar de viajar de avião. É rápido e em muitos casos é o único meio de se chegar a algum lugar. Mas, quando a aeromoça começa a fazer aquela pantomima sobre os procedimentos de segurança, dá vontade de perguntar: "tá, mas isso vai salvar a minha vida?" ou "e aquele paraquedas não vai rolar mesmo, né?"
"O homem não tem controle de nada mesmo", disse meu irmão, via MSN, ao comentar o caso. Não contestei...