Hoje tem um
artigo do João Pereira Coutinho na Folha falando sobre como a psiquiatria moderna transformou tudo aquilo que acreditávamos serem manias inocentes em patologias.
Segundo o artigo, o "Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder", um manual de referência da American Psychiatric Association publicado desde 1952 e revisto de década em década, incluirá novas
"doenças", como assaltar a geladeira durante a noite, o vício em internet, o gosto por vários parceiros sexuais e até colecionar quinquilharias.
Pelo jeito eu e muita gente que conheço vamos parar na camisa de força logo, logo...
João Pereira Coutinho termina seu artigo dizendo que, ao que parece, a única doença tolerável é a normalpatia.
Coutinho está longe de ser meu articulista favorito. Mesmo assim, não posso deixar de concordar com ele. Agora há pouco, no Twitter, publicaram o seguinte "tweet": "O que Lady GaGa tem na cabeça? O pior chapéu do mundo."
Beleza, os modelos da Lady GaGa são os mais excêntricos, dificilmente alguém iria trabalhar com um chapéu gigante em forma de botão, mas vamos concordar que aquilo combina bem com o personagem que ela criou? E outra: o pior chapéu do mundo na opinião de quem? De uma pessoa que nem usa chapéu?
Estou usando um exemplo radical. Então, vamos ao corriqueiro cotidiano de um local de trabalho supostamente "mente aberta". Hoje estou com uma camisa de estampa de florzinhas roxas com bordas verdes em um fundo branco. Trata-se apenas de uma camisa estampada de mangas curtas, nada mais. Mas bastou isso para eu ouvir inúmeros comentários sobre como eu tenho estilo (leia-se "como você gosta de aparecer").
Ontem era meu tênis Adidas vermelho. Também não vejo nada de excêntrico naquele tênis. Tanto que ele é vendido em lojas de artigos esportivos de qualquer shopping center fuleiro de São Paulo. Mesmo assim, teve quem se desse ao trabalho de olhar nos meus pés e comentasse a cor do tênis.
Taí coisa que me surpreende. Uma parte do corpo que nunca olho é os pés das pessoas. Olho nos olhos, na boca, no cabelo, nos peitos, no desenho dos ombros, nas tatuagens, nos piercings, na bunda e na mala, mas nunca nos pés.
É o famoso "medir dos pés à cabeça". Puta coisa chata. Eu não fico falando pra ninguém "nossa, como você é ordinário" ou "nossa, como você está barrigudo, gordo, magro, cheio des espinhas"... Até penso, às vezes comento com alguém mais próximo, rio, tiro sarro, mas nunca me dirijo a ninguém com eufemismos carregados de ironia.
E o que mais me surpreende ainda é que a pessoa venha com esse tipo de comentário justo para mim que, como bem descreveu o Groucho, sou praticamente a mãe da ironia, além, é claro, de segurar o modelão.
Mas, voltando ao artigo, acho que o único equívoco do Coutinho foi não ter elaborado a descrição clínica da normalpatia.
S. f.1. Doença que acomete as pessoas ditas normais, que gostam de passar despercebidas, mas que não gostam de ser solitárias. Essa patologia leva o seu portador a querem viver em um mundo sem graça, sem cor e a se divertir apenas com aquilo que seja socialmente aceito. O principal sintoma é a hostilização eufemística e irônica do diferente. O principal exemplo da manifestação da doença está na admiração por Stefhany, a Beyoncé do Piauí. Embora diga que a ama, o público que assiste aos vídeos e apresentações dessa jovem na verdade gosta de vê-la se expondo ao rídículo. Assim, sentem-se melhor em sua mediocridade. Há, inclusive, registros de que o ditado em inglês "misery loves company" (sofrimento detesta solidão) foi inspirado na observação do comportamento recalcado dos normalpatas. A doença, no entanto, tem uma peculiaridade: não afeta seu portador, apenas os que com ele tenham contato. A única forma de evitar sua ação é o uso de máscaras sociais, o que inexoravelmente implica na contaminação do interlocutor.