Dentre as coisas que me impressionam em São Paulo, há especificamente uma com a qual não me conformo. Como os paulistanos conseguem viver sentindo cheiro da própria merda há tantos anos?
Explico: estou acompanhando as obras de duplicação da marginal e, a cada vez que passo por lá, me dá ânsia de vômito. Ontem, no carro da reportagem, comentei com o motorista e com a fotógrafa que, ali, a frase "quem peidou?" não faria o menor sentido, já que a atmosfera ao redor das marginais Pinheiros e Tietê é como se fosse um grande peido.
Não consigo entender. Imagine você recebendo as visitas de sua casa em uma daquelas latrinas cavadas no chão, que tinha nos sítios, cheias de merda e de vermes. É mais ou menos isso que os paulistanos fazem, porque a marginal é a porta de entrada da cidade.
Claro que haverá os que diriam que o objetivo é exatamente este: espantar os migrantes, mas sabemos que esse cinismo serve apenas para mascarar o descaso e o relaxo de pobres, ricos, classe média e administração pública.
Os pobres, claro, têm sempre a desculpa de serem pobres, em dinheiro e de espírito, e como vivem em condições precárias, acabam usando isso para justificar a própria falta de civilidade. Ou, como dizia minha mãe, é aquele tipo de gente que não lava bunda porque acha que, já que no dia seguinte vai suar e feder de novo, pensa que a higiene é um esforço vão.
Os ricos porque são especialistas em criar bolhas de sobrevivência dentro da bolha de carniça. Não é à toa que grandes centros empresarias como a Berrini e bairros nobres cheios de condomínios de luxo se proliferam exatamente ao redor da marginal Pinheiros. Chegam a pagar R$ 1 milhão num apartamento de um andar inteiro, com isolamento térmico, acústico e olfativo a ponto de olharem de cima para o esgoto a céu aberto chamado rio Pinheiros com a ilusão de contemplar o Sena ou o Tâmisa. O templo do consumo de luxo, a Daslu, também fica defronte ao fedor. E o próprio governador de São Paulo, que mora no Alto Pinheiros, em dias de muito calor recebe a visita do grande peido na praça Panamericana.
Já a classe média sempre procura responsabilizar aqueles que não podem se defender, como a chatinha que me parou no meio da rua para se indignar com a merda dos cães na calçada.
Agora, seria tão difícil que todas essas empresas, empresários e políticos que habitam o redor de tamanha latrina montar uma força tarefa para despoluir o Tietê e o Pinheiros em troca de renúncia fiscal? E, mesmo sendo os ricos egoístas a ponto de consertarem apenas a calçada em frente a suas casas e aos shopping centers que frequentam, seria tão difícil fazer algo pelo rio, nem que fosse apenas para preservar o olfato dos próprios narizes empinados e, por consequencia, causar um bem coletivo? Mas não, eles preferem construir um shopping bem em frente à marginal e pagar um segurança para, vez ou outra, quando o miasma estiver muito forte, abrir seu paletó de "Men in Black", sacar um frasco de bom ar e borrifar o perfume inócuo no hall de entrada.
"É como cagar e limpar o cu com a bosta", diria meu avô sobre essa situação.
Literalmente, seu Gérson, literalmente...