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Posts com a tag crença

Caim

Enquanto a casa nova não fica pronta, vou escrevendo aqui na casa antiga, onde completar anos era uma tradição de há séculos, e a minha felicidade e a dos outros era certa como uma religião qualquer...

E falando em religião, estou lendo "Caim", o novo romance do José Saramago, que muita gente sabe é de longe meu escritor favorito. Embora esse livro lembre bastante "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", continuo me divertindo muito ao ler as linhas de sarcasmo do português em relação ao Todo-Poderoso.

O livro também é mais curto e com capítulos mais curtos, o que convém a um tema que não é necessariamente novo na obra do escritor. Além do mais, acho que a ironia está mais refinada.

Embora o Luis Felipe Pondé não tenha gostado do romance e considere isso de ser revoltado com Deus uma infantilidade, eu ainda fico feliz de ver que há gente com coragem o suficiente para ridicularizar as crenças disparatadas que a humanidade insiste em cultivar.

Por exemplo, é muito divertido imaginar que a primeira frase que Adão disse para Eva foi : "Vamos para a cama". Assim como a primeira coisa que José fez ao acordar pela manhã com tesão de mijo foi dar uma bela mijada e depois fazer o Jesus na Maria sem aquela demagogia de concepção do espírito santo.

Aprendi a ler aos cinco anos de idade e, em uma família de formação presbiteriana e midática, pouco afeita à educação formal e, consequentemente, à literatura, em minha casa só havia discos de vinil com trilhas sonoras de novelas e a Bíblia.

Dos discos, lia as fichas técnicas com nomes do produtores e atores das tramas, o que me fez saber que eram Gilberto Martinho, Celia Biar e Leina Krespi.



Já a Bíblia, comecei-a pelo começo e terminei pelo fim. Alguns livros do meio me deram muita preguiça, principalmente aqueles com o código moral dos hebreus em peregrinação pelo deserto do Sinai.

Mas, em geral, lia tudo vorazmente. Adorava a travessia do Mar Vermelho, aliás, Moisés foi um dos meus heróis de infância, um espíritio forte, inabalável e que pecou pela vaidade, punido de forma exemplar, proibido de entrar na terra prometida/saqueada.

Ainda hoje há ensinamentos dessa cultura que, de certa forma, aplico em minha vida, como a conquista daquilo que se ama pelo trabalho, mais precisamente o exemplo de Jacó, que trabalhou sete anos pela mulher que amava, mas, ao completar a jornada, teve de se casar coma irmã mais velha e trabalhar outros sete anos para, enfim, casar-se com Raquel, que ironica e rapidamente morreria de parto.

Embora achasse já aos cinco anos algumas passagens bem sem pé nem cabeça, adorava o relato histórico das conquistas judaicas a despeito de todas as adversidades de, por recomendação divina, viver disputando uma terra árida como é a Palestina.

Mas os questionamentos "infantis" de Saramago, sobre por que a humanidade ainda dá ouvidos a ensinamentos tão anacrônicos _obviamente escritos para o contexto da infância da humanidade_ sempre martelaram minha cabeça.

Lembro de uma vez deixar minha mãe sem resposta sobre a Quarta-feira de Cinzas. Perguntei o que era. E ela me respondeu que era um dia em que as pessoas íam à igreja pedir perdão dos pecados cometidos no Carnaval. Perguntei então se tinha Carnaval e Quarta-feira de Cinzas todo ano. Minha mãe respondeu que sim. Então a encurralei: "Então a gente peca no Carnaval e pede perdão na Quarta-feira de Cinzas todo ano? Simples assim?"

Outro desses questionamentos infantis que tinha aparecem no livro. Afinal, por que Deus nos criou e colocou uma árvore da tentação no meio do jardim do Éden? Qual o sentido disso? Uma brincadeira divina? Um teste?

Adão do livro faz a mesma pergunta ao querubim que guarda as portas do Éden e conclui que "melhor estaríamos com o pó que éramos antes, sem vontade nem desejo".

E Saramago aproveita para concluir que "se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado".

Mais uma coisa que adoro nos livros do Saramago são as epígrafes. A de "Caim", que revisita as principais passagens do Velho Testamento com o testemunho do primeiro assassino de que se tem notícia, é a seguinte:

"Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala." (Hebreus, 11, 4)
Livro dos Disparates


Na verdade, pensando bem, o Pondé tem razão quando fala de infantilidade, porque toda crítica à Bíblia só pode ser infantil, já que a maneira com que esse livro apresenta as relações humanas é infantil, muitas vezes sem lógica, com uma dramaturgia que lembra em muito as novelas da Glória Perez. O Pondé, assim como Deus, escreveu certo por linhas tortas...

P.S.: Atenção, sem-teto do Tipos, entrem em contato comigo pelo e-mail presente no post anterior.

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