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Posts com a tag reportagem

Aula de jornalismo nº 6: a ditadura das aspas


Tem dias que essa profissão vale a pena. Na verdade eu devo ser muito idealista, porque acho que quase sempre vale a pena sair para rua, ouvir as pessoas, ver a situação das coisas e escrever sobre aquilo em um veículo que você sabe que bastante gente, uma hora ou outra, lê. Ontem foi um dia que valeu a pena.

Assinei a capa do caderno com uma reportagem importante, curiosa, dramática, comovente. O Liceu Coração de Jesus é um colégio que tem 124 anos e fica no bairro dos Campos Elíseos. O Briguet, que nasceu na Barão de Limeira, deve conhecer esse colégio.

Do 11º andar do edifício onde trabalho é possível reparar como ele se destaca na paisagem, com sua igreja e uma estátua de Jesus Cristo no topo, se não me engano.



Acontece que esse liceu, onde estudaram Monteiro Lobato, Grande Otelo, Sergio Cardoso, Toquinho, filhos de imigrantes italianos, filhos de escravos libertos, filhos de fazendeiros do café, está definhando em meio à degradação da cracolândia.

Ano que vem, vai fechar as três últimas turmas do ensino médio. O local, que tem 17 mil m², já abrigou mais de 3.000 alunos. Hoje tem 288. Ano que vem, 200 no máximo. Além das transferências, a escola não consegue alunos novos.

Quem avisou sobre a pauta foi um professor aposentado da escola, que mandou uma carta para o painel do leitor. Um amigo da redação, cuja família está se mudando para São Paulo, me passou a história dizendo que tinha ido ao local para matricular os filhos, mas desistiu pelo mesmo motivo que o professor apontava.

Cheguei ao liceu e a situação foi me deixando muito triste. Eu tenho um grande respeito pelos colégios tradicionais. Sejam particulares ou públicos. Católicos ou leigos. Estudei em dois tradicionalíssimos, o Estadual do Paraná e o Cefet-PR. O liceu me lembrava mais o Estadual e fiquei pensando como seria triste ver o grandioso e centenário colégio da rua Luiz Leão onde estudei da 5ª à 8ª séries reduzido a um vazio demográfico.

A matéria foi apurada com antecedência. Na terça-feira, quando ia fechar, já estava tudo apurado. Fotos ótimas. Comecei a escrever cedo. A primeira versão do abre ficou pronta e passei para meu editor. De repente, ele me chama.

“Cadê tais e tais informações? Você está colocando tudo na boca do padre (sim o jornalismo tem essa linguagem quase erótica: Quantos centímetros você quer? Quem pega o fulano? Bota na boca de alguém isso aí...). Esse começo tá parecendo tese de mestrado... Você tem que aprender uma coisa: aspas empobrece o texto. O importante é a sua apuração e você contar o que viu, o que sentiu. Foi assim que você escreveu aquele texto da cracolândia. Aspas só se for uma acusação muito grave ou muito impactante, que dê força ao texto.”

Foi a melhor coisa que um editor já me disse. Eu vivia preso à ditadura das aspas, pois nos outros lugares em que trabalhei não havia um editor que desse credibilidade aos seus repórteres. “Isso é coisa de editor covarde, que não se responsabiliza pelos repórteres que tem, que não banca a apuração”, esclareceu minha amiga.

Voltei e comecei a narrar. Os textos finais estão aqui, para assinantes: Escola de Monteiro Lobato definha na cracolândia; Aluno assaltado três vezes não queria mudar de colégio; frase de Toquinho, ex-aluno do liceu

O resultado foi sensacional. Um amigo da arte falou que ficou com vontade se matricular no liceu. Meu namorado diz que quase chorou. O editor e o ombudsman elogiaram. Uma carta dizia que, graças à reportagem, iriam criar um movimento chamado “Viva Liceu” para salvar aquela escola. Hoje, um editorial (O liceu e o crack), um artigo de Clóvis Rossi (Os cacos de uma cidade) e duas cartas no painel do leitor sobre a reportagem.

Elogios à parte, a intenção quando escrevi aquele texto foi mesmo chamar a atenção da cidade sobre o descaso que São Paulo tem pela própria história. Um dia me disseram que aqui há uma barbárie urbana. Passa-se por cima de tudo para construir edifícios neoclássicos. Fui dormir com a sensação de que, dessa vez, fiz jornalismo de verdade.

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Falado em aprendizado, este será meu último post no Tipos. Agradeço ao Moraes pela oportunidade que ele me deu de aprender a ser blogueiro, a ponto de criar um site de blogs que, se tudo der certo, entra no ar amanhã.

Lembro-me do dia em que ele me convidou. Estávamos na praia, pós-réveillon 2002. Alpheu surtando. Todo mundo cor de camarão. Burgo fazendo churrasco. Falei que não queria ter a obrigação de escrever. Hoje sou viciado nisso.

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Aula de jornalismo nº 5: Você não vale nada, mas eu gosto de você


E daí que começa bem o dia quando seu chefe te pede pra ir cobrir a seguinte história: um carro foi parar dentro do rio Tietê durante a madrugada.

Segundo diversas notas na internet, após uma discussão, o motorista, que tentava reatar com a namorada, joga o veículo de propósito dentro do lodoso e fétido rio que corta a capital paulista, de acordo com a versão da moça, por não se conformar com o fim do namoro.

Lá vou eu para o 28º DP, na Freguesía do Ó, zona norte da cidade, onde o boletim foi registrado, ja que o acidente ocorrera na ponte de mesmo nome. Chego lá, consigo o b.o. sem grandes problemas e vou atrás dos envolvidos.

Por telefone, falo com a mãe da garota, que já se mostrasse disposta a conversar. Pergunto se a garota mora perto do DP, e ela diz que não, que mora muito longe do local. Que mora, na verdade, EM GUAIANAZES, extremo da zona "Lost".

São quase cinco da tarde. Ligo para a redação e pergunto se devo ir até lá ou fazer a entrevista por telefone mesmo. Minha editora acertadamente recomenda que eu vá até o local para sentir o clima da história. Como o casal é vizinho de quintal, pelo menos mato os dois coelhos de uma vez.

O problema é que Guaianazes fica tão longe, mas tão longe, que quando saio do local, às 19h30, levo cerca de 40 minutos para atingir o extremo leste da linha vermelha do metrô, ou seja, ainda tem mais pelo menos meia hora de carro até a o jornal.

Chego, entrevisto a moça, cercada pelas irmãs, pai, mãe, primos etc... Falam muito mal do cara. Acusam-no de ser um psicopata, dissimulado, que ele acabaria até conquistando minha simpatia.

Vou à casa do rapaz, ele me recebe calmamente, sua mãe idem, seus irmãos chegam pouco a pouco, sem pressa, acompanham silenciosamente a entrevista. Ele me mostra o carro, acusa a moça de ser infiel e interesseira e, sinceramente, conquista minha simpatia. Não por nada, mas simplesmente porque ele não parecia muito preocupado em me convencer de que estava certo, tampouco tentou depreciar a reputação da garota (exceto pelo fato de chamá-la de interesseira e infiel). Além disso, deu o argumento de que não jogaria no rio um carro de R$ 20 mil que havia comprado fazia um mês. Alegou que passou mal, pois não dormia havia duas noites.

Saio da zona lost com essa história que, a meu ver, não passa de mais uma das inúmeras histórias de sem-vergonhice de pobre que presenciei na infância. Nada demais. Nada que os sites e os programas sensacionalistas de TV já não tivessem dado. Ligo e dou retorno. Minha editora pergunta: "Qual ideia de lead você tem?"

"Não faço a menor ideia!"

Chego na redação e penso que nada me resta a não ser relatar a história com a ironia que ela merece, afinal, o cara não jogou o carro da ponte (se é que jogou), mas da marginal mesmo. Ninguém morreu, ninguém se machucou...

Olha o naipe do casal...


Um relato, com um tom meio NP. O chefe já me chama achando que quero derrubar a matéria. Tranquilizo-o e digo que já estou escrevendo. Em 20 minutos o texto está pronto.

Hoje, pela manhã, tomando banho, recebo uma ligação. É uma amiga dizendo que amou o texto. Chego ao jornal, meu chefe também adorou. O pauteiro gostou, a assessora da CET, para quem ligo sobre outra matéria, também. Coleguinhas de outros veículos mandam mensagens. Só o ombudsman que achou "de muito mau gosto" fazer graça com a desgraça alheia... Mas, que remédio, quando os próprios envolvidos fazem graça da própria falta de graça?

Enfim, quando não se tem uma grande história, conte apenas a história com o humor que ela merece que tá tudo certo.

Quem quiser ver a matéria, está aqui, só para assinantes: Romance entre balconista e motorista acaba com carro dentro do rio Tietê

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Aula de jornalismo nº 4: o "emplacator"


Nosso amigo do Tipos Paulo Galvez me mandou ontem sua aula de jornalismo, com base em sua experiência na TV. Embora os exemplos abaixo possam muito bem ser utilizados em qualquer veículo, principalmente no impresso, onde há a eterna necessidade de se preencher espaço.

Então, caros estudantes, se vocês sonham ser um Willian Bonner ou uma Ana Paula Padrão, algumas regrinhas devem ser seguidas.

O telejornalismo tem suas peculiaridades, e dificilmente você vai começar como apresentador. Portanto, começando como repórter, seu grande desafio será vender matérias para a rede.

O termo é esse mesmo: você tem que vender a matéria, ou seja, convencer o editor nacional de que sua reportagem merece entrar na casa dos brasileiros de norte a sul do país. Bem, na verdade, nem sempre é o repórter que faz esse trabalho e sim um editor de nacional local. Mas há repórteres com ligações diretas com os deuses do nacional.

A venda pode ser feita antes ou depois de a matéria estar pronta. Nos dois casos, a principal regra é "fazer o assunto valer", se é que vocês me entendem. Para ilustrar, vamos utilizar casos concretos, omitindo nomes e emissoras - jornalista é um ser muito poderoso e avesso a críticas.



Exemplo 1:

A pauta diz que há muitos e enormes buracos na rodovia. O Repórter 1 vai até o local e encontra apenas uns buraquinhos lá, outros acolá. Volta para a redação sem o VT. A pauta quer a matéria e manda o Repórter 2 de volta. O Repórter 2, fiel aos objetivos, faz os buraquinhos virarem enormes e numerosos buracões. Matéria na rede.

Exemplo 2:

A pauta diz que voltou a febre por Raul Seixas. Repórter vai pra rua e entrevista dez, quinze pessoas. Só duas dizem que ouvem Raulzito. Tendência confirmada, matéria no ar.

Exemplo 3:

Há repórteres do país todo na cidade aguardando o possível desfecho do sequestro do irmão da dupla sertaneja famosa. Está chegando a hora dos telejornais, a disputa pela audiência é grande, mas não há nada de novo a ser dito. Para não decepcionar milhares de telespectadores, o bom repórter entra ao vivo por telefone, dadas as dificuldades técnicas do local. E narra com riqueza de detalhes a grande operação policial desencadeada naquele momento para prender os sequestradores e libertar a vítima. Editores das outras emissoras se descabelam pelo furo e não poupam críticas às suas incompetentes equipes. A operação policial não aconteceu, mas a audiência já havia sido garantida. O sequestrado foi libertado dias depois.

Nos três casos, é demonstrada a existência de uma ferramenta essencial ao repórter: o "emplacator". Ou seja, já vi repórter sendo demitido porque não dispunha de tal ferramenta. O editor vinha com a pauta, mas o cara, ou por preguiça ou porque o assunto não rendia mesmo (e nesse último caso é um problema, porque você vai ter que lidar diretamente com o ego de seu editor), derrubava a pauta ou transformava aquilo num módulo 200, usando a linguagem do impresso ou, em TV, numa mera nota coberta, certo Galvez?.

Não pode... Só se a pauta for muito merda mesmo, aí é sua obrigação derrubar. Para tanto, prepare-se no caminho entre a suposta pauta e a redação munindo-se de argumentos irrefutáveis, conforme demonstrei na aula nº 3, ou você vai pegar fama de ser um "derrubator". Daí para dar uma passadiha no RH é um pulo...

Essas, meu caros, são lições que vocês nunca vão aprender na faculdade. Então, diploma pra quê?

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Aula de Jornalismo nº 2: o mau gosto (ou o dia em que a morte me fitou os olhos)


Como grande parte dos leitores de jornal é de classe média para cima, volta e meia recebemos cartas e e-mails indignados com o "mau gosto" na divulgação de determinadas imagens, principalmente no tocante às coberturas de guerras, conflitos civis, rebeliões em prisões e quase tudo que envolva violência.

O argumento dos leitores é que eles não querem ser chocados logo no café da manhã com a imagem de um corpo ensanguentado ou de uma criança subnutrida.

Há ainda aqueles que implicam até com o "pelo menos". Por exemplo, quando há um acidente de avião, na medida em que os corpos vão sendo contados, é comum que se publiquem notas dizendo que, até aquele momento da publicação, foram encontrados "pelo menos" X corpos.

Os leitores acham que o "pelo menos" é uma forma pouco otimista com a qual o jornalista olha para o fato, pois, segundo eles, usando essa expressão, matamos as esperanças de que se encontre alguém vivo. O caso não é esse. Acontece que os jornalistas lidam com a realidade. E a realidade é dura e inexorável, principalmente em se tratando de acidentes aéreos, conforme demonstrei no post "O Alívio Estatístico dos Aviões".

Se escrevêssemos novelas, quem sabe tivéssemos a obrigação de escrever um final feliz para as histórias. Não é o caso. Mesmo assim, a Folha Online optou por usar "ao menos" em vez de "pelo menos", pois uma preposição faz muita diferença para quem está na expectativa de encontrar um ente querido com vida.

Na segunda-feira, enquanto escrevia meu comentário alienante sobre Lady GaGa, assisti ao vídeo da iraniana morta em meio aos protestos contra o resultado das eleições no Irã.

Aquilo me encheu de desespero e me fez entender os leitores. Muita gente da redação não quis ver. E não os condeno. Fui então para casa me questionando se aquele vídeo deveria ter sido publicado.

Muitos leitores devem ter questionado o "mau gosto" dos veículos de comunicação em divulgar um vídeo em que a morte nos fita os olhos de forma tão brutal. Não é coisa para acompanhar um café da manhã, um almoço, um jantar e momento nenhum do dia.

Mesmo assim, penso que esse vídeo foi acertadamente divulgado, a despeito do sensacionalismo das imagens. Nesse caso, foi mostrado com o intuito de ser mesmo de muito mau gosto. Estamos muito acostumados com a violência ficcional, com a guerra hollywoodiana e com o conforto dramatúrgico proporcionado pela séries de TV em que o vilão sempre morre e o mocinho sempre sobrevive. Achei necessário que a morte olhasse nos olhos de todo mundo e nos tirasse de nossa confortável ilusão de que o bem sempre triunfa.

Mesmo eu, que já tinha ouvido o estampido da morte e sentido o seu cheiro, nunca havia me deparado com seu olhar desesperado e vazio. Nunca me esquecerei dele. E espero que mesmo aqueles amantes do bom gosto não se esqueçam, porque há certos ódios que devemos cultivar.

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Ainda espero as aulas, coleguinhas...

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Aula de jornalismo nº 1: como criar um factóide


E continuando as festividades pela queda do diploma de jornalismo, começarei a elaborar a primeira das aulas do curso de jornalismo de duas semanas que o Tanga propôs ao Briguet, o que achei deveras uma bela idéia, com acento, embora eu acredite que o curso vá durar muito mais que um curso universitário de quatro anos.

Aliás, estou apenas iniciando o curso. Sugiro que todo mundo que é jornalista, por diplomação ou não, escreva a sua aula e mande para que eu publique aqui com os devidos créditos, caso não tenha blog. Se tiver, mande o link para que eu monte uma série em rede.

Na aula de hoje aprenderemos como criar um factóide com base na experiência americana. Fuçando no site Madonna Online, deparei-me com a notícia seguinte: "Madonna quer fazer pratos típicos para Jesus". O chapéu era HAHAHAHA...

Ou seja, nem as bibas do Madonna Online acreditaram nesse despropósito. Inclusive fizeram uma enquete divertidíssima perguntando qual prato ela devia fazer pra ele (feijoada, vatapá...).

Segundo o site, a notícia foi publicada na revista US e que "uma fonte" teria dito que a Madonna estaria tendo aulas de culinária com a Jessica Seinfeld. Até aí, tudo bem, porque as duas são amigas mesmo. Daí à Madonna ter "aulas de culinária"...



Vamos aos fatos, ou melhor, aos factóides, os meus factóides...

Imgino eu que a cena deve ter ocorrido assim: Estão lá Madonna e Jessica Seinfeld na cozinha da casa que Jerry Seinfeld tem nos Hamptons. Enquanto Seinfeld "twita" em seu computador, as duas conversam sobre o casinho de Madonna com Jesus Luz.

Madonna (com um sorrisinho estúpida e premeditadamente bobo): Oh, Jessica. People think i´m dating Jesus because i want to look superior... But it´s not true... Jessica, i mean it, i´m in love with him.

Jessica (cortando cenouras): You´re not in love. You are feeling like a virgin again, that´s all. This is your paradigma... Because you are a man, Madonna. You need an younger guy around to raise your self-esteem. Besides, being a star, you are completely unable to fall in love with a guy like him. He´s no one. So cut it out!

Madonna (não prestou a menor atenção e continua o número): And i´ve been thinking on having cooking classes with you... I wanna play the happy little housewife to him...


As duas caem na gargalhada.
E as cortinas descem lentamente...

Trabalhando como estagiário do Jerry Seinfeld, uma dessas bichinhas caipiras do meio-oeste americano, que sonha ser roteirista de cinema, presta atenção em toda a conversa.

Ele sai dali. Liga para sua amiguinha inteligente, porém pintosa, que trabalha na US magazine e "vende" a nota da seguinte forma: "Madonna falou que vai ter aulas de culinária para cozinhar para o Jesus." Pronto, está criado o factóide.

A redação da US deve se parecer com a de um site que trabalhei, na editoria de variedades. Aos fins de semana, quando eu cuidava do plantão, era responsável por alimentar a página de "gente & TV". Era uma tortura.

Funcionava assim: o site pagava para que alguns paparazzi do Rio de Janeiro passassem o dia fotografando celebridades e mandando material para a gente. Montávamos galerias de fotos do flagrante para colocar no ar e ganhar mais audiência em cliques no mouse.

Faltava só o que escrever. E esse era meu maior problema. As fotos não diziam nada na maioria das vezes e, quando isso acontece, você parte para a fórmula celebridade + verbo + local + complemento.

Exemplo: "Mylla Christie/Kelly Key/Mulher Melancia + passeia/come/fode + em Ipanema/na Barra/no raio que a parta + com o namorado/com a vó/com a puta que a pariu."

A história da Madonna é até mais fácil de transformar em factóide. Porque, ao que parece, houve um diálogo. Ou seja, a nota existe independentemente da imagem. Dá uma dramaticidade dizer que aquela estrela pop vai cozinhar para um moleque latino-americano filho de uma manicure evangélica.

Aumentam as expectativas sexuais femininas em relação a Jesus Luz ("ele fode a Madonna, a Madonna é a maior puta do mundo, ele deve trepar bem, logo eu quero arrumar um desse") e as dos homens latino-americanos em relação à própria potência sexual e à possibilidade de comer a Madonna.



Rende um monte de cliques, minhas amiguinha.

A classe está dispensada.

P.S.: As imagens são de Norman Rockwell.

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