Passei uma madrugada na cracolândia, região central de São Paulo que fica entre a Estação da Luz e a avenida São João, que tem esse singelo nome porque abriga uma das maiores concentrações de consumidores de crack da cidade.
Era quarta-feira umas oito da noite e meu chefe me pediu para passar a madrugada lá, pois havia começado uma ação da prefeitura em conjunto com o governo do Estado para "solucionar problemas estruturais" na região.
O eufemismo oficialesco quer dizer o seguinte: Kassab e Serra querem revitalizar a área e transformá-la em uma região nobre, chamada Nova Luz, com empresas de tecnologia e centros culturais. Além disso, o local abriga as Estações da Luz e Júlio Prestes, que após a implantação total do programa Expansão São Paulo, do Serra, vai tornar o local um polo de transporte ferroviário, com, entre outras modernizações, a linha que finalmente ligará o aeroporto de Cumbica ao centro de SP.
A operação conjunta teve participação de agentes de saúde, que encaminham os moradores de rua viciados para tratamento, assistentes sociais, que encaminham migrantes para suas cidades de origem, empresa de limpeza pública, Ministério Público e, claro, a Polícia Militar, encarregada de prender traficantes e de limpar redutos como as fétidas pensões e hotéis da região.
Esse conjunto de operações só funciona durante o dia. À noite, até a 1h da manhã, a prefeitura fecha bares e, dali em diante, a polícia trabalha sozinha.
Fui encarregado de verificar a eficácia da operação nas ruas durante a madrugada. Eu, o Apu, fotógrafo, e o motorista entramos no local por volta de meia noite e meia. As ruas desertas e, por cinco minutos, achei que a operação estava funcionando. De repente, aparece uma multidão.
A virgem aqui pergunta: "Nossa, quem é essa gentarada?"; Apu responde: "Advinha?" Insisto: "Nossa, tudo isso?"; Apu: "É o clipe do Michael Jackson..."
De fato, todos os figurantes de "Thriller" estavam ali. O bloco se dispersava conforme a polícia se aproximava, mas logo depois se reagrupava em outros locais.
Quando escrevi o texto, fiz uma alusão à dinâmica polícia versus nóias pelas ruas da cracolândia: era como espantar mosca de padaria.
Um dos editores não entendeu. Disse que aqui em são Paulo não se usava essa expressão. Eu, particularmente, acho a expressão autoexplicativa e muito usual em qualquer lugar do Brasil, inclusive já ouvi isso na TV, mas ele não concordava.
Propôs que mudássemos para "jogo de gato e rato", porque esse lance de mosca de padaria era muito estranho, afinal, que tipo de padaria eu frequentava, obviamente me tirando numa boa...
Aí é que entra a tal precisão que a Carly tanto falava. Argumentei que aquilo não era uma caçada de gato e rato. Em primeiro lugar, porque rato não subestima o poder do gato. Depois, o gato persegue o rato no intuito de capturá-lo.
Na cracolândia isso não acontece. Os nóias, ou ratos, não têm medo da polícia, os gatos. Tampouco a polícia quer capturar o nóias, nem pode, pois a maioria é de usuários, e os ratos sabem disso. O único intuito da polícia é dispersar os nóias, mas eles se reagrupam muito rapidamente, como moscas e não como ratos. Ou, como dizia meu vô Gérson, "que nem bicheira na capação" ou "que nem urubu na carniça".
Ainda assim acharam degradante demais. Retruquei: "Gente, estou falando da cracolândia..."
E assim, emplaquei as moscas, mas sem a padaria, porque nosso leitor frequenta padarias de nível...
Vejam o texto na Folha de hoje ou aqui nesse link, só pra assinantes:
"À noite, trabalho da polícia é como espantar moscas"