Quem nunca ouviu falar da Eny? Entre o sanduíche e a Eny eu prefiro mil vezes ela como ponto de referência de Bauru. A casa onde funcionou um dos maiores prostíbulos do Brasil estava abandonada. Fui num churrasco e numa rave lá há algum tempo. Agora é um bar e o infeliz dono colocou o nome de Camboja. Não é Camboja, seu bobo, é a casa da Eny!!! Imagina só, o cara abre um bar no antigo bordel e muda o nome pra Camboja... Não falo nada... Manuela canta lá na Eny hoje, com Technicolor. Está frio, muito frio. Mas vou!

Nunca houve uma dona de cabaré como Eny Cezarino. Nos anos 50 e 60, ela esteve à frente de um dos mais poderosos, famosos e prestigiados templos de sexo do país: a Casa de Eny, um verdadeiro cenário hollywodiano recriado na cidade de Bauru , no interior paulista. Pela propriedade de 15 mil metros quadrados transitaram celebridades, homens de negócios e políticos. A cafetina não media esforços para oferecer conforto e o máximo de prazer aos seus freqüentadores e para isso contava com quarenta quartos, duas suítes, piscina, jardins, saunas, restaurante, bares, salões de festa e, claro, dezenas de deslumbrantes mulheres. Nesta biografia romanceada, fruto de dez anos de pesquisa do jornalista Lucius de Mello,o leitor vai conhecer o cotidiano deste bordel brasileiro. Os clientes famosos e suas meninas prediletas. Os segredos de alcova e os favores polítcos. Fetiches e escândalos. Prazer e vingança. Um mergulho no submundo dos anos dourados.
Criada para casar, com uma sólida educação familiar, Eny Cezarino, uma jovem paulistana de origem italiana, poderia seguir tranqüilamente o mesmo caminho reservado às moças da sociedade. Mas o destino lhe reservou algumas surpresas e fez mudar o rumo de sua história. Discreta, bonita e elegante, ela conduziu sua vida como uma audaciosa mulher de negócios. A bela e temperamental moça que entregava marmitas nas ruas de São Paulo, acabou seduzindo muitos homens e construindo seu império do prazer em Bauru.
Com a mestria dos grandes narradores, Lucius de Mello transita do passado e dias de glória de Eny à decadência da personagem em seu final de vida, sem que o leitor perca o fio da meada e o interesse no desenrolar da história.
Implacável, conselheira, caridosa, sedutora, apaixonante, Eny conviveu com poderosos e os mais necessitados, ficou rica proprietária de vinte e seis imóveis e morreu pobre numa cama de hospital. Nunca deixou de ajudar sua família, criou dezenas dos filhos das meninas de seu bordel, e doava regularmente, mesmo depois de perder seu patrimônio, comidas e brinquedos para os orfanatos da cidade de Bauru. Morreu em 24 de agosto de 1987 aos 69 anos.
Na orelha, o dramaturgo Mauro Rasi, que nasceu e passou sua juventude em Bauru, comenta: “A Casa de Eny” foi uma referência quase tão famosa quanto o sanduíche. No tempo dos viajantes, era só falar de Bauru que se pensava logo em sacanagem. Até poucos anos atrás a associação era imediata.(...) Devo ter sido uma das raras pessoas que foram à zona com a mente e não com o corpo. Eny nos faz ter saudade do pecado."
Lucius de Mello tem 38 anos. Fez sua estréia na literatura em 1987 com a publicação do livro de contos Um violino para os gatos que recebeu elogios entusiastas de Luis Fernando Verissimo e de Rachel de Queiroz . Repórter da TV Globo, durante 14 anos, atualmente faz parte da equipe de jornalismo do Jornal do SBT, em São Paulo. Livro conta a história da ‘Casa da Eny’Aurélio Alonso
Bauru ficou conhecida nacionalmente não só pelo saboroso sanduíche de rosbife, mas pelo enorme casarão na saída de Agudos, nas imediações do trevo da SP-225, que abrigou durante anos a mais freqüentada casa de prostituição que levava o nome da cafetina Eny Cezarino.
Passados 17 anos de sua morte, o bordel ainda desperta curiosidades. Ele fechou no início da década de 80 com o surgimento de motéis de alta rotatividade.
A biografia do maior “mito da prostituição”, de autoria do jornalista Lucius de Mello, resgata a vida da cafetina. A biografia romanceada, lançada há poucas semanas, está entre os 10 livros mais vendidos no ranking da revista Veja, e em sexto lugar na categoria não ficção. A primeira edição se esgotou rapidamente.
Na última vez que Eny deu entrevista (ao jornalista José Carlos Azenha) reclamou que os tempos eram outros. A demasiada liberdade sexual espantou os freqüentadores da zona de meretrício.
O bordel ostentou fama e projetou Bauru. Afinal, como uma casa de prostituição numa época de repressão sexual e política ficou tão famosa. Qual é o segredo? Quem era Eny? De onde veio? Quem são as figuras famosas que freqüentaram?
Essas perguntas que não querem calar, Mello tenta responder no livro “Eny e o grande bordel brasileiro”, ilustrado com fotos. O jornalista conta a história da paulistana nascida e criada para casar na Vila Mariana, na capital, que soube com discrição comandar a mais badalada casa de prostituição.
O livro foi um trabalho árduo que o jornalista dividiu por 10 anos com sua atividade de repórter da TV Modelo (afiliada da Globo). Pesquisou arquivos de jornais, acervo fotográfico, entrevistou personagens oculares do submundo da prostituição e parentes de Eny. Apesar do glamour do cabaré, falar de prostituição é assunto delicado. Mello teve que romancear para mudar os nomes de alguns entrevistados. “Alguns eu precisei trocar para ser fiel às minhas fontes. A sobrinha de Eny, por exemplo, que aparece logo na primeira página do livro, não se chama Isabela. Ela pediu-me para não revelar o nome real”, conta Lucius de Mello (leia entrevista na página 6).
O dramaturgo Mauro Rasi resumiu em poucas palavras a “saga pecadora” que, no tempo dos viajantes, era só falar de Bauru e se pensava logo em sacanagem. “Até poucos anos atrás a associação era imediata. Devo ter sido uma das raras pessoas que foram à zona com a mente e não com o corpo. Eny nos faz ter saudade do pecado”, escreveu na orelha do livro. O dramaturgo é bauruense e passou a juventude na “Cidade sem limites”.
Naquela época, a prostituição tinha charme. As “meninas” eram apontadas nas ruas, chamadas de pecadoras pela igreja e pela sociedade que era muito menos tolerante, mas a cafetina ensinava elas a se comportarem e vestirem como estrelas de cinema.
Segundo Mello, Eny encarava isso com certo sucesso. “Aproveitava a fama para aparecer bem”. A cafetina era grande marqueteira do pecado. “Conjugava de forma inteligente o verbo cafetinar”, filosofa o autor do livro. Com prefácio do escritor Fernando Morais, é a segunda obra literária do jornalista, atualmente repórter do SBT de São Paulo. Ele lançou em 1987 os contos “Um Violino para os gatos”.
Lucius conseguiu boas fontes de informação, como o ex-prefeito e ex-deputado Nicola Avallone Júnior (Nicolinha) que a conheceu de perto e teve Eny como cabo eleitoral de suas campanhas. Por intervenção política de Nicolinha, Eny conseguiu sair do centro de Bauru e montar o cabaré luxuoso na saída de Bauru para Ipaussu.
Apesar de viver numa propriedade de 15 mil metros quadrados em meio a piscinas, salões de festas e restaurante, Eny morreu pobre aos 69 anos em 24 de agosto de 1987 — no aniversário da morte de Getúlio Vargas — tentando vender sua última aliança de brilhantes para pagar o médico.