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Nascer na China

e ser mulher.

Uma vergonha.


Correr o risco de ser jogada na via pública ao nascer.

Correr o risco de ser sequestrada e vendida como objeto.

Correr riscos.

Todo tempo.


Razão: a política restritiva e hipócrita do governo chinês impondo um “único filho”.


O país que abriu suas portas ao comércio internacional, vive hoje um boom de crescimento no panorama econômico, mas socialmente ainda vive na Idade da Pedra.


Nascer na China e ser mulher é não valer nada, não ter dignidade nem razão para viver.
Jornalista chinesa escreve livro com depoimentos comoventes sobre “Nascer mulher na China”

Rosa Mora do El País.



“Muito estimada Xinran: escrevo-lhe para contar um segredo. Não é realmente um segredo, porque todo mundo na aldeia já sabe. Na aldeia existe um senhor deficiente de 60 anos que recentemente comprou uma jovem esposa. A garota parece muito jovem. Creio que foi seqüestrada. Isso acontece com certa freqüência por aqui, mas muitas meninas costumam escapar mais tarde. O senhor teme que sua esposa escape e a deixa presa com uma corrente de ferro. Sua cintura está em carne viva por causa da corrente pesada: o sangue vazou através de suas roupas. Creio que isso a matará. Por favor, salve-a.” Essa carta chegou em 1989 ao programa radiofônico “Palavra na Brisa Noturna”, que Xinran Xue dirigiu e apresentou em Nanging (China) entre 1989 e 1997.


Pouco depois um casal de idosos se apresentou na emissora, acusando Xinran de assassina, e lhe entregou o bilhete de suicídio de sua única filha: “Querida Xinran: por que não respondeu à minha carta? Será que não percebeu que tinha que decidir minha vida ou morte? Eu amo um rapaz, mas nunca fiz nada de mal. Ele jamais tocou meu corpo, mas um vizinho o viu beijando minha testa e contou para todos os que quiseram ouvir que eu era uma mulher má. Meu pai e minha mãe estão muito envergonhados. Gosto muito de meus pais. Desde pequena, meu maior desejo foi que sentissem orgulho de mim, fossem felizes por ter uma filha inteligente e bonita, em vez de sentir-se inferiores por não ter um filho”.


Xiao Yu, era esse seu nome, tinha 19 anos quando se suicidou. Xinran recebeu sua carta três semanas depois. Não pôde fazer nada, exceto sentir-se destroçada pela tragédia. No caso da jovem esposa comprada -uma menina de 12 anos-, Xinran conseguiu que a libertassem. Ninguém a cumprimentou; pelo contrário, foi acusada de pescar em águas revoltas e de incitar pessoas.


Ligações diretas


Foi duro, mas Xinran Xue (Pequim, 1958) prometeu a si mesma que levaria adiante seu programa, dando voz às mulheres silenciadas. Primeiro organizou um pequeno consultório de dez minutos, depois conseguiu autorização para receber ligações diretas. Durante oito anos entrevistou mais de 200 mulheres e colheu inúmeros depoimentos. Alguns desses ela reuniu no livro “Nascer Mulher na China - As vozes silenciadas”.


Xinran, que esteve em Barcelona para o lançamento do livro, contou que só conseguiu escrevê-lo depois que deixou a China e se instalou em Londres. “Depois de oito anos, eu não agüentava mais. Tinha insônia e problemas de saúde. Pensei que era o melhor momento para deixar a China, tinha que conhecer a mim mesma e queria conhecer a vida de outras mulheres. Além disso, havia a educação de meu filho, que tinha então 9 anos. Queria que fosse educado de outra maneira.”


“Nascer Mulher na China” é um livro comovente. Veja algumas das histórias:


Hongxue escreveu quando tinha 17 anos: “É uma boa idade para morrer”. Desde os 11, desde o dia em que teve suas primeiras regras, seu pai abusou dela. “Terá que agüentar isso pela segurança de toda a família”, disse-lhe sua mãe. Hongxue acabou no hospital, se automutilou para que não a mandassem de volta para casa. Adotou uma “mosca bebê”, cuidava dela e a levava para passear. Capturou uma mosca adulta e quando morreu a colocou em uma ferida que fizera em si mesma. Morreu de septicemia.


Shilin, filha de um general do Kuomintang (partido nacionalista chinês que foi derrotado por Mao), foi recolhida por uma jovem tia quando a família se exilou. Ela a fez passar por sua filha, mas a Guarda Vermelha a acusou de ter “nascido fora do casamento”. Sofreu um choque que a fez perder o juízo.


Sua irmã, seu cunhado e os pais deste foram encarcerados e ela, enviada para reeducação em um povoado na montanha. Muitos anos depois da Revolução Cultural (1966-1976), sua irmã conseguiu encontrá-la. Tinha mordidas no torso, um mamilo destruído, os lábios vaginais arrancados, o colo e as paredes do útero arrancados, lhe extraíram até um ovário. Enlouqueceu.


Yingsi e Gu Da se apaixonaram na universidade, mas a revolução os separou. Quando ela conseguiu encontrá-lo, 40 anos depois, estava casado. Hua'er, filha de japoneses acusados de ser capachos do capitalismo, foi violada repetidamente quando ia para o grupo de estudos da Guarda Vermelha.


São depoimentos assustadores. “Comecei meu programa anos depois do início de um lento processo de abertura [em 1983, por Deng Xiaoping], mas não creio que essas coisas terríveis tenham acontecido somente durante a Revolução Cultural”, diz Xinran. “Vêm da tradição mais antiga. Durante a revolução, assim como acontece em tempos de guerra, toda sociedade vacila e os homens maus têm a oportunidade de abusar das mulheres.”


Para Xinran, um dos problemas terríveis que existem na China é a falta de educação sexual. “Não se fala em sexo, não há liberdade de relações, não há imprensa independente, toda a informação vem do Estado. Para os homens é mais fácil ter oportunidades, mas para as mulheres é muito difícil.”


Xinran acredita que “os homens são sexualmente mais ativos”. “Durante muito tempo não tiveram um modo correto de expressá-lo. É difícil julgar, dizer se são bons ou maus, o que acontece é que a mulher sofre mais.”


Sair da China e ver o mundo convenceu Xinran de que as mulheres têm problemas em todo lugar. “Em 1995 perguntei na rádio aos homens quantas boas mulheres tinham conhecido; 99% dos que responderam disseram que nunca tinham conhecido uma boa mulher. Fiquei muito impressionada e pensei que talvez o problema não fosse das mulheres, mas dos homens.”


A mesma visão masculina


No ano passado Xinran viajou por 14 países para promover seu livro (foi traduzido para 24 idiomas). “Pude perguntar a mesma coisa aos homens desses lugares, e eles responderam da mesma forma: as boas mulheres têm filhos homens, não trabalham e cuidam da família e da casa.”


Como deve ser uma boa mulher? “Nunca pode perder a calma; tem que ser sempre muito delicada; deve ser muito boa na cama e além disso muito bonita, e na China, mesmo que tenha todas essas virtudes, se não tiver um filho homem não serve para nada. Quantas mulheres se enquadram nisso? Se você se esforçar a vida toda para ser boa, mas não tiver um filho homem, não será uma boa mulher. Por isso há tanta infelicidade, tantas histórias de amor dramáticas.”


A escritora não se limita a seu livro e também oferece dados sobre a mulher na China divulgados na publicação britânica “The Lancet”: de 1995 a 1999, um em cada cinco chineses que morreram entre 15 e 34 anos se suicidou, e 25% dos suicidas eram mulheres.


Xinran entrevistou para seu programa uma universitária, Xiao Yu, que colocou três perguntas para que fossem divulgadas pela rádio: Que filosofia têm as mulheres chinesas? O que é a felicidade para as mulheres? O que é que transforma uma mulher em boa esposa?


“Ainda não encontrei a resposta. Antes da estréia do programa, em 1989, acreditava que conhecia as mulheres de meu país; afinal sou chinesa e minha mãe também, mas desde que comecei a receber cartas e depois de oito anos já não sei, absolutamente. As experiências que recebo são como uma gota, não posso explicar um oceano tão grande como a China, mas alguma coisa eu fiz. Creio que as chinesas têm uma grande riqueza emocional, e mesmo que não falem o importante é que mantêm suas vozes. Algumas eu reuni neste livro.”


Menina sem tranças


Xinran Xue não teve uma vida fácil. “Praticamente não experimentei a juventude nem a beleza”, conta em “Nascer Mulher na China”. Aos 20 anos acreditava que através de um beijo poderia engravidar, e só beijou pela primeira vez aos 30 anos. Foi mandada para morar com sua avó quando tinha um mês. Sua mãe vinha de uma rica família de Nanging e aos 14 anos se inscreveu na Liga Juvenil Comunista. Aos 16, no Exército Vermelho. No início dos anos 50, em um expurgo, foi “relegada à classe negra de descendentes de capitalistas”.


Xinran foi viver com seus pais quando tinha 10 anos. Poucos dias depois sua casa foi revistada pela Guarda Vermelha. Seu pai foi preso por ser um “representante do feudalismo, do capitalismo e do revisionismo”. Queimaram livros, móveis, objetos de arte, brinquedos. Xinran teve suas tranças cortadas porque “era um penteado pequeno-burguês”. “Eu tinha muito orgulho do meu cabelo, que chegava quase até os tornozelos, e o usava em tranças com laços.”


Sua mãe foi detida pouco depois, e Xinran e o irmão foram enviados para um orfanato para filhos de pais presos, onde passaram cinco anos. “Foi muito difícil. Era como uma prisão. Nossos pais tinham um passado negro e tínhamos perdido os direitos humanos. Éramos proibidos de falar com outras pessoas ou de brincar. Ainda sonho com isso, tenho pesadelos, acordo e não consigo voltar a dormir.”


Xinran viveu apenas três anos com seus pais. “Minha mãe começou a falar comigo no ano passado, quando viajei à China. Perguntei se era feliz. 'Se você compreendeu a vida que passamos, não deveria fazer essa pergunta. Já sabe a resposta', ela respondeu. Pela linguagem corporal, sei que tem uma pressão muito forte na cabeça, uma grande dor. Tentou durante toda a sua vida sair das sombras, mas ninguém a escutou.” Em 2002 ela pintou pela primeira vez a boca em mais de 50 anos, para conhecer o noivo inglês de sua filha.


Xinran trabalha na faculdade de estudos orientais e africanos da Universidade de Londres. Seu filho, PanPan, hoje com 15 anos, leu seu livro e gostou. “Antes de ler ele não queria falar comigo. Depois me disse: 'Realmente você escreveu um bom livro'. Ele me faz muitas perguntas sobre a China, conversamos, somos amigos. No final do último semestre, fui à escola dele e me apresentou a quatro de seus amigos. Também tinham conversado sobre 'Nascer Mulher na China'. Disseram-me: 'Bem feito'. Foi engraçado, mas me comoveu. Eu pensava que nessa idade não poderiam entender essas coisas. Me enganei.”

Comentários

confesso, não li o leia mais por pura preguiça (e pra poder dormir antes das 6:00...), mas arrisco dizer que nascer mulher na China não significa uma completa ausência de dignidade. concordo que há sim um gravíssimo problema social devido à lei do único filho, tristemente necessária devido à superpopulação do país, que faz com que as meninas sejam muitas vezes rejeitadas pelos pais. mas a mulher na China trabalha de igual pra igual em atividades braçais ou não. ou pelo menos trabalhava há 17 anos, uma das conquistas reais do comunismo real que vi funcionando na ruas chinesas.

por guilherme

15/03/03 às 02:45 - Link

Nenhuma benesse econômica justifica tamanho descaso. Como lutamos muito hoje em dia para ter o básico, nos esquecemos do humano para chegar á conclusão que não é tão ruim. Existe apoio ás decisões do estado para resolver um problema estrutural através dessas políticas impositivas? Duvido. Dá uma lida rápida. É um descaso total. É uma hipocrisia. É uma afronta aos direitos humanos isso!

por luabela

16/03/03 às 08:47 - Link

barbaridades, sexistas ou não, infelizmente existiram ao longo da história, continuam existindo e existirão até o fim dos nossos tempos. em meio a convulsões sociais, então, são abundantes. na Revolução Cultural chinesa, certamente muitas aconteceram; no Brasil torturaram-se milhares de pessoas inocentes durante os anos de ferro do militarismo. não consigo deixar de concordar, agressão inaceitável que seja, que cortassem as tranças de Xinran. afinal, ela era sim filha de capitalistas e aquele penteado era sim representante da pequena-burguesia. não defendo a exceução do ato em momento algum, apenas enxergo coerência ideológica nele. quando falo de igualdade de gêneros na China, refiro-me à realidade que presenciei em Xangai, Tsingdao e Ningbo em 85 e 86. vou além e falo de igualdade plena de direitos entre todos, um sistema onde todos tinham acessos às mesmas necessidades básicas estatais: comida, moradia, saúde, educação, transporte. todos usavam as mesmas roupas cinza-fronha ou bege-danete de cortes simples feitas de algodão ou linho, não sei bem, em poucos minutos nas feiras de rua e todos se sentiam iguais nessas conquistas. quando duas pessoas casavam, recebiam do Estado uma casa de três cômodos. no nascer do primeiro filho, ganhavam, automatica e gratuitamente, uma casa com um cômodo extra. o filho teria acesso a todos os direitos de toda a população, uma realízação máxima do igualitarismo entre cidadãos. mas o sistema ainda era (é) uma ditadura e elas nunca são perfeitas humanitariamente. o segundo filho, caso não fosse abandonado ou morto pelos pais, não tinha direito a nada. mesma casa, nenhum serviço estatal. aventurando-se na loucura do terceiro filho, o casal não só não ganhava nada como também perdia as conquistas do primeiro filho: teria que criar três crianças com recursos próprios em uma habitação precária. algo quase impossível num regime onde os salários eram quase simbólicos. sim, muitas crianças eram mortas para evitar esse destino. e muitas mulheres em muitos abortos mal-feitos. e muitas primogênitas, porque preferia-se um varão à uma princesa, já que só havia chance de um herdeiro (estranho referir-se a herdeiro num sistema comunista. enfim). uma ditadura sanguinária, cruel com os opositores e implacável com os transgressores. e não deve ter mudado muito, apesar da abertura econômica desde então. mudanças perceptíveis de um ano para o outro, visíveis nas ruas. as roupas, exclusivamente cinza e bege em 85, deram lugar a calças jeans aqui e camisas multi-coloridas ali, ainda que timidamente, em 86. mas as liberdades eram só aparentes, o sistema estatal persistia e deve persistir ainda hoje. mas falo de igualdade, sim, num regime tão duro. falo de mulheres e homens fazendo os mesmos serviços e tendo os mesmos direitos. falo de igualdade garantida por lei, mesmo que seja a lei de um regime torto. seqüestros, estupros, assassinatos, abandonos, nada justifica isso. não há, de fato, benesse econômica ou política que permita tais atitudes. há um paradoxo grave na China: a igualdade conquistada pela implantação do comunismo bate de frente com as injustiças advindas dessa mesma implantação. como já disse, ditaduras estão longe de serem perfeitas. as barbáries que acontecem contra as mulheres chinesas devem, sim, ser denunciadas e combatidas, assim como as barbáries contra mulheres e homens, pessoas, do mundo inteiro. na China, no Brasil, na Arábia Saudita, nas Filipinas, onde quer que haja injustiça e crueldade.

por guilherme

16/03/03 às 14:56 - Link

Now I take your point!! Thanks and Hugs

por Lu (desloguilson)

17/03/03 às 17:26 - Link

um certa vez eu assiti na tv bandeirantes uma reportagem sobre a china , simplismente eu chorei e fui dormir. não sei o que poderiamos fazer pelas crianças de lá ,mas sei que muitos que tenham condições nã o tenham se iportado , a china é uma caiza de marimbondo , lá é de dar medo , na reportagem mostrava crianças amaradas em cadeiras , onde defecavam e comia algo provavelmente sem nutriçao ,fora a agua que se caise da cadeira já era . muitas enlouquecia e batia a cabeça no bamquinho até desmair . Sei que são comentarios sem muita noçao da dor que lá se faz mas creio que a destruiçao desse mundo é inivevitavel e é preciso . Somos na verdade uma raça que tem algum parafuso faltando .creio que isso é o tudo . desculpem por ser mais um no coro da indignação .

por Gilberto (desloguilson)

22/06/07 às 22:48 - Link

de fato, são comentários muito sem noção. e nem só da dor.

por guilherme

23/06/07 às 10:31 - Link

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