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Hekel Tavares por Ana salvagni

Ana Salvagni

Eu falava, na semana passada, de como o menino Hekel Tavares cresceu acompanhando as vaquejadas, reisados, desafios e toadas. Quando virou compositor, Hekel já dominava a música popular e, nela, deixava transparecer sua vivência folclórica.

O cancioneiro de Hekel Tavares é tão arraigado às origens que pode facilmente ser confundido com domínio público. Temas como Engenho novo, Bia tá tá (com Jorge D’Altavilla), Casa de caboclo (com Luiz Peixoto) e Leilão (com Joracy Camargo) são clássicos que remetem a tempos coloniais – não por acaso, estão no excelente Alma cabocla, CD independente que a cantora Ana Salvagni lançou em 2008 (www.tratore.com.br).

Quando o filho de Hekel Tavares acusou Fagner de plágio por As penas do Tiê – na verdade, Você (com Nair Mesquita) –, o cantor cearense estava convicto de que fizera uma adaptação sobre um tema de domínio público. Enganou-se.

Isso porque a alma cabocla de Hekel Tavares captou o mais difícil do folclore: a simplicidade. Hekel não fazia canções como alguém que tentava compreender a essência popular – ele fazia parte dela.
Quando chegou no Rio de Janeiro e conheceu os modernistas, a visão de nacionalismo que predominaria na Semana de 22 era compatível com a música de Hekel.

Sem abandonar os ritmos populares, dedicou-se à música de concerto. Conheço o Concerto para piano e orquestra em formas brasileiras Op 105 nº2. Nele, a busca pelo ideal nacionalista mistura-se com um romantismo tardio, cheio de arroubos emocionais. Hekel se expressava melhor no cancioneiro. Sua produção “séria” esbarrou na crítica, como destaca Vasco Mariz na História da música no Brasil (ediouro, 550 páginas).

As canções de Hekel, porém, fizeram sucesso e foram gravadas com freqüência até os anos 50. Depois foram desaparecendo dos discos, até que o autor fosse injustamente esquecido.

Daí a importância de Ana Salvagni recuperar esse repertório com um time de instrumentistas que entende do riscado. Lavandeirinha (com Olegário Mariano), por exemplo, é daquelas que tocam a alma pela simplicidade caipira – mas não se engane, Hekel disfarça sua habilidade em “fisgar” o ouvido pela melodia, aproveitando a entonação da fala para reforçar o lamento.

Ana Salvagni canta com espontaneidade na dose certa. Estica a respiração sob medida nos cocos para manter a cadência, é íntima da obra. E não complica o canto com firulas, armadilha tão comum na MPB, nem força a sofisticação. Deixa as canções falarem por si, envolta por um instrumental muito bem resolvido. Ouvindo a bela voz de Ana a gente percebe: a simplicidade de Hekel é riquíssima.

Cemitério da Consolação


Wikimedia Commons

O céu de chumbo prometia estragar qualquer passeio ao ar livre, mas assim que a chuva fina começou a cair, salpicando o muro alto do Cemitério da Consolação, o cenário parecia completo. O cinza era a moldura apropriada para um horizonte de anjos, pietás, santos, Cristos e bustos em lamentação.

Paralelas ao muro, as árvores antigas sobem eretas até se contorcerem nas copas, companheiras do tempo.

E é do tempo que nos fala o Cemitério da Consolação.
A entrada principal tem um pórtico de colunas clássicas, cheiro de urina e afrescos apodrecidos, mas a conservação é melhor no interior. Os túmulos estão bem preservados – com raras exceções – e as ruas são limpas. Entro. São Paulo, misteriosamente, silencia. Vai-se o ruído do trânsito pesado, vem o canto de pássaros que tento em vão identificar.

Logo em frente à capela, um alto relevo em tamanho natural, de inspiração grega, traz uma mulher chorando. O vestido é longo e suas dobras provocam a sensação de movimento. Fundado em 1858, o Cemitério da Consolação é rico em arte tumular. E em histórias.

Fico imaginando como Osíris Soares de Arruda, por exemplo, morreu. Seu epitáfio é trágico: “Filho devotado, irmão desvelado. Eternas saudades de sua mãe e irmã inconsoláveis. Orae por elle”. Osíris morreu em 1925, aos 25 anos.

Ali perto está o túmulo de Domitila de Castro Canto e Mello, a Marquesa de Santos, amante de Dom Pedro I. O jazigo simples revela: “doadora das terras deste cemitério”.

Na Consolação estão enterrados Washington Luís, Tarsila do Amaral e Monteiro Lobato, além de condes, barões, marqueses, políticos e generais. Se a morte iguala todos, a suntuosidade busca a eternidade. Os túmulos deslumbrantes dão o recado: morrer é para todos, ser lembrado é para poucos. Da inspiração barroca ao modernismo de Brecheret, a arte torna o túmulo referência e perpetua o nome do sepultado.

Um jazigo, cercado de musas em lamentação, se destaca. Outra família resolveu erguer uma minicatedral gótica, com direito a rococós, santos e... um para-raio.

Não há um padrão como no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, onde a verticalização impera, formando ruas estreitas e sombrias, com jazigos que deixam os caixões à vista, habitadas por gatos gordos e vadios. O Cemitério da Consolação é menos fúnebre, mais ajardinado, com um horizonte repleto de estátuas, fruto da resignação do homem diante da única certeza que o futuro nos confia.

Time out: 50 anos, novinho em folha


discoteca básica

A Columbia Records, nos anos 50, era a grande casa do jazz. Nela estavam Count Basie, Miles Davis, Benny Goodman, Charles Mingus, Louis Armstrong, Cab Calloway, Billie Holiday e Dave Brubeck. A gravadora mantinha uma política de popularização do jazz e, embora seus talentos fossem personalistas, tratava o gênero como produto de massa.

Brubeck já estava com dezenas de discos gravados e sua popularidade era ascendente. Em 1954, foi capa da Time. Não se esperava, portanto, que o pianista californiano fosse gravar um disco tão ousado em 1959: Time Out. Mais surpreendente foi o sucesso que o álbum atingiu.

Quando Miles Davis terminou de gravar Kind of blue, em 22 de abril de 1959, Dave Brubeck estava no estúdio ao lado de Paul Desmond (sax alto), Eugene Wright (baixo) e Joe Morello (bateria). De formação erudita – foi aluno de Darius Milhaud, um fã de jazz –, Brubeck impôs uma polirritmia inédita ao gênero.

A harmonia aberta dava espaço para melodias realmente sofisticadas, um tanto europeias. Brubeck tocava acordes firmes, Às vezes rígidos, enquanto o sax de Paul Desmond aparecia levíssimo e maleável, com um sopro limpo. Um casamento perfeito.

Estamos tão acostumados a associar Take five a Brubeck que esquecemos de dar o devido crédito a Paul Desmond, o verdadeiro autor da faixa. Desmond era brilhante, um caso raro de saxofonista que não se deixou influenciar tanto por Charlie Parker. Sua escola vinha do estilo cool e sensual de Lester Young.

O que impressiona em Time Out é a capacidade que o quarteto demonstra em suingar sobre ritmos estranhos ao jazz, como o 5/4 de Take Five, ou o 9/8 de Blue rondo a la turk. A naturalidade com que esses ritmos são tocados mostra o quanto o grupo era atento à música contemporânea sem, por isso, soar difícil.

Quando Time Out chegou às lojas, a crítica torceu o nariz. Achava o trabalho acadêmico, cerebral, sem suingue, pretensioso e duro. Mas as experimentações do Dave Brubeck Quartet caíram no gosto do público. Hoje, 50 anos depois, Time Out mantém a trajetória de um dos álbuns mais bem sucedidos da história do jazz.

E não é só por causa de Take Five ou Blue rondo... Three to get ready é de uma beleza quase singela e soa bastante camerística. Everybody’s jumpin’ é exemplo da destreza de Desmond em contraponto ao piano obstinado de Brubeck. Na cozinha, Joe Morello e Eugene Wright fazem os ritmos exóticos parecerem brincadeira de criança.

Time Out alcançou 50 anos com o frescor inabalável dos clássicos. É um caso raro na história da arte em que experimentação e complexidade não se chocaram com popularidade.

Michael Jackson e o destempero da mídia

Não consegui acompanhar a cobertura sobre a morte de Michael Jackson sem perceber uma indisfarçável hipocrisia. Toda a mídia lamentou a passagem do Rei do Pop.

Se recuarmos, porém, para meados dos anos 90, o retrato era outro, mais parecido com o de um zumbi saído de Thriller. A mídia condenou o cantor, à revelia da Justiça, por abuso sexual. Sim, os indícios eram fortes, mas não houve provas. Os fãs se calavam sob o jugo da dúvida. Os adjetivos, então, eram menos nobres. O escândalo encobriu o talento do cantor.

Michael Jackson começou a morrer naquela época para, finalmente, sucumbir no dia 25 de junho. Foi apedrejado em praça pública – a volta por cima, esboçada várias vezes, não se concretizou. Acusações, esquisitices, plásticas... Nada justifica o julgamento feito pela mídia.

Por isso a lamentação exacerbada, para mim, não passou de lágrimas de crocodilo. Quem faturou com os escândalos de Michael Jackson, também o fez na sua morte – apenas virou a casaca. O carrasco chorou sua vítima.

Aos cinco anos Michael Jackson já era melhor do que milhares de cantores celebrizados. Ele já estava pronto em Diana Ross apresenta The Jackson 5 (1969). E melhorou depois, até alcançar uma conturbada idade adulta com Off the wall (1979), seu melhor disco ao lado de Thriller (1982) – ambos, não por coincidência, produzidos por Quincy Jones.

Michael Jackson sofreu a vida atribulada dos talentos precoces que sucumbem ao pai opressor. Foi adulto na infância; infantilizou-se na maturidade. Antes da adolescência já sofria as pressões do sucesso desmedido – era obrigado a emplacar um hit atrás do outro. Jackson resignou-se ao jogo e alcançou o topo, de onde só é possível descer. Na descida, porém, esbarrou nas acusações de abuso sexual e despencou ladeira abaixo, em sentido contrário à opinião pública (que abraçou o destempero do noticiário).

Quando foi absolvido pela Justiça, o estrago já estava feito. Lembro de casos emblemáticos como o da Escola Base, quando a imprensa condenou os donos pelo mesmo motivo – e a Justiça os absolveu. Michael Jackson deveria estar na lista dos erros graves de imprensa, como bem apontou Gay Talese em entrevista à Folha de S.Paulo. Não adianta chorar sua morte em busca de redenção. Cabe à imprensa assumir o erro ou provar o contrário. Enquanto isso não ocorrer, a sujeira continuará embaixo do tapete.
Cadê os fiscais do Sarney para fiscalizarem o Sarney? (hein? hein? - dedos em velocidade máxima)

100 anos do Rei do Swing


Benny Goodman

Foi preciso um clarinetista branco de origem judaica para mostrar ao mundo que o jazz era mais do que mera música de entretenimento. Benny Goodman, o Rei do Swing, levou o jazz ao Carnegie Hall e até hoje influencia instrumentistas de todo o mundo com seu clarinete limpo e melódico. Considerado um dos gênios do jazz, Benny Goodman nasceu há 100 anos, em 30 de maio de 1909.

Para entender como Goodman se tornou um dos nomes mais populares da música, é preciso retornar à década de 20, quando vários mestres deixavam New Orleans para tocar em Chicago. Esse movimento migratório permitiu que Benny Goodman tivesse contato com a música de Jelly Roll Morton, King Oliver e Louis Armstrong.

Filho de imigrantes judeus, Goodman começou a tocar clarinete na sinagoga, mas logo passou para grupos populares. Era um talento precoce. Com 12 anos, já era profissional. Aos 14, trocou a escola pela música.

Uma transformação já se anunciava no trompete de Armstrong, capaz de deslocar a batida forte dos compassos em um ritmo todo próprio, imprimindo um sopro vigoroso a uma melodia maleável. Goodman aprendeu tudo isso. E levou para a orquestra.
Nos anos 30, a rádio NBC apresentava o programa Let’s Dance com três orquestras: uma leve, outra latina e a terceira “hot” – a “quente” era justamente a de Benny Goodman. Assim, o jovem clarinetista era ouvido de costa a costa nos Estados Unidos.

Além de um ótimo instrumentista, Goodman era um bandleader de visão empresarial – dizem que era pão-duro na hora de pagar –, capaz de aglutinar talentos. Tanto que atraiu o baterista Gene Krupa e convenceu um rival a escrever arranjos exclusivos: Fletcher Henderson. Se o negócio era fazer dançar, a orquestra de Goodman o fazia com arranjos fervorosos e inesperados, abrindo caminho para os grandes solistas. Com arranjos complicados, os músicos eram obrigados a ler partituras e obedecer dinâmicas que pertenciam à música erudita. Surgia a Era do Swing e, com ela, o jazz deu um salto técnico. E tornou-se extremamente popular.

Tão popular que alimentava preconceitos. Frequentemente era considerado música descartável de pretexto dançante. É claro que as orquestras baixaram a guarda para manter o sucesso, mas muita coisa boa também foi produzida. Tanto que bandleaders como Duke Ellington e Artie Shaw entraram no terreno erudito – o próprio Goodman andou solando em filarmônicas.

O clarinetista fez tanto sucesso que foi apelidado – por Gene Krupa – como Rei do Swing. Mas a Segunda Guerra explodiu, muitos músicos se alistaram, veio o racionamento e as big bands foram se desmembrando em grupos menores. Avessos à popularidade do swing e buscando um espaço maior – e mais abstrato – para a expressão do solista, um grupo de músicos começou a inovar. Surgia o bebop. Quando a guerra acabou, swing e bebop eram rivais. Ninguém imaginava que, nessa briga, ganharia espaço um estilo básico e rebelde, tocado em apenas três acordes: o rock’n’roll.

Benny Goodman seguiu tocando até sua morte, em 1986, de ataque cardíaco. Nos anos 60 e 70, reuniu seu quarteto magistral, com Teddy Wilson (piano), Gene Krupa (bateria) e Lionel Hampton. Sua música marcou época sem deixar de ser imortal.


Carnegie Hall, a aclamação
Benny Goodman conseguiu algo impensável em 1938: levar sua orquestra composta por negros e brancos – junto a convidados – para um megaconcerto no Carnegie Hall, o templo da música erudita. O concerto foi histórico e ajudou a romper com alguns preconceitos que ainda estigmatizavam o jazz, conferindo uma credibilidade – além de novo público – inédita ao gênero. Goodman provou que, mesmo dançante, sua música ia muito além do modismo. Basta ouvi-lo hoje para comprovar que, aos 100 anos, Benny Goodman está bem conservado.

Ranulfo Pedreiro
*Publicado originalmente no Jornal de Londrina

Zé Rodrix, com serpentina


Liguei para Zé Rodrix por conta da morte de Tico Terpins, em 1998, a pretexto de fazer uma entrevista. Zé estava triste, perdera um amigo e sócio, não disfarçava a melancolia. Agora, 11 anos depois, é o próprio Rodrix que se foi, aos 61 anos, sem o devido reconhecimento.

Multi-instrumentista, cantor, compositor, regente, arranjador, escritor, jornalista, publicitário, ator, produtor, trekker, maçom, carioca/paulistano, advogado com especialização em Literatura, História e Filosofia. Zé Rodrix era daqueles caras que fazem tudo ao mesmo tempo.

Criticava quem confundia fama com sucesso profissional. Satirizava o jogo de vaidades do meio artístico, tirava sarro do mundinho de celebridades dando entrevista em roupão de banho. O alvo de Zé Rodrix era a hipocrisia.

Fez rock brasileiro com influências da música caipira, o tal “rock rural”, mais mineiro que carioca. Antes, porém, cantou com Edu Lobo a famosa Ponteio e venceu o festival de Juiz de fora com Casa no campo (com Tavito). No trio Sá, Rodrix e Guarabyra deixou dois discos memoráveis: Passado, presente e futuro (1972) e Terra (1973). Da carreira solo, gosto de Soy latino-americano (1976), com levada caribenha.

Zé Rodrix tinha um humor anárquico capaz de lançar Chacrinha para a presidência com a marcha Seu Abelardo (1981). Com Paulo Coelho, satirizou o feminismo em Abaixo a cueca (1979). Em 1983 entrou para o Joelho de Porco e foi responsável pelo antológico álbum duplo Saqueando a cidade, de ironia cáustica.

Como escritor, dedicou-se a livros sobre Maçonaria e romances históricos. Por Diário de um construtor do templo (1999), ganhou o Prêmio Lima Barreto. Fez trilha para teatro, filmes, novelas e musicais. “O meu negócio é viver”, dizia.

Zé Rodrix achava que o poder público não devia patrocinar a cultura. Quando soube que o espetáculo Rei Lagarto, do qual participaria em 2007, tinha recursos da Lei Rouanet, abandonou o projeto: “Não acredito que o dinheiro de todos deva servir para patrocinar a aventura pessoal de alguns”, disse a O Globo. Polêmica à parte, manteve seus princípios.

Luís Nassif, em seu blog (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/22/homenagem-ao-ze-rodrix/), publicou um necrológio escrito pelo próprio Rodrix: “Sendo um velório moderno, recomendo músicas de Carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogados sobre o caixão, fechado, naturalmente”.

Zé Rodrix era pau para toda obra. Sabia que a riqueza da vida está nos achados do cotidiano e, com eles, fez sua fortuna – indexada pela coerência.

Um instrumento chamado voz

Monica Salmaso/div

Ranulfo Pedreiro

Há pessoas que cultivam a arte como cuidam de uma árvore. Ficam ali, no trabalho diário, acompanhando o surgimento de cada folha, sem atropelar o tempo. A cantora Mônica Salmaso é assim. Sua carreira, já frondosa, foi cultivada com tanto cuidado que a árvore cresceu para cima, rumo aos céus, na mesma proporção que cresceu para baixo, firmando as raízes. Raízes que se estabeleceram em fundamentos sólidos da música brasileira. Mônica Salmaso é uma das cantoras mais importantes do país – e sua carreira continua em ascensão.

Ela se apresenta pela primeira vez em Londrina na sexta-feira, às 20h30, no Teatro Ouro Verde. E vem acompanhada por dois instrumentistas de talento proporcional ao da cantora: Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros).

Dono de um timbre único, verdadeira impressão digital, Mônica Salmaso não costuma se colocar acima da canção. Nem acima do instrumental, sempre apuradíssimo. Isso se dá porque a cantora interage com os instrumentos que a cercam, ouvindo-os atentamente. Em resumo, a voz de Mônica Salmaso age como um instrumento. Um instrumento dotado de palavras.

Sua estreia em CD ocorreu no disco Canções de ninar, projeto que deu origem ao Palavra Cantada, de Paulo Tatit e Sandra Peres. Depois, regravou os afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes ao lado do violonista Paulo Bellinati. O primeiro disco solo foi Trampolim (1998), seguido de Voadeira (1999) – premiado com o Visa de MPB. A partir de Voadeira, os prêmios e elogios se acumularam, levando-a a turnês pelo exterior. O quarto disco só veio em 2004: Iaiá. Noites de gala, samba na rua (2007) foi dedicado a canções de Chico Buarque.

A apresentação em Londrina marca a passagem para novos projetos, um novo galho a reforçar uma voz imune a tempestades.

Serviço - MÔNICA SALMASO – Com Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros). Sexta-feira (dia 15/05/2009), às 20h30, no Teatro Ouro Verde. Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Antecipados: R$ 15 e 1kg de alimento não perecível. Vendas: Teatro Ouro Verde (9h-17h), Pátio San Miguel (14h-19h) e Brasiliano (18h-24h). Patrocínio: Vectra. Informações: 3341-4000.


O Brasil tem hoje muitas cantoras de qualidade, mas poucas com uma identidade tão marcante. Sua voz é inconfundível. É mais técnica ou emoção?
MS - Acredito que um pouco das duas coisas, mas a minha preocupação é a de mostrar para as pessoas as músicas que eu escolho (e que para mim são especiais), não a de ME mostrar através das músicas.

Você vive cercada de ótimos músicos, é reconhecida pela crítica e faz uma carreira independente. O reconhecimento do público vem na mesma medida?
MS - Eu faço a minha carreira de forma mais autoral do que independente. Sempre estive em gravadoras pequenas ou médias e faço um caminho gradual. Acho que a formação de público sempre foi (e continua sendo) feita nesta velocidade, mas com uma identidade mais profunda do que acontece com carreiras meteóricas e de grandes exposições.

O mercado fonográfico está cada vez mais apressado. Já os seus discos parecem feitos em um tempo diferente, como se você não se deixasse levar pelas paranóias de estúdio. Como é seu processo de gravação?
MS - Depende do disco, cada um teve uma história. Em geral, eu sinto necessidade de gravar um disco novo quando percebo que o trabalho anterior já contou sua história. Como eu nunca tinha feito turnês pelo Brasil como a que fiz o ano passado, eu levava por volta de 3 anos para conseguir viajar com os trabalhos e, com isso, demorava para fazer novos lançamentos. Este ano eu me sinto pronta para começar a pensar em um próximo trabalho porque sinto que o Noites de gala, samba na rua conseguiu contar a sua história. Vamos lançar ainda este ano um CD ao vivo do show gravado no finalzinho da turnê. Com isso, sinto que a história deste trabalho se fecha de uma forma completa.

Como é conviver com um mercado fonográfico que, salvo exceções, enxerga a música como um produto efêmero?
MS - Da forma como eu vivo a música ela não é um produto efêmero. Meus trabalhos continuam vendendo, quando as pessoas conseguem encontrar os discos - essa ainda é a nossa maior dificuldade.

Você tem uma carreira bastante consolidada. A mídia já parou de lhe tratar como “revelação”?
MS - Em geral, o que acontece é que como eu não sou uma celebridade que vende notícias, os jornalistas e os meios que falam do meu trabalho conhecem e compreendem (ou até se identificam) com uma carreira como a minha. Então, isso já diminuiu bastante, mais ainda acontece.

Seu canto dialoga bastante com os instrumentos do conjunto – sua voz parece um instrumento dotado de palavras. Como é esse entrosamento?
MS - Depois da escolha de repertório, o entrosamento destes encontros é o que me dá mais prazer em cantar. Eu tive muita sorte de conhecer músicos maravilhosos desde o início da minha carreira e de desenvolvê-la influenciada por eles. Então, eu realmente escuto o que é tocado e isso interfere no meu canto. Essa é a graça! Assim é divertido.

Você gravou os Afro-Sambas com Paulo Bellinati. Em Trampolim, aparecem músicas de domínio público, de Waldemar Henrique, Dorival Caymmi. Em Voadeira reaparece Caymmi e há uma versão emocionante de Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins. Mesmo quando você grava compositores contemporâneos, parece não se esquecer dos fundamentais...Conhecer o passado ajuda a manter o rumo?
MS - Acredito muito que sim e acho sintomático que tantos novos talentos estejam procurando fontes e influências no samba tradicional e no choro. Não só é importante procurar no passado, como no caso da música Brasileira, isto é uma fonte inesgotável de material maravilhoso. Mas uma vez feita a escolha do repertório, eu não faço distinção entre uma canção inédita e uma canção dos anos 30. Eu escuto tudo e me deixo apaixonar pelas canções que me tocam. Aí, tenho vontade de mostrá-las para todo mundo.

É seu primeiro show em Londrina. Como será?
MS - Estou muito feliz em, finalmente, conseguir cantar em Londrina. Vamos fazer uma estreia aí, eu, o Nelson Ayres e o Teco Cardoso. Nós tinhamos pensado, inicialmente, que feríamos uma releitura do Noites de gala, samba na rua, que trabalhamos tanto. Mas ao começarem os ensaios, fomos trazendo idéias de repertório apaixonantes e, do CD gravado ficaram somente Beatriz, Construção e Ciranda da Bailarina. Aí entraram coisas lindas como Melodia Sentimental, do Villa-Lobos, Derradeira Primavera (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Samba Erudito (Paulo Vanzolini).
Então, estaremos nervosos com a estréia e muito animados. Espero que as pessoas possam nos ver!


Repertório do show:
-Samba erudito (Paulo Vanzolini)
-Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim / -Vinicius de Moraes)
-Camisa amarela (Ary Barroso)
-Ciranda da bailarina (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Construção (Chico Buarque)
-Beatriz (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo)
-Uma noite (Nelson Ayres)
-Minha palhoça (J. Cascata)
-Coração vagabundo (Caetano Veloso)
-Melodia sentimental (Heitor Villa-Lobos / Dora Vasconcelos)
-A história de Lily Braun (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Véspera de Natal (Adoniran Barbosa)

Talentos de uma música sem fim

André Mehmari

André Mehmari e Gabriele Mirabassi lançam o CD Miramari amanhã em Londrina com show no Ouro Verde

Ranulfo Pedreiro

Foi o compositor e violonista Guinga quem percebeu que a união do pianista André Mehmari e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi daria samba. Guinga e Mirabassi gravaram o disco Graffiando Vento, lançado na Europa. Durante um show no Brasil, Guinga apresentou Mirabassi a Mehmari.
A empatia foi imediata e passa pela ausência de fronteiras entre erudito e popular. Não há, no duo, uma separação clara: a sonoridade limpa lembra a música de câmara, mas o colorido e a espontaneidade são populares. Não demorou para André Mehmari e Gabriele Mirabassi perceberem que deveriam gravar um disco.
Miramari, o CD, saiu pelo Estúdio Monteverdi e tem distribuição da Tratore. André Mehmari e Gabriele Mirabassi fazem o show de lançamento amanhã no Teatro Ouro Verde, antes mesmo de tocarem em São Paulo no fim de semana. Quem comparecer, vai assistir a dois virtuoses que se fundem com linguagem própria e dinâmica.
Compositor, arranjador, pesquisador e instrumentista, André Mehmari é um grande talento. A juventude, no entanto, esconde uma carreira já longa. André foi uma criança prodígio que se destacou pela incrível facilidade de improviso. Mas não caiu na fogueira das vaidades do mercado de entretenimento, capaz de exibir talentos precoces como curiosas aberrações.
Em vez de abraçar a fama, André mergulhou nos estudos. Foi a fundo na música barroca e destrinchou a música russa da virada do século 20. Passou por períodos de introspecção em que buscou o domínio do vocabulário musical para construir a própria linguagem.
Pois o rapaz conseguiu. André Mehmari compõe fartamente, seja para grupos de câmara, orquestras ou conjuntos de MPB. O pianista de fraseado ágil, capaz de rechear improvisos com citações diversas, obedece aos meandros da composição. “Quem manda no pianista é o compositor e arranjador”, diz o músico, em entrevista por telefone, reafirmando que a composição fala mais alto em sua carreira.
Gabriele Mirabassi, por sua vez, é um virtuose com evidente paixão pela música brasileira. Antes, porém, estudou com John Cage e enveredou pelo jazz. Como Mehmari, Mirabassi é capaz de encampar diferentes projetos ao mesmo tempo, e cumpri-los com reconhecida qualidade. Quem for ao Ouro Verde amanhã não vai ouvir música erudita ou popular. Vai ouvir boa música.

ANDRÉ MEHMARI E GABRIELE MIRABASSI – Show de lançamento do CD Miramari. Dia 13, às 20h30, no Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85). Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Informações: 3322-6381.


Você e o Gabriele Mirabassi se conheceram por intermédio do Guinga, não é?
ANDRÉ MEHMARI - A primeira vez que ouvi o Gabriele foi na casa do Guinga. Eles gravam o disco Graffiando Vento, lançado na Europa. Fiquei impressionado com a linguagem e o conhecimento que o Gabriele tem de música brasileira. Durante um show do Gabriele e do Guinga fomos apresentados, e aí nasceu a vontade de fazer alguma coisa juntos. Isso foi por volta de 2004. Nosso primeiro show juntos foi em 2007, em São Paulo.

Ouvi o disco e parece que vocês tocam juntos há muito tempo.
Foi muito rápida a construção de uma linguagem do nosso duo. Ganhou uma cara muito pessoal. Foi dessa forma que percebemos que deveríamos fazer um CD. A gente já tinha a ideia de fazer o disco, mas recebi uma encomenda para fazer um concerto para a Banda Sinfônica de São Paulo. Era para eu e o Gabriele solarmos com a Banda Sinfônica. Quando ele veio para cá, aproveitamos as horas vagas e gravamos.

O show em Londrina é o primeiro show de lançamento do CD?
É o primeiro show de lançamento, depois vamos para São Paulo e Belo Horizonte.

Por que vocês se entrosaram tão bem musicalmente?
Tanto eu quanto o Gabriele não nos encaixamos no mundo da música erudita ou popular. Transitamos pelos dois mundos, pois para nós só existe um mundo, que é a música. E ele conhece profundamente música brasileira, conhece mais do que muitos músicos brasileiros. Soa como uma parceria mais antiga e, no entanto, o CD foi gravado em meio a uma semana de ensaios para outro concerto.

Nelson Freire costuma dizer que o piano brasileiro é chopiniano. Existe um jeito brasileiro de tocar piano?
O piano brasileiro tem, sem dúvida, um pé no romantismo chopiniano, ao mesmo tempo em que carrega o ritmo de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, é um elemento que teve uma evolução. Egberto Gismonti tem esses dois mundos, o amaxixado e o chopiniano. O piano brasileiro existe como linguagem e é extremamente colorido. No meu piano, percebemos ainda a música barroca e a música russa, que eu estudei intensamente. O gestual dos compositores que estudei passou para a minha linguagem.

Você apareceu muito cedo no meio musical. Como você lidou com essa exposição?
Eu fui bastante precoce, comecei profissionalmente com 10 anos, tocando em bailes. Sempre tive muita facilidade, eu era meio um “garoto prodígio”, mas felizmente não fui explorado como tal, porque isso muitas vezes leva muitos músicos ao fim da sua carreira, a se afogar nessa ansiedade do show business. Não tive esse problema. Pude desenvolver minha linguagem com serenidade, pude ser estudioso e amadurecer a linguagem. Sobretudo longe do show business. O estudo da música não tem fim, quanto mais se estuda, menos se sabe.

Mozart, por exemplo, foi criança prodígio e sofreu muito com isso.
Durante a infância eu fui bastante normal. Durante a adolescência eu fui por um caminho de introspecção e estudo. Eu tinha uma vida bastante diferente dos meus colegas. Eu tinha uma prática diária de composição. A música foi uma estrela guia e me ajudou a enxergar melhor o mundo.

Você compõe e arranja muito. Como é esse processo?
Componho desde a pré-adolescência, essa vontade de criar música surgiu muito cedo, vem muito do fato de ser um improvisador. A improvisação é a preliminar da composição. Até me enxergo principalmente como compositor que toca. Quem manda no Mehmari pianista é o compositor e o arranjador.

É a primeira vez em Londrina?
É a segunda, já estive em 2002 com o meu trio no mesmo teatro, foi muito legal. Lembramos com bastante carinho dessa apresentação, ficamos muito contentes.

Publicado originalmente no Jornal de Londrina (12/05/2008)

No tempo de Noel Rosa

autocaricatura de Noel Rosa

No dia 6 de abril de 1951 o cantor, compositor e radialista Almirante estreou na Rádio Tupi do Rio de Janeiro uma série que marcaria o rádio brasileiro: No tempo de Noel Rosa. O poeta da Vila Isabel, morto em 1937 aos 26 anos, estava em evidência pela voz de Aracy de Almeida.

Almirante, que iniciou na carreira musical ao lado de Noel, aproveitou o momento para passar a limpo vários fatos envolvendo a vida do compositor. Para isso criou a série No tempo de Noel, que seria também autobiográfica. Almirante relembrava o passado e aproveitava para exorcizar velhos fantasmas.

O programa de estreia retratava o ambiente musical que cercava Noel Rosa antes do Bando de Tangarás. Almirante falava sobre a Vila Isabel da década de 20, onde conviveu com Noel. “Eu fui amigo de Noel Rosa, Noel Rosa começou sua vida musical comigo. Um samba meu deu origem à grande batalha musical que Noel empreendeu em favor de seu bairro, a Vila Isabel”, destacava, com inquestionável autoridade.
Conheço esses fatos com precisão porque ganhei toda a série No tempo de Noel Rosa, presente generoso de José Luís da Silveira Baldy, pesquisador incansável da música brasileira. A coleção integra o acervo da Collector’s Studios (www.collectors.com.br), está restaurada e é uma preciosidade.

Os programas impressionam pela atualidade e pela produção. Almirante não poupa momentos emocionantes: “O atestado de óbito de Noel Rosa está comigo”.
E conta histórias saborosas. Em 1923, Almirante ganhou um filme sobre bicho-da-seda, mas não tinha como exibi-lo. Eis que um rapazote quase sem queixo apareceu vendendo um projetor. Era Noel Rosa, que pediu uma pequena fortuna pelo aparelho. O negócio não se concretizou, mas o encontro marca o início da amizade entre Almirante e Noel.

Triste mesmo foi a morte do pai de Almirante, em 1º de março de 1924: “Tive meu primeiro choque emotivo, desses que nos vêm dos contrastes imprevistos. É que papai morreu no sábado de Carnaval”.

Na madrugada, a música de um violão invadiu o velório: “Ó cúmulo da irreverência, eram uns vizinhos nossos, numa casa a poucos metros da nossa. Lá estava quem, ouvintes? Catulo da Paixão Cearense, cantando e tocando”.

A indignação de Almirante é clara: “Tinham conhecimento de que o corpo estava sobre a mesa enteiriçado, tendo em redor a família vergada ao peso da desgraça, soluçando. Mas era como se nada soubessem. Vararam pela noite afora entoando um samba dolente, cuja melodia triste chegava aos nossos ouvidos... como uma afronta sonora à nossa dor”. Só esta passagem, aos dez minutos do primeiro programa, já valeu a série toda.

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