
Ranulfo Pedreiro
Há pessoas que cultivam a arte como cuidam de uma árvore. Ficam ali, no trabalho diário, acompanhando o surgimento de cada folha, sem atropelar o tempo. A cantora Mônica Salmaso é assim. Sua carreira, já frondosa, foi cultivada com tanto cuidado que a árvore cresceu para cima, rumo aos céus, na mesma proporção que cresceu para baixo, firmando as raízes. Raízes que se estabeleceram em fundamentos sólidos da música brasileira. Mônica Salmaso é uma das cantoras mais importantes do país – e sua carreira continua em ascensão.
Ela se apresenta pela primeira vez em Londrina na sexta-feira, às 20h30, no Teatro Ouro Verde. E vem acompanhada por dois instrumentistas de talento proporcional ao da cantora: Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros).
Dono de um timbre único, verdadeira impressão digital, Mônica Salmaso não costuma se colocar acima da canção. Nem acima do instrumental, sempre apuradíssimo. Isso se dá porque a cantora interage com os instrumentos que a cercam, ouvindo-os atentamente. Em resumo, a voz de Mônica Salmaso age como um instrumento. Um instrumento dotado de palavras.
Sua estreia em CD ocorreu no disco Canções de ninar, projeto que deu origem ao Palavra Cantada, de Paulo Tatit e Sandra Peres. Depois, regravou os afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes ao lado do violonista Paulo Bellinati. O primeiro disco solo foi Trampolim (1998), seguido de Voadeira (1999) – premiado com o Visa de MPB. A partir de Voadeira, os prêmios e elogios se acumularam, levando-a a turnês pelo exterior. O quarto disco só veio em 2004: Iaiá. Noites de gala, samba na rua (2007) foi dedicado a canções de Chico Buarque.
A apresentação em Londrina marca a passagem para novos projetos, um novo galho a reforçar uma voz imune a tempestades.
Serviço - MÔNICA SALMASO – Com Nelson Ayres (piano) e Teco Cardoso (sopros). Sexta-feira (dia 15/05/2009), às 20h30, no Teatro Ouro Verde. Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Antecipados: R$ 15 e 1kg de alimento não perecível. Vendas: Teatro Ouro Verde (9h-17h), Pátio San Miguel (14h-19h) e Brasiliano (18h-24h). Patrocínio: Vectra. Informações: 3341-4000.
O Brasil tem hoje muitas cantoras de qualidade, mas poucas com uma identidade tão marcante. Sua voz é inconfundível. É mais técnica ou emoção?
MS - Acredito que um pouco das duas coisas, mas a minha preocupação é a de mostrar para as pessoas as músicas que eu escolho (e que para mim são especiais), não a de ME mostrar através das músicas.
Você vive cercada de ótimos músicos, é reconhecida pela crítica e faz uma carreira independente. O reconhecimento do público vem na mesma medida?
MS - Eu faço a minha carreira de forma mais autoral do que independente. Sempre estive em gravadoras pequenas ou médias e faço um caminho gradual. Acho que a formação de público sempre foi (e continua sendo) feita nesta velocidade, mas com uma identidade mais profunda do que acontece com carreiras meteóricas e de grandes exposições.
O mercado fonográfico está cada vez mais apressado. Já os seus discos parecem feitos em um tempo diferente, como se você não se deixasse levar pelas paranóias de estúdio. Como é seu processo de gravação?
MS - Depende do disco, cada um teve uma história. Em geral, eu sinto necessidade de gravar um disco novo quando percebo que o trabalho anterior já contou sua história. Como eu nunca tinha feito turnês pelo Brasil como a que fiz o ano passado, eu levava por volta de 3 anos para conseguir viajar com os trabalhos e, com isso, demorava para fazer novos lançamentos. Este ano eu me sinto pronta para começar a pensar em um próximo trabalho porque sinto que o Noites de gala, samba na rua conseguiu contar a sua história. Vamos lançar ainda este ano um CD ao vivo do show gravado no finalzinho da turnê. Com isso, sinto que a história deste trabalho se fecha de uma forma completa.
Como é conviver com um mercado fonográfico que, salvo exceções, enxerga a música como um produto efêmero?
MS - Da forma como eu vivo a música ela não é um produto efêmero. Meus trabalhos continuam vendendo, quando as pessoas conseguem encontrar os discos - essa ainda é a nossa maior dificuldade.
Você tem uma carreira bastante consolidada. A mídia já parou de lhe tratar como “revelação”?
MS - Em geral, o que acontece é que como eu não sou uma celebridade que vende notícias, os jornalistas e os meios que falam do meu trabalho conhecem e compreendem (ou até se identificam) com uma carreira como a minha. Então, isso já diminuiu bastante, mais ainda acontece.
Seu canto dialoga bastante com os instrumentos do conjunto – sua voz parece um instrumento dotado de palavras. Como é esse entrosamento?
MS - Depois da escolha de repertório, o entrosamento destes encontros é o que me dá mais prazer em cantar. Eu tive muita sorte de conhecer músicos maravilhosos desde o início da minha carreira e de desenvolvê-la influenciada por eles. Então, eu realmente escuto o que é tocado e isso interfere no meu canto. Essa é a graça! Assim é divertido.
Você gravou os Afro-Sambas com Paulo Bellinati. Em Trampolim, aparecem músicas de domínio público, de Waldemar Henrique, Dorival Caymmi. Em Voadeira reaparece Caymmi e há uma versão emocionante de Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins. Mesmo quando você grava compositores contemporâneos, parece não se esquecer dos fundamentais...Conhecer o passado ajuda a manter o rumo?
MS - Acredito muito que sim e acho sintomático que tantos novos talentos estejam procurando fontes e influências no samba tradicional e no choro. Não só é importante procurar no passado, como no caso da música Brasileira, isto é uma fonte inesgotável de material maravilhoso. Mas uma vez feita a escolha do repertório, eu não faço distinção entre uma canção inédita e uma canção dos anos 30. Eu escuto tudo e me deixo apaixonar pelas canções que me tocam. Aí, tenho vontade de mostrá-las para todo mundo.
É seu primeiro show em Londrina. Como será?
MS - Estou muito feliz em, finalmente, conseguir cantar em Londrina. Vamos fazer uma estreia aí, eu, o Nelson Ayres e o Teco Cardoso. Nós tinhamos pensado, inicialmente, que feríamos uma releitura do Noites de gala, samba na rua, que trabalhamos tanto. Mas ao começarem os ensaios, fomos trazendo idéias de repertório apaixonantes e, do CD gravado ficaram somente Beatriz, Construção e Ciranda da Bailarina. Aí entraram coisas lindas como Melodia Sentimental, do Villa-Lobos, Derradeira Primavera (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Samba Erudito (Paulo Vanzolini).
Então, estaremos nervosos com a estréia e muito animados. Espero que as pessoas possam nos ver!
Repertório do show:
-Samba erudito (Paulo Vanzolini)
-Derradeira primavera (Antonio Carlos Jobim / -Vinicius de Moraes)
-Camisa amarela (Ary Barroso)
-Ciranda da bailarina (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Construção (Chico Buarque)
-Beatriz (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo)
-Uma noite (Nelson Ayres)
-Minha palhoça (J. Cascata)
-Coração vagabundo (Caetano Veloso)
-Melodia sentimental (Heitor Villa-Lobos / Dora Vasconcelos)
-A história de Lily Braun (Edu Lobo / Chico Buarque)
-Véspera de Natal (Adoniran Barbosa)