
No dia 6 de abril de 1951 o cantor, compositor e radialista Almirante estreou na Rádio Tupi do Rio de Janeiro uma série que marcaria o rádio brasileiro: No tempo de Noel Rosa. O poeta da Vila Isabel, morto em 1937 aos 26 anos, estava em evidência pela voz de Aracy de Almeida.
Almirante, que iniciou na carreira musical ao lado de Noel, aproveitou o momento para passar a limpo vários fatos envolvendo a vida do compositor. Para isso criou a série No tempo de Noel, que seria também autobiográfica. Almirante relembrava o passado e aproveitava para exorcizar velhos fantasmas.
O programa de estreia retratava o ambiente musical que cercava Noel Rosa antes do Bando de Tangarás. Almirante falava sobre a Vila Isabel da década de 20, onde conviveu com Noel. “Eu fui amigo de Noel Rosa, Noel Rosa começou sua vida musical comigo. Um samba meu deu origem à grande batalha musical que Noel empreendeu em favor de seu bairro, a Vila Isabel”, destacava, com inquestionável autoridade.
Conheço esses fatos com precisão porque ganhei toda a série No tempo de Noel Rosa, presente generoso de José Luís da Silveira Baldy, pesquisador incansável da música brasileira. A coleção integra o acervo da Collector’s Studios (www.collectors.com.br), está restaurada e é uma preciosidade.
Os programas impressionam pela atualidade e pela produção. Almirante não poupa momentos emocionantes: “O atestado de óbito de Noel Rosa está comigo”.
E conta histórias saborosas. Em 1923, Almirante ganhou um filme sobre bicho-da-seda, mas não tinha como exibi-lo. Eis que um rapazote quase sem queixo apareceu vendendo um projetor. Era Noel Rosa, que pediu uma pequena fortuna pelo aparelho. O negócio não se concretizou, mas o encontro marca o início da amizade entre Almirante e Noel.
Triste mesmo foi a morte do pai de Almirante, em 1º de março de 1924: “Tive meu primeiro choque emotivo, desses que nos vêm dos contrastes imprevistos. É que papai morreu no sábado de Carnaval”.
Na madrugada, a música de um violão invadiu o velório: “Ó cúmulo da irreverência, eram uns vizinhos nossos, numa casa a poucos metros da nossa. Lá estava quem, ouvintes? Catulo da Paixão Cearense, cantando e tocando”.
A indignação de Almirante é clara: “Tinham conhecimento de que o corpo estava sobre a mesa enteiriçado, tendo em redor a família vergada ao peso da desgraça, soluçando. Mas era como se nada soubessem. Vararam pela noite afora entoando um samba dolente, cuja melodia triste chegava aos nossos ouvidos... como uma afronta sonora à nossa dor”. Só esta passagem, aos dez minutos do primeiro programa, já valeu a série toda.