Liguei para Zé Rodrix por conta da morte de Tico Terpins, em 1998, a pretexto de fazer uma entrevista. Zé estava triste, perdera um amigo e sócio, não disfarçava a melancolia. Agora, 11 anos depois, é o próprio Rodrix que se foi, aos 61 anos, sem o devido reconhecimento.
Multi-instrumentista, cantor, compositor, regente, arranjador, escritor, jornalista, publicitário, ator, produtor, trekker, maçom, carioca/paulistano, advogado com especialização em Literatura, História e Filosofia. Zé Rodrix era daqueles caras que fazem tudo ao mesmo tempo.
Criticava quem confundia fama com sucesso profissional. Satirizava o jogo de vaidades do meio artístico, tirava sarro do mundinho de celebridades dando entrevista em roupão de banho. O alvo de Zé Rodrix era a hipocrisia.
Fez rock brasileiro com influências da música caipira, o tal “rock rural”, mais mineiro que carioca. Antes, porém, cantou com Edu Lobo a famosa Ponteio e venceu o festival de Juiz de fora com Casa no campo (com Tavito). No trio Sá, Rodrix e Guarabyra deixou dois discos memoráveis: Passado, presente e futuro (1972) e Terra (1973). Da carreira solo, gosto de Soy latino-americano (1976), com levada caribenha.
Zé Rodrix tinha um humor anárquico capaz de lançar Chacrinha para a presidência com a marcha Seu Abelardo (1981). Com Paulo Coelho, satirizou o feminismo em Abaixo a cueca (1979). Em 1983 entrou para o Joelho de Porco e foi responsável pelo antológico álbum duplo Saqueando a cidade, de ironia cáustica.
Como escritor, dedicou-se a livros sobre Maçonaria e romances históricos. Por Diário de um construtor do templo (1999), ganhou o Prêmio Lima Barreto. Fez trilha para teatro, filmes, novelas e musicais. “O meu negócio é viver”, dizia.
Zé Rodrix achava que o poder público não devia patrocinar a cultura. Quando soube que o espetáculo Rei Lagarto, do qual participaria em 2007, tinha recursos da Lei Rouanet, abandonou o projeto: “Não acredito que o dinheiro de todos deva servir para patrocinar a aventura pessoal de alguns”, disse a O Globo. Polêmica à parte, manteve seus princípios.
Luís Nassif, em seu blog (http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/05/22/homenagem-ao-ze-rodrix/), publicou um necrológio escrito pelo próprio Rodrix: “Sendo um velório moderno, recomendo músicas de Carnaval antigo, as indiscutíveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogados sobre o caixão, fechado, naturalmente”.
Zé Rodrix era pau para toda obra. Sabia que a riqueza da vida está nos achados do cotidiano e, com eles, fez sua fortuna – indexada pela coerência.