
Foi preciso um clarinetista branco de origem judaica para mostrar ao mundo que o jazz era mais do que mera música de entretenimento. Benny Goodman, o Rei do Swing, levou o jazz ao Carnegie Hall e até hoje influencia instrumentistas de todo o mundo com seu clarinete limpo e melódico. Considerado um dos gênios do jazz, Benny Goodman nasceu há 100 anos, em 30 de maio de 1909.
Para entender como Goodman se tornou um dos nomes mais populares da música, é preciso retornar à década de 20, quando vários mestres deixavam New Orleans para tocar em Chicago. Esse movimento migratório permitiu que Benny Goodman tivesse contato com a música de Jelly Roll Morton, King Oliver e Louis Armstrong.
Filho de imigrantes judeus, Goodman começou a tocar clarinete na sinagoga, mas logo passou para grupos populares. Era um talento precoce. Com 12 anos, já era profissional. Aos 14, trocou a escola pela música.
Uma transformação já se anunciava no trompete de Armstrong, capaz de deslocar a batida forte dos compassos em um ritmo todo próprio, imprimindo um sopro vigoroso a uma melodia maleável. Goodman aprendeu tudo isso. E levou para a orquestra.
Nos anos 30, a rádio NBC apresentava o programa Let’s Dance com três orquestras: uma leve, outra latina e a terceira “hot” – a “quente” era justamente a de Benny Goodman. Assim, o jovem clarinetista era ouvido de costa a costa nos Estados Unidos.
Além de um ótimo instrumentista, Goodman era um bandleader de visão empresarial – dizem que era pão-duro na hora de pagar –, capaz de aglutinar talentos. Tanto que atraiu o baterista Gene Krupa e convenceu um rival a escrever arranjos exclusivos: Fletcher Henderson. Se o negócio era fazer dançar, a orquestra de Goodman o fazia com arranjos fervorosos e inesperados, abrindo caminho para os grandes solistas. Com arranjos complicados, os músicos eram obrigados a ler partituras e obedecer dinâmicas que pertenciam à música erudita. Surgia a Era do Swing e, com ela, o jazz deu um salto técnico. E tornou-se extremamente popular.
Tão popular que alimentava preconceitos. Frequentemente era considerado música descartável de pretexto dançante. É claro que as orquestras baixaram a guarda para manter o sucesso, mas muita coisa boa também foi produzida. Tanto que bandleaders como Duke Ellington e Artie Shaw entraram no terreno erudito – o próprio Goodman andou solando em filarmônicas.
O clarinetista fez tanto sucesso que foi apelidado – por Gene Krupa – como Rei do Swing. Mas a Segunda Guerra explodiu, muitos músicos se alistaram, veio o racionamento e as big bands foram se desmembrando em grupos menores. Avessos à popularidade do swing e buscando um espaço maior – e mais abstrato – para a expressão do solista, um grupo de músicos começou a inovar. Surgia o bebop. Quando a guerra acabou, swing e bebop eram rivais. Ninguém imaginava que, nessa briga, ganharia espaço um estilo básico e rebelde, tocado em apenas três acordes: o rock’n’roll.
Benny Goodman seguiu tocando até sua morte, em 1986, de ataque cardíaco. Nos anos 60 e 70, reuniu seu quarteto magistral, com Teddy Wilson (piano), Gene Krupa (bateria) e Lionel Hampton. Sua música marcou época sem deixar de ser imortal.
Carnegie Hall, a aclamação
Benny Goodman conseguiu algo impensável em 1938: levar sua orquestra composta por negros e brancos – junto a convidados – para um megaconcerto no Carnegie Hall, o templo da música erudita. O concerto foi histórico e ajudou a romper com alguns preconceitos que ainda estigmatizavam o jazz, conferindo uma credibilidade – além de novo público – inédita ao gênero. Goodman provou que, mesmo dançante, sua música ia muito além do modismo. Basta ouvi-lo hoje para comprovar que, aos 100 anos, Benny Goodman está bem conservado.
Ranulfo Pedreiro
*Publicado originalmente no Jornal de Londrina