Há três anos, tão antes de pensar em escrever rotineiramente e aos olhos dos outros, Rodrigo Grota publicou, sem minha autorização, um
texto meu. Veio raiva, depois vaidade e, depois ainda, a estranheza de quem nunca tinha se visto assim, tão exposta, apesar da autoria omitida.
O texto virou roteiro. Mais tarde, desvirou - o filme tomou outros rumos. Cheguei a ver a atriz, no vídeo, repetindo minhas palavras. Esquisito se ver, literalmente, no outro. Mas bom. Enfim, uma experiência que guardo com carinho.
Senti a necessidade de trazer "o caminhão" aqui pra casa, pra perto de mim. Agora com nome, sem autora jacu se escondendo.
Meu agradecimento ao Grota, que, de forma tão torta, confiou em mim e foi, em muito, responsável por me encorajar a escrever.
O texto está logo abaixo, no
read more:
30/01/2004
Não foi uma semana fácil. Nada aconteceu, mas foi uma semana dolorida, inquietante. De todos os dias, o sábado foi o pior. Saí pra comprar tamancos, voltei com um livro, que ainda não li. Pensei em não sair à noite, inventar uma desculpa para os meus amigos, mas julguei que seria pior, pois este desconforto não vinha em palavras e eu não suportaria ficar sozinha com tantos ruídos incompreensíveis. Saí a pé, rumo ao bar combinado. Se eu fosse tão narcísica a ponto de pensar que um deus me observa, diria que ele foi irônico, pois o caminhão de lixo me acompanhou por dois quarteirões. Havia chovido e os lixeiros corriam como loucos para alcançar o impiedoso caminhão, sempre acelerado. Pensei que aquilo seria o inferno; correr pela madrugada, carregando pesados e fétidos sacos de lixo na chuva. Mas um lixeiro passou por mim com um sorriso galanteador, como a me lembrar que o inferno ali era só meu. Confesso que pensei em você. Pensei que, se te encontrasse, diria: "então, aqui estou, vamos logo beber esse vinho!". Mas talvez você pedisse cachaça... acho que sim, porque carregar peso na chuva me parece infernal. Ah, mas você sabe que isso é passageiro. Você sabe. Os sentimentos se revezam aceleradamente, como o caminhão de lixo. Acho que, depois de tanto lixo e tanta chuva, o sedutor lixeiro acendeu um cigarro, tomou uma pinga e dormiu feliz.