Naquele dia, fomos ao Valentino numa turma grande. Enquanto os amigos ficaram no salão, fui dar uma volta na casinha do bar. Uma turma de alunos que divulgava uma festa do curso de Medicina, tirou sarro em mim, de modo discreto o suficiente para não se comprometer, mas alto o bastante para me ferir. Fui até os futuros médicos o disse que tinha ouvido muito bem a piada e que eles envergonhavam a profissão que pretendiam seguir. Eles ficaram assustados e tentaram negar o ato, mas fui enfática e os adverti que não mexessem comigo, pois se dariam mal.
Minha atitude não me acalmou. Voltei trêmula para o salão, magoada com a maldade gratuita de pessoas que eu nem conhecia. Meus amigos perceberam e me pediram explicações. Contei o fato.
O Xuxu ficou muito bravo. Muito mesmo. Mais ofendido que eu, queria saber imediatamente quem eram os caras. Tentei tranqüilizá-lo, dizendo eu já tinha me defendido, mas ele não se acalmava: queria bater - sozinho - na turma toda. Tive que jurar que eu já estava ótima e que tê-los deixado assustados já fora mais do que suficiente.
Estou contando isso porque hoje é aniversário
dele e porque queria, de modo claro e público, demonstrar meu carinho por esse amigão, que se faz passar por namorado quando a gente quer evitar algum cara, que é obrigado a ouvir horas de conversa sobre moda e depilação e que admira, explicitamente, cada amiga.
Lembro-me da gente voltado a pé das festas, combinando os golpes que desferiríamos, caso algum bandido nos abordasse. “
A gente é grande; se o maluco não tiver um revólver, a gente desce o cacete!”.
Ele não é confiável com a divisão de trabalhos domésticos; a cada cem louças combinadas, lava duas. Também não dá pra bobear com cerveja na geladeira: ele bebe todas e ainda reclama que você comprou poucas. Contudo, quaisquer segredos, dos pequenos aos graves, podem ser entregues sem medo. Ele ouvirá, opinará, dará apoio e não comentará com ninguém.
O Xuxu é daqueles amigos que passa a noite inteira conversando quando a gente sofre uma desilusão amorosa, fazendo a gente sentir que quem não nos quis é trouxa, mesmo que nem sempre seja assim.
Em seu último aniversário, não estivemos juntos. Tive um motivo importante para não ir e ele entendeu. O fato é que nem eu, nem ele, lembramos que motivo é esse. Velhice e álcool: a fórmula da amnésia. Este ano, quis o calendário que seu aniversário caísse à véspera de um feriado. Comemoraremos do jeito que ele gosta de estar conosco: bebendo, falando besteira, jogando sinuca, em uma noite sem pressa. Desta vez, não há motivos para não ir. Estarei lá e estarei sempre. Amnésias consomem fatos, mas não apagam os afetos.