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período hiato

Em meus períodos hiatos, as palavras não vêm.
Os sentimentos ficam estanques e não conseguem traduzir-se em períodos.
Sujeito, verbo, predicado. Nem na forma mais simples.
Sinto-me vazia.
A expectativa dá lugar ao descaso. O pouco caso, que por osmose, atravessou fronteiras e agora toma conta de mim.
Fuga. Talvez.
O querer disfarçado de não-querer.
Daí tudo fica sem graça. E o sono não vem.
(...)
Ela paga ajuda.
O teste é amanhã.
Ela manda e-mail.
A resposta é amanhã.
Ela busca conforto.
O ombro é amanhã.
(...)

A ajuda pode não servir.
A resposta pode não vir.
O conforto, não funcionar.
(...)

olhar

Nos últimos tempos anda como espectadora.
Em todos sentidos que a palavra possa sugerir.
Observa e espera.
Reza e espera.
Não há muito o que fazer.
No sonho, o medo põe tudo a perder.
Inverte papéis.
Transforma o mocinho em monstro.
Mas afinal, se o pesadelo foi ela quem criou o fantasma é a própria.
Mas não no sonho.
Nele, ela é vítima.
Vítima da própria escolha.
(...)
Ela refaz os mesmos caminhos.
E se pergunta: o que foi que eu fiz?
Devia estar cega, coitada!
Perdida em meio a tanta certeza.
(...)
E depois de 2 anos, ainda sofre.
Sofre por causa da maldita esperança.
Se ela não existisse...
Talvez a dor cessasse.
(...)
A sensação se assemelha com a da morte.
Perda sem retorno.
Sem chances.
Sem...
Daí, criam-se os vultos.
Que aparecem a meia luz.
Sempre quando estamos sozinhos.
Vozes.
Inspirações.
Condenações.
Súplicas.
É a esperança que não existe mas que criamos para aliviar a dor.
(...)
Ela não tem mais medo do escuro.
De morrer sozinha.
De ladrão...
Apenas teme ficar amarrada ao passado para o resto da vida.
A única chance de libertação é o olhar.
Ela só se salvará pelo olhar.
Este é seu mantra de todos os dias.
O cheiro já faz parte do cotidiano.
A presença fica cada vez mais forte.
Apenas a incerteza a afasta.
Mas o olhar... só ele a salvará.
Ela sabe disso.
É sua única certeza.
Diga o que disser, ou o que não disser...
Só o olhar pode tirá-la do purgatório e livrar sua alma para sempre.

(...)

ela e o cachorro

E com quase 30, ela se viu novamente só.
Ela, a cama e o cachorro.
E naquele acumulado de viagens, roupas, apartamento, amigos, chocolate, fotos, televisão, cachorro... ela continuava sozinha.
Ela, o computador e o cachorro.
Nem somando todas as saídas... nem contabilizando todos os amores...
A equação dava sempre negativa e impar.
Ela, o trabalho e o cachorro.
Faltava-lhe o par.
Ela conhecia aquele a quem considerava perfeito.
Mas ele estava longe. Em todos os sentidos.
Ela, o vazio e o cachorro.
(...)

Regrets

E quando chegar o tempo de virar comida de vermes, certamente olharei para trás e lançarei a pergunta para mim mesma: arrependida? E sem lágrimas nos olhos responderei. Sim, eu me arrependo de algumas coisas. Arrependo-me de ter começado a pintar o cabelo tão cedo. De ter permanecido 15 anos da minha vida sem um animal de estimação. Arrependo-me de ter comido tanta porcaria e não ter cuidado como deveria do meu corpo. Arrependo-me não ter pagado mais num plano de saúde melhor. Não ter passado mais tempo com a minha família. Arrependo-me de ter levado o trabalho tão a sério a ponto de ficar doente por causa do mesmo. De ter feito poucos piqueniques. Arrependo-me de ter desperdiçado alguns anos da minha vida me punindo por uma decisão e por último, mas não menos importante, arrependo-me em insistir em amar quem nunca teve coragem de me perdoar!

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o pedido

Por fim, Deus atendera seu pedido. Não tudo exatamente, mas ela também havia se esquecido de pedir algumas coisas. Só agora se dera conta de colocar alguns itens na lista. Lista essa que lera num livro. Por que não? Pensou. E foi tão rápido. Deus devia estar com ajuda extra, ainda mais naquela época do ano.


(...)


As coisas sempre tiveram um rápido caminhar na vida dela. Ela ate gostava disso. Mas dizia aos outros que não. Que era difícil. Mentira! Ela era intensa. Na dor e na alegria. Era barroca. Sempre em seus e com seus altos e baixos. Ela gostava. Sempre ouviu dizer que Deus dava a cruz conforme se conseguisse carregar. E apesar de tudo, ela achava que sua cruz era justa. Às vezes ficava um pouco pesada. Em outros ela a encarava como pesada. Sempre gostou de mostrar que as coisas não eram tão boas assim. Que pareciam piores do que realmente eram. Por quê? A vida dela, sim, era ótima. Não perfeita. Mas ela era feliz. Ou talvez estivesse em um momento bom e apenas esquecera dos mal bocados já vividos outrora.


(...)


E, agora, finalmente com esperanças concretas. (Será que isso existe?) Não queria criar expectativas. Não queria mais se frustrar. Decepcionar-se. Mesmo assim, ela preferia arriscar-se. Sempre.


(...)

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saraguada

Sinto-me aguada como nunca outrora havia me sentido.
Uma Não-Sara de causar espanto!
Como se estivesse encenando, vivendo um mundo paralelo, não o meu.
Um mundo em tons pastéis.
Tão perfeito, tão vazio, tão dissimulado.
Superficial.
Suave.
Sutil.
Sublime...
Mas não a Sara.
Não o meu mundo.
Não eu.
Falta-me a sinestesia. Os sons. Os cheiros.
A dança. O bater do coração.
Ele já não bate mais.
Agora, medita.
Medita para não se martirizar com os erros do passado que constantemente voltam a atormentar.
(...)

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Cheiro de café

Não me orgulho de dizer que não tomo café. Amo o cheiro! Mas não consigo bebê-lo. Às vezes me forço. Aprecio o primeiro momento quando chega à boca. Mas, infelizmente, não consigo gostar. Ele amarga no meio.
Café me lembra a casa dos meus avós de antigamente. A mesma casa de hoje, mas que antes cheirava a café. Grãos torrados pelo Seu Pedro e moídos pela Dona Clara. A diversão da “netaiada” era quando eles deixavam a gente rodar a manivela:
- Vô, posso moer?
Tinha que fazer força! Mas a graça logo acabava e em poucos minutos já estávamos entretidos em outra atividade. Coisa de criança!
O cheiro de café fresco tomava conta da casa e era o responsável por reunir toda a família na cozinha várias vezes ao dia. Não havia horários pré-determinados. Tudo era um pretexto para passar um café. Visitas? Mais café! Café coado no filtro de pano que a neta-afilhada perguntava:
- Vó, isso é feito de meia?
Lembro-me do cheiro do café no fogo misturado com a fumaça do cigarro do meu avô. Cheiro de Vô Pedro! Ele que se sentava na mesma cadeira vermelha, num cantinho da cozinha e usava a mesma xícara. Ali tudo era só dele. Aquilo era ele.
Os domingos intermináveis.
A minha referência de alegria era estar na casa dos meus avós. Melhor ainda quando a mãe resolvia quebrar a rotina e dar uma passadinha lá em pleno dia de semana. O ápice era esperar minha avó servir o arroz e feijão requentado do almoço enquanto meu avô divagava sobre alguma banalidade com o cigarro na mão. O cheiro forte do café saindo fresco para os convidados e como trilha sonora, a vinheta de abertura do Jornal Nacional.
(...)

Amigo e A grande pérola do Fábio

Com um olhar consolador, virou-se para ela e lançou mão da frase:
- É como eu sempre digo, todo chocolate meio-amargo é meio doce.
Ela emudeceu. Continuava ali, parada, olhando o horizonte.
Ele, então sério, prosseguiu:
- Você não acha que está na hora de curtir o meio doce, não?
Ela permanecia calada.

(...)

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Amigo e A grande pérola do Fábio

Com um olhar consolador, virou-se para ela e lançou mão da frase:
- É como eu sempre digo, todo chocolate meio-amargo é meio doce.
Ela emudeceu. Continuava ali, parada, olhando o horizonte.
Ele, então sério, prosseguiu:
- Você não acha que está na hora de curtir o meio doce, não?
Ela permanecia calada.

(...)

o jogo

E então o jogo havia acabado
Em suas mãos só lhe restavam poucas e insignificantes cartas para a ocasião
Ela tinha ímpetos de blefar, afinal já estava tudo perdido mesmo, pensava
Mas preferiu ser justa. Honesta consigo e com o adversário
Esparramou as cartas sobre a mesa
Mostrou o que tinha, identificou os erros. Os acertos
Ele não se interessou
Nem pela sua sinceridade. Nem pela suas cartas
Há tempos ele não jogava mais com ela
Ele nem sabia quem era aquela pessoa a sua frente
Ela jogava sozinha
(...)

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