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Arquivo: 2006

Fui assaltado no Calçadão

...

 

Aconteceu há três dias na Rua Maranhão, perto de um shopping (assim como os jornalistas da Globo, não direi o nome do único shopping daquela região, para não fazer propaganda).

 

Eu estava em mais uma das minhas caminhadas quase diárias pelo Calçadão. Queria melhorar a saúde, viver mais, ganhar todas essas coisas legaizinhas que vêm por tabela com um corpo mais apresentável. Passei pelo tio que dizem que pula através da roda com facas, pelos irmãos que batem palma para o boneco mágico dançar, pela estátua viva que pede dinheiro em prol da arte e pelos artesãos e cinema alternativos. Tudo estava na mais perfeita ordem: a interessante mistura humana de sempre.

 

Mas percebi que dois rapazes próximos a um orelhão olhavam diferente para mim. De soslaio, fitei a boca de um cochichando com o ouvido de outro, ao mesmo tempo em que os quatro olhos me escoltavam. Não vi boa intenção naquela atitude. Olheiros em busca de um modelo? Eu ainda não emagreci o suficiente. Por que me encaram? Na ânsia de achar a tranqüilidade, agarrei-me a um dos preconceitos que sempre me acompanham: um deles é mestiço. Até parece que alguém de ascendência oriental vai fazer algum mal para mim! E mais: o parceiro usava uma camiseta do Smilingüido. Que injustiça a minha! Mas será que...

 

Não tive tempo de concluir esse último pensamento. Senti a pressão de um objeto pontiagudo no rim esquerdo, enquanto uma voz sem doçura alguma me pedia tudo o que eu tinha. Cinco e meia da tarde, e pessoas era o que não faltava naquele lugar. Eu estava ali, com uma faca cutucando-me as costas, mas ninguém via, ouvia ou falava nada. Até um pixel de uma tevê de plasma era mais perceptível do que eu naquele momento.

 

No instante em que ouvi aquela voz, a única vontade que tive foi a de chorar. Eu estava sem carteira e sabia que seria perigoso tentar convencê-los de fato tão improvável. Como é que um gordo lengüé desse, com cara de Roberto Leal, vai andar sem dinheiro? Então sucumbi a uma idéia tão insana quanto o momento que a obrigou a nascer: fingi que era surdo-mudo:

 

- Annnnnnãããã! Aiiiã!

 

Sei que isso parece uma brincadeira de mau gosto – um desrespeito aos deficientes, diriam os mais radicais –, mas, no desespero, foi a alternativa que encontrei para me defender. Julguei que seria a única forma de gritar sem o bandido ter ódio de mim.

 

Ante o som inesperado, o mestiço, aquele que me tranqüilizou no primeiro dos preconceitos, desceu-me um tapão no ouvido esquerdo, como se o quisesse consertar. Ele ficou nervoso com o meu berro nasal e incompreensível. O Smilingüido, ao perceber que uma e outra pessoa começavam a olhar para aquela movimentação estranha, sugeriu que eles picassem a mula, mas o japonês agressivo não parecia convencido de que eu era um surdo-mudo. Decidi, então, emitir mais alguns sons incompreensíveis, desta vez entremeados a um choro, a única parte real da performance. Estalei a língua cinco vezes, como quem toca um cavalo. Infelizmente não conheço algum símbolo gráfico que possa reproduzir tal fonema, mas tranqüiliza-me saber que a imaginação do leitor é auto-suficiente.

 

O mestiço riu com maldade, empurrou-me e saiu correndo com o comparsa em direção ao Calçadão, que tinha acabado havia um quarteirão. Alguns segundos depois, olhou para mim e gritou:

 

- Eu te acho, vacilão!

 

(Abro este parêntese para registrar o meu sincero agradecimento à Prefeitura de Londrina. Nessa virada de cabeça, o japonês tropeçou em um dos buracos da superfície lunar do Calçadão. Eu sabia que não era só gente boa que aquelas crateras derrubavam! Pena que o vagabundo se levantou rápido, ajeitou o tornozelo vivido e saiu pulando com ainda mais riso e vigor.)

 

Em seguida, o segurança de uma loja de cosméticos veio perguntar-me como eu estava. Achei melhor prosseguir com a farsa da surdo-mudez e disse-lhe que annnã nhá. Ele me deu um tapinha cidadão nas costas e pediu que eu fosse para casa, o que fiz prontamente.

 

Descobri que autoridades, populares, seguranças de lojas de cosméticos, todos estão certos. Diante da violência, o melhor a fazer é não ver, ouvir nem falar nada. Só me faltaram os óculos escuros.

  

Não estar apaixonado

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Uma das principais vantagens da paixão é a inspiração que ela traz. Quando estou apaixonado, tenho vontade de escrever mais, de ler mais, de ouvir mais, de viver mais. Os sentidos se misturam e se aguçam: o gosto fica à flor da pele, o olfato fica mais doce, e as cores, principalmente as do alvo de sentimento tão psicotrópico, ganham um cheiro gostoso de lábio molhado. 

Pois já faz um bom tempo que não sinto nem uma nesga de nada disso. Nadica. Meu coração está mais vazio do que geladeira de solteiro. E é neste estado, em que mal consigo enxergar o aceno da inspiração, que decido dedicar uma ou outra palavra à paixão. Ou melhor, à falta dela. 

Nada representa melhor o sossego do que não estar apaixonado. O ciúme, aquele receio horroroso de que furtem o meu bem, não aparece há tanto tempo que tenho medo de não reconhecê-lo numa eventual próxima vez. Se a moça bonita olhar para alguém mais interessante do que eu – e olhe que poucos riscos são tão constantes quanto esse –, o máximo que sentirei será uma excitaçãozinha vulgar pela safadagem dela. Nada mais. 

E as lojas? Tudo tão mais barato. Não estar apaixonado significa um vale-desconto de 50% em todo o comércio. A paixão, muitas vezes, leva ao namoro, que, por seu turno, força a manifestações de auto-afirmação como o “deixa-que-eu-pago”. Quem disse que precisa ser estudante para pagar meia no cinema? Simplesmente não esteja apaixonado. Está aí uma bela sugestão de marketing para a Acil: “Não amar é o maior barato!”. 

Por falar na sétima arte, filmes não me emocionam, simplesmente me divertem. Músicas são só agradáveis arranjos de sons. Nos livros e nesses mesmos filmes, há vidas de outrem – e a minha nada tem a ver com elas. A poesia são apenas métricas e sons e ritmos matematicamente afins. Simples. Tudo isso quando não se está apaixonado. 

Agora mesmo posso ouvir as bátegas de chuva que sacodem a minha janela. Hoje não passam de água e ar empurrando vidro. Outrora poderiam ser o chamado a beijinhos de tirar o fôlego com chocolate quente. Que bobagem num calor deste! 

Toda esta liberdade que exalto é deliciosa. Mas de que ela me adianta, se você não está aqui para comemorar comigo?

Qual é a graça de estar feliz? 

Memórias de um transtornado - o cãozinho Fofucho

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Em mim ninguém verá a pretensão de entender – muito menos a de fazer entender – esse homem chamado Válter Goes. Se dermos uma espiada em um take de sua infância, entenderemos facilmente por que ele é incompreensível.

Dê uma espiada naquele Valtinho engomado de 11 anos. Está vendo como ele se aproxima animado do poodle preto da família? É curioso o afastamento do cãozinho. Parece que Fofucho, nome justo e sugestivo criado por quem agora o persegue, não está para brincadeiras. Mas Válter não pára de persegui-lo, demonstrando uma carência até bonita de se ver. Olhando bem, há uma coleira de couro, puída mas ainda útil, na mão direita do menino. Cachorro recusando-se a passear? Talvez seja menos fácil entender o Fofucho do que o pobre Válter. 

Depois de três esquivadas semifelinas, o poodle é pego pelo meninote risonho na parte do quintal que não dá vista à rua. É hora de passear. Os olhos de Válter indicam a satisfação de quem gostou da prévia brincadeira de pega-pega. Mas o cachorro... Eu poderia jurar que pesa em seu rostinho sem alma uma feição de tristeza. E o choro? Seria a alegria de quem vai passear com o melhor amigo? Está certo que, em colos, cães enrijecem as perninhas, mas as de Fofucho, neste instante, estão cadavericamente rígidas. O rostinho – triste, tenho certeza agora – olha para os lados, como se naquele momento lhe aparecesse uma razão necessária que o fizesse procurar a ajuda que ainda demoraria tanto para chegar. 

Válter o conduz à edícula dos fundos. E é lá que você e eu vamos descobrir que Fofucho não é bobo. Muito menos incompreensível. 

A primeira coleirada nas costinhas do animal é tão forte que ele cai sobre as patas dianteiras, cuja única alternativa é a de curvar-se ao laço. O cachorro grita de verdade. Parece uma criança com medo. Não adianta fugir, porque a porta está fechada e você não tem condições de abri-la. Os sons talvez sejam mais agressivos do que as imagens que a eles se irmanam. A coleira corta o ar, a coleira corta o lombo de Fofucho. O ar, o lombo. O lombo. Entre os gritos, alguns ganidos estranhos, que eu não saberia dizer se queriam suplicar ou, inutilmente, assustar. Cachorro sangra, veja. 

(Há algumas linhas, referi-me a Fofucho metonimicamente como um “rostinho sem alma”. Meu Deus, o desalmado desta história não é ele!) 

A última pancada precedia uma piedade do tamanho do mundo, que, embora insuportável, Válter adorava sentir. Ele abraçava o Fofucho, tomando o devido cuidado, já que sangue de bicho dá doença. Só cachorro para lamber a boca de quem não o matou por puro egoísmo – medo de ser surrado pela culpa. Os corações, o do peito do algoz e o da boca da vítima, batiam com a mesma força, só que por motivos diferentes. Mas veja... O rabinho... Ah, esse Fofucho! Ele está abanando o rabinho! Estar vivo é bom demais! 

Essas brincadeiras semanais de Válter duraram cerca de seis meses. Acabaram quando Fofucho descobriu que, se urinasse de medo antes da primeira pancada, o dó cortaria o caminho e o coraçãozinho do dono.

Memórias de um transtornado

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O nome é assim mesmo: “Válter”, sem dáblio e com o acento a que toda paroxítona terminada em erre tem direito; e “Goes”,  com um ditongo sem-vergonha louco para ser acentuado. Válter Goes faleceu há três dias na cidade de Maitaca, interior do Rio Grande do Sul. A família foi gentil ao comunicar-me. Éramos amigos, mas não o suficiente para que parentes se dessem ao esforço de enviar-me um e-mail com a triste informação. E realmente não foram os nossos frouxos laços que criaram tal obrigação para o remetente, e sim um estranho pedido do pré-morto:

 

Prezado Júlio,

 

Comunicamos-te, com pesar, que o teu amigo Válter Goes faleceu ontem em virtude de uma parada cardíaca. Sabemos da estranheza do que te diremos agora, mas deves saber que, uma semana antes de partir, ele nos confidenciou que gostaria muito de ver algumas de suas memórias publicadas por ti. Não importa o meio. Basta que publiques as confidências com que tiveste contato por meio das inúmeras cartas que trocastes.

 

Não tens a obrigação de atender a tal pedido, mas sabe que, se o fizeres, tranqüilizarás uma alma que nunca encontrou sossego.

 

Cordialmente,

 

A Família.

 

É claro que essa segunda pessoa do singular, malgrado a gaucheza de quem escreveu, não existiu. Porém, fiz questão de usá-la para dar um quê àquela mensagem, formalmente tão inodora.

 

Com todo o respeito ao sofrimento dos entes do Goes, confesso que, a princípio, achei um tremendo desrespeito pedirem a alguém ocupado (sim, sou-o) que satisfizesse os caprichos (sim, caprichos) de alguém em função do estiramento eterno de suas canelas. Mais um que morre, vira santo e deve ter seus últimos anseios atendidos, ainda que absurdos. Por que a mim, que não sou parente nem nada, sobrou tamanho fardo? Todavia, pensando melhor, cheguei à conclusão de que, para quem tem um blog, mas nem sempre muitas idéias, o encargo não é tão adamastoriano assim. É como ele mesmo dizia, numa daquelas inúmeras frases pobres cujas idéias jamais seguiu: “Se lhe derem um peso, ponha-o sobre os seus sonhos, para que eles não voem sem você”.

 

Eis-me, Goes. Não sei como a exposição dos pensamentos doentios de uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo como você pode refrigerar-lhe a alma, mas farei, na medida do possível, o que me foi confiado. Permita-me, contudo, adaptar o seu ensinamento à minha situação: você só terá espaço aqui quando eu não tiver nada melhor ou pior para escrever. O peso que herdei cobrirá o vazio deixado pelas idéias que tiverem voado sem mim.

 

 

 

Sílvio Santos constrangido

Imagino que todos já tenham assistido a este vídeo, mas, mesmo assim, fiz questão de postá-lo aqui. Afinal, não é sempre que se vê uma garotinha mandando o grande mestre da comunicação introduzir algo na cavidade anal. 

Além de a cena me lembrar de que o Sílvio Santos é, de fato, um ser humano (se tem cu, caga; se caga, é como nós), revela que até ele tem seus dois segundos de absoluta falta de reação diante de um acontecimento inesperado. Sua expressão facial nos instantes que sucedem à obscena e ingênua frase da menina é a mesma de alguém que capota de bicicleta na Sergipe com a Higienópolis às seis da tarde de uma sexta-feira: isto é um pesadelo?

Meus agradecimentos ao Maurício Meleiro, grande fornecedor de diversões. 

O velho que cagou na rua

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Já contei a todos os meus amigos a cena mais inusitada que presenciei nesta Londrina. Num meio-dia chuvoso de algum tempo atrás, eu procurava um lugar para estacionar na Rio de Janeiro, perto do bosque. Eu iria encontrar um amigo, com quem almoçaria. Enquanto o congestionamento me espremia, lancei a vista para a calçada à minha esquerda e vi o que o meu cérebro demorou três segundos para aceitar. Um senhor – bem-vestido, aliás – parou perto do Cine Vila Rica, acomodou cuidadosamente o guarda-chuva a uma parede e, com naturalidade, abaixou as calças. Em seguida, agachou-se o pouco que sua estrutura física gasta podia agüentar e começou a cagar no meio da calçada.

 

Infelizmente, eu até pude ver o ânus do velho, porque ele fez questão de ficar de costas para a rua, onde eu estava (por pudor, talvez). Sei que isso parece uma brincadeira de mau gosto, mas, acredite, não estou para galhofas. A sensação que tive foi similar à de quem sofre um acidente. No momento do impacto, parece que estamos sonhando; porém, depois de alguns segundos, damo-nos conta de que vivemos um pesadelo real. Eu somente tive a certeza de que havia alguém soltando um barro na via pública quando o primeiro toco beijou a calçada. Até então, algum sistema de defesa do meu cérebro bloqueou-me a consciência.

 

Naquele instante, várias pessoas passavam ao lado do cagão. Fitei seus rostos e neles percebi a mesma fleuma que congelou o meu nos primeiros segundos da cena. Todas, sob seus guarda-chuvas, olhavam rapidamente aquele ser evacuando em frente ao cinema e simplesmente continuavam a andar. Não riam, não o xingavam, não lhe ofereciam ajuda: só observavam e permaneciam a caminhar. A inação era idêntica à do motorista que assuntava tudo de longe e agora faz este relato.

 

Resolvi contar essa história hoje porque, daqui a poucas horas, os brasileiros reelegerão o atual Presidente da República. Aquele que, segundo indícios cristalinos, foi conivente com um dos maiores escândalos de corrupção deste país vai sentar-se por mais quatro anos na cadeira macia donde assistiu, inerte, à comédia abjeta que seus companheiros protagonizaram. O homem que fez morrer a última esperança – a de um governo íntegro – conseguiu convencer o povo de que o certo, ainda que errado, é melhor do que o duvidoso.

 

Sinto que mais uma vez vão cagar diante de meus olhos. E novamente ninguém, nem mesmo eu, vai fazer nada.

O retrovisor

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Eu tinha uns 15 anos, e naquele dia meu pai me ensinava a dirigir. Numa tentativa de baliza, perguntei-lhe como usar o retrovisor da direita. Ele titubeou, abafou o nervosismo que o perturbava sempre que um menor ansioso estava à direção e, talvez sem saber, disse-me uma das coisas mais sábias que já ouvi: “Um dia você vai aprender”. 

Minha reação não poderia ser diferente: achei as palavras vazias e acomodadas. Mas, assim como eu não tinha condições de, naquele momento, usar adequadamente tal objeto, não poderia compreender que aquela seria a única resposta plausível.  

Foi só aos 19 anos, depois de muita esbarrada, que consegui usar o retrovisor da direita na baliza. Descobri que, de fato, é impossível ensinar alguém a desfrutar todas as suas vantagens. Trata-se de uma habilidade que o motorista desenvolve instintivamente, a partir do trato diário com o espelho e com a calçada.  

São muitas as situações em que não temos condições de aprender, por mais que alguém nos tente ensinar. O aluno adolescente a quem é apresentada a análise sintática não lhe pode ver a utilidade (se é que a há); ao homem entediado, é impossível saber que é maravilhoso não ter inflamação alguma no pericárdio; o jovem lascivo e sangüíneo não tem a mínima condição de aprender que a repressão de alguns instintos pode dilatar a vida, pelo menos em sua quantidade; e o prudente não consegue entender por que anos de picanha podem ser melhores do que décadas de alface. Mas um dia, depois do trato diário com a vida e com o próprio espelho, eles vão aprender, ainda que seja com um olhar arrependido para trás. 

No casamento – que, como o retrovisor, nos ajuda a estacionar –, acontece coisa parecida: no início, não há como conhecer totalmente o contratante para quem perderemos boa parte da cama. Mas há uma diferença: neste caso, muitas vezes, passamos a ver em que ele nos pode atrapalhar, enquanto no do retrovisor é mais comum descobrir como ele nos pode ser útil.  

Tenho medo de tantos erros que cometerei pela incapacidade momentânea de saber. Sei que o arrependimento, inimigo tão íntimo, ainda me visitará muitas vezes. Mas desejo um dia viver da mesma forma como, desde os 19 anos, eu dirijo: olhando para trás antes de esbarrar. Um dia eu vou aprender.  

Pensamentos desconexos 4

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Não sei se minha opinião é isolada, mas acho que o super-homem desenhado na banca de jornais da Higienópolis com a Sergipe é sósia do nosso deputado Antônio Belinati. E não me refiro ao fato de os dois ajudarem o povo, não. É o rosto mesmo. Dê uma reparada.

 

***

 

Desde que eu escrevi, neste mesmo Tipos, um minitexto boboca intitulado Psicografia, não tenho mais paz. Sou assombrado diariamente por e-mails com pedidos de cartas psicografadas. Já recebi tanto nome de gente morta que, num dia desses, fui inspirado por uma voz do além. Segue o que ela disse, “ipsis litteris”: “Leiam direito o texto, porra!”.

 

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O Briguet deve ser o Mestre dos Magos. Sempre que saímos juntos, há um átimo da noite em que, quando vou ver as horas ou pôr a cerveja no copo, o homem simplesmente desaparece. Com uma fronte daquela, tem que ser mágico para sair à francesa.

 

***

 

Ainda bem que a Bienal da Falta-de-Enxada não é anual.

 

***

 

Em época de eleições, acontece algo curioso: na maioria das vezes, quem faz a propaganda de políticos nojentos é justamente o mais prejudicado por eles. Basta dar uma volta pelos principais cruzamentos da cidade para constatar essa fatídica verdade. Nada é mais triste do que levantar a bandeira de seu principal algoz.

 

***

 

Atenção, Briguet, Rocha, Garrafael, Mantovani e demais fráteres: a tarefa para a próxima QSL é memorizar a introdução correta ao Hino Nacional. Vamos parar de enrolar.

 

Espera o BrasilQue todos cumpraiCom o vosso dever.Eia avante, brasileiros,Sempre avante!Gravai a burilNos pátios anaisDo vosso poder.Eia avante, brasileiros,Sempre avante!Servi o BrasilSem esmorecer,Com ânimo audazCumpri o dever,Na guerra e na paz,À sombra da lei,A brisa gentilO lábaro ergueiDo belo Brasil.Eia sus, oh sus!

Um novo Tipo

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Alvíssaras!!!

Anuncio, com muito gosto, que daqui a poucos dias o Tipos abrigará mais uma figura. Trata-se do poeta e professor Dílson Catarino, dono de letras profissionais. 

A nova aquisição foi autorizada e aplaudida pelo Moraes, o nosso grande capo.

Sê bem-vindo, Catarino! 

 

 

Mister Cuca: o céu da boca

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Moro em um apartamento que não me dá uma bela vista da rua. Não estou perto do lago Igapó, não há um ponto de ônibus muito perto. Sossego noturno, principalmente nos fins de semana, também não tenho. Mas há uma vantagem que eu não trocaria por nenhuma dessas: ele me põe a dez metros do Mister Cuca.

 

Só de saber que, a qualquer momento, posso pegar o elevador, passar pela portaria e gastar 18 passos para chegar lá, vem uma felicidade que não posso nem quero conter. Parece um sonho.

 

A maravilha do Mister Cuca começa na entrada. Aquela belíssima casa de tijolos, que já foi de madeira, delata o merecido sucesso do proprietário, que adocicou o lado de cá da Rua Sergipe e valorizou o meu imóvel. A beleza do lugar – tão fantástico quanto o antigo editor de textos aqui do Tipos – é reavivada pela gentileza das atendentes. No início, até pensei que a simpatia delas fosse fruto de um treinamento de RH, com muita “otimização”, “liderança”, e “vamos estar conquistando o cliente”. Porém, hoje estou convencido de que elas são minhas amigas de verdade. Posso até desabafar com elas, se precisar.

 

Eu sei que é difícil parar de conversar com a moça da entrada, mas andemos um pouquinho e adentremos o recinto. Está vendo aquele balcão de salgados? Experimente todos. Descubra que uma esfirra não é um simples pão com carne moída e que uma coxinha pode, sim, ter mais recheio do que massa. Está certo que o Mister Cuca, o lugar em que a gula não é pecado, é o céu da boca, mas isso não quer dizer que os salgados devam ser desencarnados (hã, hã?). Mais para a direita, estão as tortas. Aqui, diferentemente de outros lugares, salgado é salgado, torta é torta. São categorias diferentes. A massa delas é algo tão requintado e saboroso que deveria ser crime maculá-la com catchup, que só serve para dar cor a bordas de pizza de promoção e outros alimentos marginais. Quanto à beleza interior desses alimentos, deite um pouco do recheio em sua língua e deixe que ela mesma lha descreva. Nada mais fácil do que entender algo em sua própria língua (hã, hã?).

 

Agora vamos conhecer o setor de doces. Será que podemos comer aquele bolo trufado? Não, eu não teria coragem de desmanchar desenhos tão lindos. E a bomba de chocolate? Veja, é uma bomba sincera, que não nos surpreende com uma cobertura de chocolate hidrogenado e um recheio de creme de maisena. Tanto este quanto aquela são de chocolate de verdade! Degustando melhor, o recheio é de... musse! Eu sempre sonhei em comer uma musse abraçada por massas tão gostosas.

 

(Confesso que, tratando das bombas, quase fiz um trocadilho com a palavra “explodir”, mas essa vilania seria um atentado contra a sublimidade do tema.)

 

Dê-me a sua mão e venha um pouco mais para cá. Dê uma olhada nos sorvetes artesanais. O Mister Cuca não é conhecido como sorveteria, mas tem o mais delicioso sorvete que já tive o prazer de experimentar. Aliás, acho que eu seria muito frio (hã, hã?) se tachasse dessa forma tal manjar. Assim como tortas são diferentes de salgados, o “sorvete” do Mister Cuca é diferente dos outros sorvetes do mundo. Quando tomo o de morango, por exemplo, tenho a impressão de que, lá na cozinha, há umas dez ninfas lavando os morangos silvestres recém-colhidos e preparando a próxima receita. Posso até ouvir a música céltica que elas cantam enquanto compõem aquela delícia. Aqui me faltou uma enxada...

 

Meu apartamento não me dá vista para o Mister Cuca. Mas tenho o maior gosto de tê-lo como o meu vizinho.

     

 

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