Hoje tive o prazer de compartilhar o elevador com um sábio. Somente três andares me separavam do térreo, o que, infelizmente, tornou exíguo o tempo ao lado do homem. Mas enganam-se os que subordinam a sabedoria às garras dos minutos, ou dos segundos. Uma inesquecível demonstração de inteligência necessita somente de um átimo.
O avatar estava acompanhado do filho adolescente. Este, olhando-se ao espelho do elevador, numa jovial atitude de distração, disse ao pai que estava pensando em entrar na escola de circo. O mestre, que o tempo todo olhava para baixo, disse:
- Ahã. Vai, sim.
O garoto, então, pôs-se a argumentar. Disse que achava lindas aquelas apresentações circenses com tecidos. E, antes mesmo que minha imaginação me brindasse com as imagens propostas pelo menino, meus ouvidos me presentearam com a mágica daquele malabarista do saber, daquele verdadeiro Beto Carrero, prestes a salvar o filho das nefastas garras da ausência de enxada:
- Ahã. Vai, sim.
Não tenho o dom de traduzir a língua dos anjos, mas ouvi as duas respostas deste modo: “Vai carpir o canteiro central da Rio Branco, meu filho”; “Vai colher manga em Medianeira, meu filho”.
Vi morrer um palhaço, antes mesmo de nascer.
É o meu andar. Uma boa tarde.