Hoje, no escritório de assuntos jurídicos da universidade, eu vi um molequinho lindo. Acompanhava a mãe, que provavelmente procurava pelo pai dele. Devia ter seus três anos. Talvez mais. Os olhinhos eram bem vivos e ficavam saracoteando por todos os lados daquele lugar diferente. Só não chegavam até mim.
Eu queria jogar um tchauzinho pra ele, mas o bichinho se importava muito mais com o vaivém do local, com as mesas, cadeiras e estagiários espalhados. Em dado momento, ameacei levantar a mão direita, porque achei que ele tivesse finalmente me dado atenção, mas era para o bebedouro, à minha esquerda, que olhava.
Perguntei-me por que eu queria tanto menear a mão àquele ser. Descobri, sem ter de cavar muito, que era por causa daquela chupetona atrás da qual ele estava. Sim, ele usava uma chupeta gigante de alguma marca pouco divulgada, com o bico amarelo de fábrica. Quem é pai conhece a lei das chupetas: o preço é inversamente proporcional ao tamanho da armação e à amarelidão do látex.
Comecei a interpretar aquele indicador social. Crianças com chupetonas de bico amarelo geralmente têm pais pobres. (Na verdade, esse plural é pretensioso: crianças com chupetonas de bico amarelo raramente têm pai. Imagine pais!) Crianças com chupetonas de bico amarelo não comem bolachas recheadas quando querem. Crianças com chupetonas de bico amarelo não pedem pra ver o Dinossauro Barney, porque nem sabem que existem amiguinhos encantados além da tevê aberta. Crianças com chupetonas de bico amarelo choram muito, e ninguém limpa o ranho antes que seque e verdeie todo o entorno da boquinha, quando consegue atravessar a imponente orla de plástico.
Nem o Papai Noel gosta das crianças com chupetonas de bico amarelo. Nem o Papai Noel.
A mãe do menino enxaguou o meu plano de dar e receber tchau. Pegou o filho pelo bracinho e puxou-o através de uns três metros de chão, até chegarem à escada, pela qual sumiram aos poucos. A criança, sacudindo a chupetona com chuchadas ainda mais fortes, simplesmente ia, conduzida pela mulher. Não tinha a mínima idéia de onde estava e de aonde ia. Também não sabia, nem vai saber, que na farmácia existem chupetinhas ortodônticas de silicone da Nuk.
Descobri, então, o porquê de eu querer dar tchau àquele garoto. Eu queria, na verdade, que os dois, ele e a chupetona de bico amarelo, saíssem de perto de mim.