Sentado naquela mesa mal cheirosa, ficou observando o vai e vem dos carros apressados, das pessoas cansadas, das aves encardidas, das crianças berrantes e de todo o burburinho que às dezoito horas trás para uma cidade grande. Não que Londrina pudesse se encaixar nesta medida, mas ali se encontrava quase tudo o que tinha disponível na capital, ou no Rio e em São Paulo. Sorriu internamente e ficou imaginando se sua definição de "cidade grande com ares provincianos" era de sua autoria ou tinha lido em alguma coluna dos jornais que circulavam por ali. Não conseguiu lembrar, claro. Eram comuns a ele essas dúvidas pertinentes à sua forma de encarar a vida. As experiências vividas, livros lidos, momentos de reflexão sempre eram encarados como pensamentos livres, mas que no seu interior ia se moldando o homem que era hoje. Seus conceitos e muitos preconceitos eram tirados dali. Letras, melodias, observações. Livros, músicas e novelas. E a vida se torna cheia de regras, só por conta do que ele supostamente conhece... E conhecimento é a melhor balança para se julgar algo. Experiências de outros narrados, cantados ou interpretados não é verdade absoluta. Porém, difícil de argumentar com quem acredita que tem a razão sempre. Do ponto de vista de cada um, todos somos portadores de verdades e essas verdades nem sempre são reais. Delírios existem e esta talvez seja uma das formas onde ele mais se aplica. Julgar o outro, pelas suas “experiências” é jogar fora conhecimento e talvez até, amizades sinceras. Pensando nisso e olhando ao longe as nuvens que se formavam escuras e gritantes no horizonte teve a nítida sensação que nada na sua vida era concreto, aço e fogo. Sempre teve um pouco de suavidade do ar, maciez da terra e refrescância da água.
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