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pequeno voo de sabiá novo numa árvore do jardim




vão ficar para trás as árvores do irmão
e eu ainda serei a folha que o vento leva
os sabiás terão mais sossego em seus ninhos
e traçarei pequenos voos que nao quero cegos

o vento e o jardim

lancei meu barco ao mar, já não fico no cais a me despedir, agora sou nau e vela...
há um vento forte, vento que me move, me desvela. vento que sou eu...
sinto seu sopro aqui.

um jardim pode ser sensível assim?

sigo sob o signo da sensibilidade
embalando objetos e alguns sonhos
em contato comigo e com o que sinto
aventurando-me pelo desconhecido
acostumando-me com o imutável
ainda que viver seja ato de coragem
e que sejam emaranhados os caminhos
tenho gostado muito de estar viva
às vezes minhas lágrimas são muitas
em outras os gostares são maiores
todos os dias agradeço pela generosidade
daqueles que vem navegando ao meu lado
mesmo só, há muito não estou sozinha
que venham os dias, cinzas ou de sol
e que sempre haja vozes para a memória

flores jorgianas



inimigos talvez não tenha, talvez. se os tiver, que eles percebam que me fazer mal não é algo para se vangloriar. não há honra em me derrotar. se ainda assim quiserem me atingir, que seja vã a tentativa. estou com as roupas e as armas de jorge. que os inimigos, se houver, não me toquem, não me alcancem, não me vejam, não me façam mal nem pensamento. que armas de fogo não me alcancem, que facas e espadas se quebrem, que cordas e correntes se arrebentem.

soneto da sexta-feira santa no jardim

eisumação (sob a chuva)

na terra encharcada, solo sagrado
o filho de tanatos não repousa.
emanam eflúvios do descarnado,
o exser há muito não passa de cousa.

a chuva sujalava o desterrado,
seus olhostras são de vermes lousa.
espelho do porvir, grita o exumado:
vem o dia em que o corvomorte pousa.

o coveiro diz entrepodrentes:
“és tão só nódoa, lama é o que és,
monstro do dr. godstein, indizente”.

o homem é, de irônico deus, o golem.
humores e coagulantes marés,
malfeitamento que as águas engolem.

pequena carta, com flores, para marina.


marina querida,

primeiro tenho que agradecer pelas palavras, lindas, que você dedicou a mim.

tenho pensado muito sobre elas e também sobre o seu sonho, e os seus sonhos (o que não é o mesmo, mas é igual, para fazer já uma referência).

sabe, se é o sangue italiano que nos une, acho que é o português que nos identifica.

e a gente ficou assim, desde sempre e pro resto da vida, cheia de saudades, adoecendo de falta.

tenho saudades de tudo (mais uma), tenho saudades de tanta gente, muitas de você.

sei que o seu coração também vai se amiudando e que o céu sobre nós vai ficando maior, esse que devia nos proteger (ops)... é o que acontece comigo quando me enveredo pelos labirintos das lembranças.

e como fazem falta essas pessoas que já foram porto seguro, colo e acolhimento.

mas sabe, querida marina, eu acho cheia de beleza essas sua capacidade de se vincular tanto a essa gente que já tinha vivido uma vida quase inteira quando você estava nascendo.

e quantas histórias dessas pessoas que passaram a vida a criar filhos, a lavar roupas no rio, a achar o ponto da massa, a costurar, a construir com as mãos... histórias para manter vivos esses que nos aparecem em sonhos.

e nós vamos desenhando o nosso viver, resgatando a memória dos que nos são caros...

talvez seja esse o nosso fiar, o nosso tecido.

com amor e com saudades,

vivi

como decifrar um jardim de hieróglifos




indecifrome
fingindo ser eu
fugindo de mim
autoesfinge

filosofia barata, bem baratinha, no jardim.




viver é um desajeito.

um jardim simbolista. o soneto do soldado.




Soldado

De pé, avança o bravo soldado
Vassalo que não desiste exangue
Marcha regenerando carne e sangue
Suporta o fardo de verde fardado

Empunha o fel, de ferro formado
Enfrenta cúmulo, devora cirro
Vitória, todavia, como a de Pirro
Perigo! Outro abutre engarrafado

No absinto o inimigo se camufla
E pela sua derrota o licor rufla
Sente o gosto amargo do precipício

Tomba apático etílico errático
Cai cirrótico o fidalgo hepático,
Fígado afogado por Dionísio

desatinando à espera das quaresmeiras.



o cinza do céu antecipando a quarta-feira.

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