Estava eu lendo o livrinho da Teoria e storia della traduzione, e após uma das elucubrações do autor sobre Cícero, ele termina com a questão acima, que acabo de descobrir faz parte do estudo da linguística e me lembra alguma coisa de semiótica, já devidamente relegada ao esquecimento e ao olvido de meu cérebro.
Não sei como era no original em francês, mas na versão italiana está escrito "Cos'è il senso?" e em seguida, em inglês como o título deste post.
Fiquei pensando. Só pra traduzir aquele pedacinho de 6 palavras já descobri no mínimo umas quatro formas. Poderia ser como no italiano "O que é o sentido?" ou "O que é o significado?". Mas achei demasiado simplório, sem substância. Tem a possibilidade de traduzir como "Qual é o significado do significado?" ou então "O que significa o significado?". "O que quer dizer o significado?". Enfim, inúmeras opções.
Confesso que eu já sabia um pouco que as traduções eram assim, mas quanto mais leio sobre o assunto, mais vejo que a obra traduzida pode sofrer sérias alterações dependendo de como o tradutor interpreta a intenção do autor.
Nessas horas sempre lembro do título de um livro do Umberto Eco, que está na lista de meus próximos livros a ler: "Dire quasi la stessa cosa" em português "Dizer quase a mesma coisa", que trata exatamente da tradução.
Imagino a dificuldade em traduzir a obra de alguém já morto, sem a possibilidade de questionar o que o autor queria dizer com aquilo. E a tradução da poesia cada vez mais se revela um embuste na minha concepção. Como você pode traduzir Dante, que escreveu com versos métricos e rimas em uma outra língua, mantendo ainda assim os versos métricos e as rimas, sem mudar o conteúdo?
Como traduzir uma poesia em alemão, meu deus?
Pode-se imaginar o que acontece com um texto quando ele é traduzido a partir de uma outra tradução?
Textos em línguas latinas são mais fáceis, indubitavelmente. Se pode até conseguir coerência, algumas vezes até na poesia. Mas e o árabe, japonês, chinês e outras línguas orientais? E o russo? E o eslovaco?
Questões como essas surgiram enquanto eu traduzia uns resumos acadêmicos do português pro inglês pro meu primo cobaia
Eduardo, jornalista e mestrando em Porto Alegre. Cito o exemplo que me marcou. Dizia ele que "neste trabalho vamos passear pelas vertentes de tal assunto". A primeira vontade que surge é a tradução literal. Muitas vezes funciona, porque existem termos similares. Mas se neste caso eu escrevesse um passeio pelas vertentes, creio que o sujeito que lesse em inglês pensaria em um piquenique com a família nas vertentes de um rio, algo do gênero. Porque no português vertente tem esse outro significado, mas no inglês, niente.
Aí vem o que muitos tradutores usam aconselham e que também, à medida que estou me aprofundando no assunto, começo a concordar. Devemos primeiro depreender o significado, para então traduzi-lo.
Mas e daí eu pergunto, cara-pálida: o que significa o significado?