Deixe-me ver se entendi.
A candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt é seqüestrada por narcoguerrilheiros de esquerda.
Passa seis anos na selva colombiana, longe dos filhos e da mãe. Por três anos, permanece acorrentada.
Um dia, Ingrid é libertada, após uma complexa operação de resgate, minuciosamente preparada pelo governo colombiano, com suporte dos EUA.
Na primeira declaração pública após o resgate, a ex-senadora agradece "a Deus e ao governo da Colômbia".
O presidente colombiano, Álvaro Uribe, é odiado pela esquerda mundial. Por quatro razões básicas: 1) diminuiu o poder do narcotráfico e o número de homicídios no país; 2) quebrou a espinha dorsal das Farc, eliminando o secretariado da organização terrorista; 3) tem 91% de popularidade entre a população do país; 4) aceita ajuda americana no combate à criminalidade.
Imediatamente após ser libertada, Ingrid Betancourt começa a ser alvo da ira e dos faniquitos da turba esquerdofrênica.
Uma obscura rádio estatal suíça, sem se dar ao trabalho de exibir provas, divulga a versão de que a liberdade de Ingrid e de outros 13 reféns teria sido comprada com o pagamento de um resgate de US$ 20 milhões.
Acompanhe-me, leitor. Por um momento, um breve momento, imagine que a versão da radiobrás suíça seja verdadeira.
Em que isso diminuiria a importância de que Ingrid Betancourt e 13 reféns foram libertados? Em que isso reduziria os méritos do governo Uribe, que liquidou a cúpula das Farc impiedosamente?
Qual seria a proposta de nossos bravos esquerdofrênicos? Que os narcoguerrilheiros gentilmente devolvam a (suposta, e nunca provada) grana? Que, em contrapartida, Sarkozy e Uribe devolvam Ingrid (e, quem sabe, a Carla Bruni de troco) aos facínoras da selva?
O que está acontecendo agora, em menor escala, porém não menos preocupante, é a inversão de valores que se registrou logo depois dos atentados de 11 de setembro: a vítima é transformada em vilã.
O crime de Ingrid Betancourt foi ter agradecido a quem a libertou; foi ter reduzido Hugo Chávez e Rafael Correa (para não falar em nosso molusco presidencial) ao papel de coadjuvantes editáveis; foi enfrentar a arrogância e a prepotência dos salvadores do mundo esquerdofrênicos.
O crime de Ingrid Betancourt foi o de não desenvolver a síndrome de Estocolmo.
A dor de cotovelo da esquerda em relação a Álvaro Uribe é um caso para uma tese de doutorado em psicanálise.
Imaginem se o seqüestrado fosse, sei lá, o bravo Luiz Mott. Estaria alguém babando moralidade para condenar um suposto (e não comprovado) pagamento de resgate? Ora, passem amanhã, seus babacas.
E Deus, o silencioso YHWH, ainda leva bordoada de nossos empresários anarquistas!
A estupidez humana não tem limites. Só é ultrapassada pelos erros gramaticais.
(Ah, e chamem o Gilberto Carvalho. Só ele para administrar mais essa crise cotovelística de nossos esquerdóides.)
Ingrid, a vilã
July 04, 2008Afoguei minha culpa
July 04, 2008
Afoguei minha culpa
no álcool, nas moças, nas noites,
afoguei minha culpa nos açoites
que preocupam o escravo e o ateu.
Afoguei minha culpa, apenas eu,
nos infernos interditos,
no eros e nos ares,
afoguei minha culpa em bares
que nem sequer devem ser ditos.
Afoguei minha culpa nas leituras
de Marx, Lênin, Bakunin.
Afoguei minha culpa nas alturas
da baixeza toda que há em mim.
Afoguei minha culpa
por matar e matar-me
aos poucos, não com a corda
ou um tiro na cuca:
afoguei minha culpa na horda,
na merda proletária e estulta.
Afoguei minha culpa, meus pecados,
no pesadelo da semana,
nos ofendidos e humilhados
e por fim, oh Bukharin,
afoguei minha culpa em Deus,
e quase nada restou a mim:
todos os fardos meus
se afogaram na cuba
da misericórdia
– e voltaram à vida,
livres dos medos ateus.
Viva o socialismo!
July 03, 2008
Ingrid Betancourt, ao ser libertada, agradeceu “a Deus e aos soldados da Colômbia”. Questionada sobre o papel de Hugo Chávez e Rafael Correa na negociação com os narcoterroristas, a senadora franco-colombiana disse que eles até podem ser aliados na luta pela libertação de reféns, desde que se submetam às diretrizes do governo da Colômbia (grifos meus). “Álvaro Uribe foi eleito pelo povo da Colômbia; as Farc, não.” Frase lapidar.
“Agradeço a Deus e aos soldados da Colômbia.” Para certo tipo de esquerdofrênico (faz tempo que não uso essa palavra tão cara), Ingrid não disse nada com nada. Afinal, Deus não existe; e soldados da Colômbia, como obedecem a um governo de direita e pró-americano, só podem fazer o mal, né mesmo?
O papel de Uribe na libertação de Ingrid foi heróico, para dizer o mínimo. Conseguiram libertar a refém mais importante das Farc (ainda há 700) sem disparar um único tiro. É isso que se chama inteligência militar, expressão que alguns néscios, por absoluto desconhecimento histórico, acreditam ser uma contradição em termos.
*****
O sociólogo Cezar Bueno, com quem tenho relações cordiais, aceitou ser vice de André Vargas, candidato do PT à Prefeitura de Londrina. Só o fato de pertencer ao PCdoB, um partido que reverencia Mao Tse-tung e Stálin, já seria o bastante para não esperar grande coisa do rapaz. Mas confesso que essa história de ser vice de André Vargas (atualmente em evidência pela acusação de ter usado vigias da UEM como laranjas) ultrapassou as minhas piores expectativas. Lembro-me até hoje de uma formatura da UEL, em que estive presente, quando Cezar foi o juramentista. Ao final do juramento, com todos os universitários de mão direita erguida, ele quebrou o protocolo e gritou: “Viva o socialismo!” Eu ainda era trotskista na época, mas confesso que a impertinência do rapaz me causou grande vergonha alheia. Só não foi pior do que se vice de André Vargas.
*****
Eu e o amigo Tanga resolvemos promover hoje, no Madalena, o I EMISS (Encontro de Maus Imitadores de Silvio Santos). Isso é que dá férias. Cabeça vazia, principalmente quando de grandes proporções como a nossa, é a oficina do que-diga.
*****
Confesso que torci ontem para o Fluminense. É um time simpático – algo assim como um contrário do Corinthians que não é o Palmeiras. Mas a derrota do tricolor carioca serviu para algo útil: calou a boca do Renato Gaúcho. Eu diria que Renato Gaúcho é um verdadeiro teste para o cristianismo de qualquer um. Quem bota fé no Nazareno tem que encontrar qualidades em tipos como Gaúcho, Belinati, Janene e Ideli Salvatti (este último nome deve ser pronunciado com sotaque de CPI).
*****
E a Estrela acaba de lançar uma série de bonequinhos temáticos. Eis alguns:
BONEQUINHO ANTI-HOMOFÓBICO – Taca processo se você mencionar a palavra “viadagem”. Faz paradinha gay e dá faniquito.
BONEQUINHO GILBERTO CARVALHO – Chefia gabinetezinhos e administra escandalozinhos.
BONEQUINHO ANTICRISTÃO – Você aperta a barriguinha e ele diz: INQUISIÇÃO! CAMISINHA! GALILEU GALILEI! RATZINGER NAZISTA!
BONEQUINHO ELEITORZINHO ENRUSTIDO DO LULA – Diz que é independente, faz críticas perfunctórias ao governo, mas se enche todo quando acha um motivo para elogiar o prefidente ou criticar FHC (esse bonequinho vem com obsessão; qual seja, a de sentar o porrete no FHC, não importa o motivo).
BONEQUINHO SILVIO SANTOS – Você aperta a barriguinha, ele fala OHE, pergunta se você está hospedado no HILTAUMMM, reprisa Pantanal e é processado pela Globo!
BONEQUINHO VEREADOR – Já vem com propininha.
BONEQUINHO TJ – Libera vereadorzinho!
BONEQUINHO BAKUNINZINHO – Ideal se você defende uma educação ateistinha e anarquistinha.
BONEQUINHO ANDRÉ VARGUINHAS – Vai perder a eleição, mas mesmo assim conseguirá fazer uma campanha milionária! Vem acompanhado de segurancinhas da UEM.
BONEQUINHOS BBB – A versão feminina tira a roupinha na Playboyzinha e só tem duração de seis meses. A versão masculina costuma ser presa, depois de algum tempo, por briga em boate.
BONEQUINHA DILMA – Fabrica lindos dossiezinhos fajutos!
BONEQUINHO SEM-TERRINHA – Invade prediozinhos públicos, destrói lavourinhas de pesquisa, suga verbinhas do governinho e, nas escolinhas, substitui a crença em Papai Noel por odes a Mao Tse-tunguinho e Che Guevarinha.
BONEQUINHA INGRID BETANCOURT – Aventura! Já vem seqüestrada. É libertada pelo BONEQUINHO URIBE e seus soldadinhos.
BONEQUINHO LULA – Surfa na boa fase do capitalismo e depois, quando a coisa aperta, põe a culpa no mesmíssinho capitalismo! Você aperta a barriguinha e ele diz NUNCA ANTEF NEFE PAIF.
É isso aí. Agora, vamos ao IMESS. E viva o socialismo!
UPDATE:
BONECO SIQUEIRINHA - Domingo, às 9 e meia da manhã, na Tarobá! Com patrocínio SERCOMTELLLLLLLL.
BONEQUINHA LETÍCIA SABATELLA - Ecologista e militante em tamanho e forma naturais. E tem uma vantagem sobre a original: É MUDA! Apesar disso, briga com o Ciro Gominhos. Se falhar, é "só batê-la" na parede, que ela volta a funcionar ("só batê-la", Sabatella: entendeu, entendeu? Hein, hein?)
“Agradeço a Deus e aos soldados da Colômbia.” Para certo tipo de esquerdofrênico (faz tempo que não uso essa palavra tão cara), Ingrid não disse nada com nada. Afinal, Deus não existe; e soldados da Colômbia, como obedecem a um governo de direita e pró-americano, só podem fazer o mal, né mesmo?
O papel de Uribe na libertação de Ingrid foi heróico, para dizer o mínimo. Conseguiram libertar a refém mais importante das Farc (ainda há 700) sem disparar um único tiro. É isso que se chama inteligência militar, expressão que alguns néscios, por absoluto desconhecimento histórico, acreditam ser uma contradição em termos.
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O sociólogo Cezar Bueno, com quem tenho relações cordiais, aceitou ser vice de André Vargas, candidato do PT à Prefeitura de Londrina. Só o fato de pertencer ao PCdoB, um partido que reverencia Mao Tse-tung e Stálin, já seria o bastante para não esperar grande coisa do rapaz. Mas confesso que essa história de ser vice de André Vargas (atualmente em evidência pela acusação de ter usado vigias da UEM como laranjas) ultrapassou as minhas piores expectativas. Lembro-me até hoje de uma formatura da UEL, em que estive presente, quando Cezar foi o juramentista. Ao final do juramento, com todos os universitários de mão direita erguida, ele quebrou o protocolo e gritou: “Viva o socialismo!” Eu ainda era trotskista na época, mas confesso que a impertinência do rapaz me causou grande vergonha alheia. Só não foi pior do que se vice de André Vargas.
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Eu e o amigo Tanga resolvemos promover hoje, no Madalena, o I EMISS (Encontro de Maus Imitadores de Silvio Santos). Isso é que dá férias. Cabeça vazia, principalmente quando de grandes proporções como a nossa, é a oficina do que-diga.
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Confesso que torci ontem para o Fluminense. É um time simpático – algo assim como um contrário do Corinthians que não é o Palmeiras. Mas a derrota do tricolor carioca serviu para algo útil: calou a boca do Renato Gaúcho. Eu diria que Renato Gaúcho é um verdadeiro teste para o cristianismo de qualquer um. Quem bota fé no Nazareno tem que encontrar qualidades em tipos como Gaúcho, Belinati, Janene e Ideli Salvatti (este último nome deve ser pronunciado com sotaque de CPI).
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E a Estrela acaba de lançar uma série de bonequinhos temáticos. Eis alguns:
BONEQUINHO ANTI-HOMOFÓBICO – Taca processo se você mencionar a palavra “viadagem”. Faz paradinha gay e dá faniquito.
BONEQUINHO GILBERTO CARVALHO – Chefia gabinetezinhos e administra escandalozinhos.
BONEQUINHO ANTICRISTÃO – Você aperta a barriguinha e ele diz: INQUISIÇÃO! CAMISINHA! GALILEU GALILEI! RATZINGER NAZISTA!
BONEQUINHO ELEITORZINHO ENRUSTIDO DO LULA – Diz que é independente, faz críticas perfunctórias ao governo, mas se enche todo quando acha um motivo para elogiar o prefidente ou criticar FHC (esse bonequinho vem com obsessão; qual seja, a de sentar o porrete no FHC, não importa o motivo).
BONEQUINHO SILVIO SANTOS – Você aperta a barriguinha, ele fala OHE, pergunta se você está hospedado no HILTAUMMM, reprisa Pantanal e é processado pela Globo!
BONEQUINHO VEREADOR – Já vem com propininha.
BONEQUINHO TJ – Libera vereadorzinho!
BONEQUINHO BAKUNINZINHO – Ideal se você defende uma educação ateistinha e anarquistinha.
BONEQUINHO ANDRÉ VARGUINHAS – Vai perder a eleição, mas mesmo assim conseguirá fazer uma campanha milionária! Vem acompanhado de segurancinhas da UEM.
BONEQUINHOS BBB – A versão feminina tira a roupinha na Playboyzinha e só tem duração de seis meses. A versão masculina costuma ser presa, depois de algum tempo, por briga em boate.
BONEQUINHA DILMA – Fabrica lindos dossiezinhos fajutos!
BONEQUINHO SEM-TERRINHA – Invade prediozinhos públicos, destrói lavourinhas de pesquisa, suga verbinhas do governinho e, nas escolinhas, substitui a crença em Papai Noel por odes a Mao Tse-tunguinho e Che Guevarinha.
BONEQUINHA INGRID BETANCOURT – Aventura! Já vem seqüestrada. É libertada pelo BONEQUINHO URIBE e seus soldadinhos.
BONEQUINHO LULA – Surfa na boa fase do capitalismo e depois, quando a coisa aperta, põe a culpa no mesmíssinho capitalismo! Você aperta a barriguinha e ele diz NUNCA ANTEF NEFE PAIF.
É isso aí. Agora, vamos ao IMESS. E viva o socialismo!
UPDATE:
BONECO SIQUEIRINHA - Domingo, às 9 e meia da manhã, na Tarobá! Com patrocínio SERCOMTELLLLLLLL.
BONEQUINHA LETÍCIA SABATELLA - Ecologista e militante em tamanho e forma naturais. E tem uma vantagem sobre a original: É MUDA! Apesar disso, briga com o Ciro Gominhos. Se falhar, é "só batê-la" na parede, que ela volta a funcionar ("só batê-la", Sabatella: entendeu, entendeu? Hein, hein?)
Ser cristão, ser liberal, ser livre
July 02, 2008
Meu pai, o homem que eu mais respeito neste mundo, é agnóstico. E um esquerdista da velha guarda. Não se deixou levar pela conversa de Lula e Gilberto Carvalho, mas continuou na esquerda. Anulou o voto na última eleição presidencial (no primeiro turno, votou em Cristovam Buarque, se não me engano). Mas nunca aceitou o liberalismo; tem uma ojeriza (plenamente justificável) dos que na teoria defendiam o liberalismo econômico, mas na prática apoiavam a ditadura e viviam dos favores estatais. Maluf, entre eles. Com toda razão. Maluf é odioso. Não por acaso, tornou-se aliado de Lula.
Curioso é que o velho, meu pai, tem bastante admiração intelectual por Milton Friedman. Dia desses vou presenteá-lo com algum livro de Ludwig von Mises.
Tenho, é claro, muitos amigos ateus e agnósticos. Talvez sejam maioria. Alguns, inteligentíssimos, muito mais do que eu (não é difícil). Minha irmã é budista; pertence, pois, a uma religião sem Deus. Foi ela que me presenteou com o livro “Jesus de Nazaré”, escrito pelo cardeal Joseph Ratzinger quando ainda não era o papa Bento XVI.
Conciliar liberalismo e cristianismo não é fácil. Primeiro, por um motivo simples: não é fácil ser liberal nem cristão. No Brasil, esse país de cultura estatizada e mentalidade estatizante, o governo está em toda parte. Um liberal autêntico, como Joaquim Nabuco, hora ou outra tem que prestar serviços ao Leviatã estatal. Trabalhamos cinco meses para o governo; só depois começamos a ganhar o nosso suado dinheirinho. E a compensação por tudo isso é ler manchetes sobre a nova escalada inflacionária. (Lula conseguiu. Lula finalmente conseguiu!)
Ser cristão é simples e, ao mesmo tempo, quase impossível. A lei da Nova Aliança é de simples entendimento (“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”) mas tremendamente difícil de seguir na vida diária. Implica o seguinte: imitar o próprio Criador, o próprio YHWH.
Ser cristão e liberal ao mesmo tempo é uma tarefa que provavelmente vai consumir o tempo restante da minha vida. Mas a tensão entre poder temporal e poder religioso é um dos fardos humanos. É uma das razões da nossa existência após a Queda. O que me conforta, mas não acomoda, é identificar raízes comuns entre os preceitos liberais e a doutrina judaico-cristã. Max Weber falou bastante sobre isso. Seria interessantíssimo presenciar uma hipotética conversa de Adam Smith e Tomás de Aquino no Céu. Conversariam sobre um tema que os apaixonava a ambos: o livre-arbítrio.
Quanto ao ateísmo, falo com absoluta tranqüilidade. Fui ateu durante mais ou menos 15 anos. Depois, tornei-me uma espécie de agnóstico. Ao fim, com suavidade e sem grandes abalos, passei a acreditar em YHWH. Hoje a fé me parece tão natural quanto respirar. Ironicamente, acho que desenvolvi a fé no longo período de ateísmo. Porque, afinal de contas, o ateísmo é uma religião. É estar convicto de que Deus não existe numa relação de amor com o homem. Quando terminar de ler “Jesus de Nazaré”, quero ler a primeira encíclica de Bento XVI (dono de uma inteligência e uma erudição invejáveis, e alvo da inveja dos ressentidos esquerdistas da Escatologia da Libertação). O nome da encíclica é uma das afirmações mais impactantes da Bíblia: “Deus caritas est” (Deus é amor). Voltaremos ao assunto. Até porque não existe outro assunto.
Santos
June 29, 2008
“Para aquele que tem fé, nenhum argumento é necessário. Para aquele que não tem fé, nenhum argumento é possível.”
(Tomás de Aquino, santo da Igreja)
“Ter fé é acreditar naquilo que você não vê; a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita.”
(Agostinho de Hipona, santo da Igreja)
Quando a gente perdia algum objeto, Maria rezava para São Longuinho. Em poucos minutos, a coisa – chave, carteira, relógio, anel, dinheiro – era encontrada. Maria dava três pulos e três gritos: “Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho! Obrigado, São Longuinho!”
Resolvi pesquisar sobre São Longuinho. Segundo as mais remotas fontes cristãs, era um militar romano que teria presenciado a crucificação. Com sua lança, ele feriu Jesus embaixo do peito. Do ferimento, saíram água e sangue. Os líquidos espirraram nos olhos do agressor, que se curou de uma grave enfermidade ocular e ali mesmo, aos pés da cruz, testemunhou a divindade de Cristo. Ou seja, Longuinho (ou Longino, cujo nome em grego significa “a lança”) seria o primeiro a ver o que os outros ainda não vêem – daí a sua capacidade de encontrar as coisas perdidas.
Quando alguém se engasgava, Maria batia nas costas da pessoa e invocava: “São Brás!” A tradição diz que São Brás, ao ser levado para o martírio, encontrou na beira da estrada um menino com uma espinha de peixe na garganta. Ele colocou as mãos na garganta do menino e o salvou.
Médico e bispo da igreja, perseguido pelos romanos, Brás certa vez refugiou-se numa caverna, onde os animais selvagens não o atacavam.
Por falar em animais, quando algum cachorro bravo chegava perto e a gente ficava com medo, Maria dizia: “Ai, meu São Roque”. Padroeiro dos inválidos e dos cirurgiões, Roque destacou-se ao tratar doentes da peste negra (por volta do ano de 1348). Quando contraiu a doença, refugiou-se nas montanhas para não contaminar ninguém. Só não morreu de fome porque um cão selvagem o alimentou. Roque se dava bem com animais: daí a invocação de Maria nos momentos de cachorro bravo.
E se as causas eram urgentes ou mesmo impossíveis, Maria chamava Santo Expedito. Esse era um militar corajoso, chefe da 12a Legião Romana, conhecida como A Fulminante. Seu ardor e generosidade eram capazes de resolver os problemas mais difíceis. Quando Expedito iria se batizar, o demônio apareceu na forma de um corvo e gritou: “Crás!” (em latim, “Amanhã!”). Expedito o afastou respondendo: “Hodie!” (“Hoje!”)
Tomás, filho do meu querido amigo Ranulfo Pedreiro, nasceu no domingo, dia 22 de junho – Dia de São Tomás More. O nome foi escolhido por um feliz acaso. Outro santo xará, Tomás de Aquino, era filho de Landulfo. Conta-se que Tomás de Aquino tinha cinco anos de idade quando viu um grupo de monges rezando. Perguntou a eles: “Quem é Deus?”
Tomás passou a vida inteira respondendo a essa questão. E o assunto não terminou até hoje.
Amanhã? Não: Hoje!
Eu, hein!
June 28, 2008Olhos, não penseis mais.
Do velho Homero
tereis a paz.
Mãos, baixai a guarda.
A noite some:
é madrugada.
Pés, parai agora.
Já chega o tempo
de ir embora.
Voz, não faleis nada.
A melhor frase
se diz calada.
Poema do óbvio
June 27, 2008Se ousei romper o silêncio,
há um motivo.
Se me levanto no meio da noite,
há um motivo.
Se bebo a água e olho a estrela,
há um motivo
quase imperceptível.
Se um cavalo enlouquece,
há uma causa.
Se uma pedra cai no mar,
há uma causa.
Se um árvore seca e morre,
há uma causa
imperceptível, quase.
Se escrevo este poema,
a causa, o motivo
será dizer
o imperceptível.
Duas palavras
June 27, 2008Trabalhei por alguns anos com Rogério Fischer na Folha de Londrina. Há jornalistas competentes; há jornalistas trabalhadores; há jornalistas íntegros. É difícil, quase impossível encontrar, no mesmo profissional, os ápices de talento, dedicação e integridade. É o caso de Fischer, colega e mestre.
*****
O prefeito de Londrina, Nedson Micheleti (PT), recebeu ontem o título de “Prefeito Amigo da Criança”, em Brasília. Enquanto isso, observa meu amigo José Antonio Pedriali em seu blog, os conselheiros tutelares da cidade estão a pé por falta de gasolina.
*****
Homofobia... homofobia... Depois a gente fala no assunto, OK?
O macaco tá certo
June 26, 2008
Simony vem a Londrina neste final de semana. Kid Vinil também vem. Simony me faz lembrar o Fofão. Fofão me faz lembrar que ele, o Patropi (de “A Praça é Nossa”) e o Macaco Sócrates (de “O Planeta dos Homens”) eram a mesma pessoa. Orival Pessini, o nome da fera.
*****
Sou contra declarar o MST ilegal, caro Groucho.
Não, não tive uma recaída esquerdista.
Ilegalidade jurídica é o que os “sem”-terra mais querem para justificar suas ações criminosas.
Invasões, destruição de lavouras, vandalismo em institutos de pesquisa, quebra-quebras... tudo isso vai se multiplicar. Embora o pior seja educar a criançada no culto a Che Guevara e Mao Tsé-tung.
A verdadeira – e eficaz – punição contra a máfia maoísta seria cortar o dinheiro da Viúva.
Sem o “dinheiro amigo” do governo, o MST vira fumaça em questão de meses.
Mas isso também não vai acontecer. Então, cana neles! (Não no sentido lulístico.)
O filho pródigo da literatura
June 26, 2008
(Versão integral de matéria e entrevista publicadas no Jornal de Londrina)

Autor paranaense Miguel Sanches Neto lança “A primeira mulher”. Na obra, ele combina passagens poéticas e tramas do gênero policial
A prosa de Miguel Sanches Neto é como um balcão de bar bem lustrado: a caneca de chope desliza suavemente pela superfície, sem sobressaltos. Combinar fluência e precisão é uma tarefa para escritores profissionais – e Miguel é definitivamente é do ramo. Prolífico, o autor residente em Ponta Grossa acaba de lançar o romance “A primeira mulher” (Record, 336 páginas, R$ 36). Pode não ser a sua melhor obra até hoje – considerando que ele já publicou “Chove sobre minha infância” (memórias) e “Venho de um país obscuro” (poemas) – mas tem qualidades importantes, inclusive a melhor delas: não deixar o leitor adormecer sobre as páginas. “A primeira mulher” é leitura saborosa como um chope bem tirado no final de tarde.
No ano passado, estive na Choperia do Tito, em Ponta Grossa, e esvaziei algumas tulipas na companhia do escritor. Conversamos sobre Alexei Bueno, Ivan Junqueira e Wilson Martins – autores que Miguel conhece pessoalmente, e eu só dos livros. Pois qual não foi minha surpresa ao ver a choperia servindo como cenário para algumas cenas em “A primeira mulher”...
O livro já foi definido pelo autor como um “quase policial”. Um professor universitário, Carlos Eduardo, é procurado por uma ex-amante, Solange, que se tornou deputada e está recebendo ameaças. É o ponto de partida para que o protagonista, na curva perigosa dos 40 anos, repense – e até refaça – a sua vida amorosa, familiar e intelectual.
Em certo trecho do livro, Carlos Eduardo diz ser o “filho de uma biblioteca”. Miguel confirma essa identidade genética com o personagem: “Meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li”.
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Entrevista com o escritor Miguel Sanches Neto:
“Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso”
Paulo Briguet: “A primeira mulher” não é um romance policial puro. Acho que você já o definiu em entrevista como “quase policial”. Você é leitor do gênero? De alguma forma a chamada literatura policial influenciou na criação do romance?
Miguel Sanches Neto: Não sou um grande leitor do gênero policial, mas me interesso por ele enquanto possibilidade de construir enredos precisos. Há uma grande variedade de possíveis na literatura de entretenimento, e acho que a literatura dita séria deve aproveitar todo este material. Confesso, no entanto, que o policial só me interessa neste nível mais literário, e não sou um seguidor do gênero.
Como você situa “A primeira mulher” na sua obra ficcional, poética e ensaística?
Sanches Neto: É um romance que funciona como súmula. Eu coloquei neste livro elementos do ensaio, tanto que um crítico já o chamou de romance filosófico. Carlos Eduardo dá opiniões sobre literatura, magistério, política, culinária etc. Por outro lado, há também o poema que aparece incrustado na narrativa, e que foi escrito e pensado como uma peça independente. Algumas das histórias podem funcionar como contos. De tal forma, que este é um livro que, mesmo sendo diferente dos demais que escrevi, retoma várias questões que foram tratadas antes. O tema central continua sendo a idéia de retorno, a trajetória do filho pródigo, que já apareceu em outros livros meus.
Flaubert às vezes passava vários dias “empacado” na escolha de uma única palavra. Seu livro parece ter sido escrito de outra maneira, “ao correr da pena”. É isso mesmo? Como e quando a obra foi escrita?
Sanches Neto: Não tenho crises de criação diante da tela em branco do computador, porque só escrevo quando sei para onde a história vai, e escrevo com a linguagem que possuo, então nada me falta quando me decido por produzir algo. Escrevo numa compulsão erótica, o que não me deixar esfriar nunca diante de algo que estou tentando entender pela ficção. Se esfrio, não sei retomar. Escrever é como estar apaixonado, um permanente queimar. Depois da escrita, esta inundação criativa, eu tenho que trabalhar com o material cheio de imperfeições. É aí que aparecem as dificuldades. Limpar o pântano do texto. É um trabalho lento, minucioso, e infinito. Leio dezenas de vezes o livro neste período, algumas delas em voz alta, para mim mesmo, dramatizando a história, tal como fazia o próprio Flaubert, um método que aprendi com o Luiz Vilela. Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso, sem o menor obstáculo para o leitor. Tenho um trabalho imenso para que a linguagem não sobressaia no livro, pois ela é só meio, o que me interessa é despertar a emotividade do leitor.
É possível estabelecer algum tipo de relação entre a poesia e a prosa sem que se perca o melhor dos dois gêneros?
Sanches Neto: Gêneros híbridos são maiores do que os gêneros puros. Mas cada um dos gêneros, ao se somar ao outro, sempre perde parte de sua força. Não dá para ser diferente. E nem faz sentido ser. Um exemplo, trabalho agora num livro de poemas declaradamente prosaicos, e é visível que estes poemas perderam algo de sua poesia, mas ganharam muito de narração, o que atende ao meu desejo de fazer uma poesia mais próxima da sensibilidade do leitor comum. Agora, não acho que se perde o melhor, perde-se o mais visível, os traços mais salientes, mas isso nem sempre é o melhor.
O Cântico dos Cânticos, um dos mais bonitos e misteriosos livros da Bíblia, ganha no livro versão profana Jardim em Chamas. Esses diálogos poéticos são anteriores ao livro ou foram escritos especialmente para ele?
Sanches Neto: São anteriores. Estão dentro deste meu projeto poético de escrever uma poesia próxima da prosa, que possa se comunicar com o leitor, que não seja vista como uma barreira. Claro, é uma versão avessa ao velho lirismo, que tenta traduzir para uma linguagem mais contemporânea toda a riqueza do poema. Mas ele não tem uma presença gratuita dentro do romance, antes funciona como uma metáfora da busca amorosa do narrador, que nunca encontra a amada, embora esteja ao lado dela, e de outras. E também tem uma função dentro do enredo policial.
A relação de Carlos Eduardo com Ilda lembra muito a de Mersault com a mãe, em “O Estrangeiro”, de Camus? Essa similaridade é consciente?
Sanches Neto: Não é consciente, mas este livro me marcou muito e somos sempre frutos de nossas leituras. Há apenas uma mudança no final, pois a relação mãe e filho sofre uma positivação que no livro do Camus é impossível. O que eu quis fazer no romance é mostrar como nos afastamos dos conceitos de família e, ao mesmo tempo, como vivemos saudosos dele.
A certa altura, Carlos Eduardo diz que é “filho de uma biblioteca”. Não seria uma boa definição para escritor?
Sanches Neto: Sim, é a minha própria definição, pois sou filho de uma biblioteca. O meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li, por isso todos os livros lidos na minha biblioteca trazem a data da leitura e o local em que foram lidos. Um dia, quem sabe, algum pesquisador curioso, sem nada mais interessante para fazer, vai poder rastrear minhas leituras, propondo teorias de influência para determinar meus antepassados literários.
A bela cena da casa abandonada, quando Carlos encontra Pedro, me lembrou passagens de Norman Mailer (“Homem que é homem não dança”) e Philip Roth (“O teatro de Sabbath”). Você admite essas influências colaterais ou elas são apenas especulações do leitor?
Sanches Neto: Não li nenhum destes dois livros, e a cena me veio de um episódio autobiográfico e de uma notícia de jornal. Numa matéria qualquer, vi a foto de uma casa habitada por uma senhora que juntava todo tipo de lixo e não descartava nada. Era uma versão do inferno moderno. Depois, fui visitar a casa da Cecília Meireles no Rio de Janeiro, uma casa que tinha ficado abandonada por anos, e que ainda guardava os móveis e os livros da poeta no meio do lixo acumulado. Foi um choque esta visita, e a casa de Pedro, em boa medida, é uma versão da casa da Cecília.

Autor paranaense Miguel Sanches Neto lança “A primeira mulher”. Na obra, ele combina passagens poéticas e tramas do gênero policial
A prosa de Miguel Sanches Neto é como um balcão de bar bem lustrado: a caneca de chope desliza suavemente pela superfície, sem sobressaltos. Combinar fluência e precisão é uma tarefa para escritores profissionais – e Miguel é definitivamente é do ramo. Prolífico, o autor residente em Ponta Grossa acaba de lançar o romance “A primeira mulher” (Record, 336 páginas, R$ 36). Pode não ser a sua melhor obra até hoje – considerando que ele já publicou “Chove sobre minha infância” (memórias) e “Venho de um país obscuro” (poemas) – mas tem qualidades importantes, inclusive a melhor delas: não deixar o leitor adormecer sobre as páginas. “A primeira mulher” é leitura saborosa como um chope bem tirado no final de tarde.
No ano passado, estive na Choperia do Tito, em Ponta Grossa, e esvaziei algumas tulipas na companhia do escritor. Conversamos sobre Alexei Bueno, Ivan Junqueira e Wilson Martins – autores que Miguel conhece pessoalmente, e eu só dos livros. Pois qual não foi minha surpresa ao ver a choperia servindo como cenário para algumas cenas em “A primeira mulher”...
O livro já foi definido pelo autor como um “quase policial”. Um professor universitário, Carlos Eduardo, é procurado por uma ex-amante, Solange, que se tornou deputada e está recebendo ameaças. É o ponto de partida para que o protagonista, na curva perigosa dos 40 anos, repense – e até refaça – a sua vida amorosa, familiar e intelectual.
Em certo trecho do livro, Carlos Eduardo diz ser o “filho de uma biblioteca”. Miguel confirma essa identidade genética com o personagem: “Meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li”.
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Entrevista com o escritor Miguel Sanches Neto:
“Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso”
Paulo Briguet: “A primeira mulher” não é um romance policial puro. Acho que você já o definiu em entrevista como “quase policial”. Você é leitor do gênero? De alguma forma a chamada literatura policial influenciou na criação do romance?
Miguel Sanches Neto: Não sou um grande leitor do gênero policial, mas me interesso por ele enquanto possibilidade de construir enredos precisos. Há uma grande variedade de possíveis na literatura de entretenimento, e acho que a literatura dita séria deve aproveitar todo este material. Confesso, no entanto, que o policial só me interessa neste nível mais literário, e não sou um seguidor do gênero.
Como você situa “A primeira mulher” na sua obra ficcional, poética e ensaística?
Sanches Neto: É um romance que funciona como súmula. Eu coloquei neste livro elementos do ensaio, tanto que um crítico já o chamou de romance filosófico. Carlos Eduardo dá opiniões sobre literatura, magistério, política, culinária etc. Por outro lado, há também o poema que aparece incrustado na narrativa, e que foi escrito e pensado como uma peça independente. Algumas das histórias podem funcionar como contos. De tal forma, que este é um livro que, mesmo sendo diferente dos demais que escrevi, retoma várias questões que foram tratadas antes. O tema central continua sendo a idéia de retorno, a trajetória do filho pródigo, que já apareceu em outros livros meus.
Flaubert às vezes passava vários dias “empacado” na escolha de uma única palavra. Seu livro parece ter sido escrito de outra maneira, “ao correr da pena”. É isso mesmo? Como e quando a obra foi escrita?
Sanches Neto: Não tenho crises de criação diante da tela em branco do computador, porque só escrevo quando sei para onde a história vai, e escrevo com a linguagem que possuo, então nada me falta quando me decido por produzir algo. Escrevo numa compulsão erótica, o que não me deixar esfriar nunca diante de algo que estou tentando entender pela ficção. Se esfrio, não sei retomar. Escrever é como estar apaixonado, um permanente queimar. Depois da escrita, esta inundação criativa, eu tenho que trabalhar com o material cheio de imperfeições. É aí que aparecem as dificuldades. Limpar o pântano do texto. É um trabalho lento, minucioso, e infinito. Leio dezenas de vezes o livro neste período, algumas delas em voz alta, para mim mesmo, dramatizando a história, tal como fazia o próprio Flaubert, um método que aprendi com o Luiz Vilela. Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso, sem o menor obstáculo para o leitor. Tenho um trabalho imenso para que a linguagem não sobressaia no livro, pois ela é só meio, o que me interessa é despertar a emotividade do leitor.
É possível estabelecer algum tipo de relação entre a poesia e a prosa sem que se perca o melhor dos dois gêneros?
Sanches Neto: Gêneros híbridos são maiores do que os gêneros puros. Mas cada um dos gêneros, ao se somar ao outro, sempre perde parte de sua força. Não dá para ser diferente. E nem faz sentido ser. Um exemplo, trabalho agora num livro de poemas declaradamente prosaicos, e é visível que estes poemas perderam algo de sua poesia, mas ganharam muito de narração, o que atende ao meu desejo de fazer uma poesia mais próxima da sensibilidade do leitor comum. Agora, não acho que se perde o melhor, perde-se o mais visível, os traços mais salientes, mas isso nem sempre é o melhor.
O Cântico dos Cânticos, um dos mais bonitos e misteriosos livros da Bíblia, ganha no livro versão profana Jardim em Chamas. Esses diálogos poéticos são anteriores ao livro ou foram escritos especialmente para ele?
Sanches Neto: São anteriores. Estão dentro deste meu projeto poético de escrever uma poesia próxima da prosa, que possa se comunicar com o leitor, que não seja vista como uma barreira. Claro, é uma versão avessa ao velho lirismo, que tenta traduzir para uma linguagem mais contemporânea toda a riqueza do poema. Mas ele não tem uma presença gratuita dentro do romance, antes funciona como uma metáfora da busca amorosa do narrador, que nunca encontra a amada, embora esteja ao lado dela, e de outras. E também tem uma função dentro do enredo policial.
A relação de Carlos Eduardo com Ilda lembra muito a de Mersault com a mãe, em “O Estrangeiro”, de Camus? Essa similaridade é consciente?
Sanches Neto: Não é consciente, mas este livro me marcou muito e somos sempre frutos de nossas leituras. Há apenas uma mudança no final, pois a relação mãe e filho sofre uma positivação que no livro do Camus é impossível. O que eu quis fazer no romance é mostrar como nos afastamos dos conceitos de família e, ao mesmo tempo, como vivemos saudosos dele.
A certa altura, Carlos Eduardo diz que é “filho de uma biblioteca”. Não seria uma boa definição para escritor?
Sanches Neto: Sim, é a minha própria definição, pois sou filho de uma biblioteca. O meu DNA literário só pode ser entendido por meio dos livros que li, por isso todos os livros lidos na minha biblioteca trazem a data da leitura e o local em que foram lidos. Um dia, quem sabe, algum pesquisador curioso, sem nada mais interessante para fazer, vai poder rastrear minhas leituras, propondo teorias de influência para determinar meus antepassados literários.
A bela cena da casa abandonada, quando Carlos encontra Pedro, me lembrou passagens de Norman Mailer (“Homem que é homem não dança”) e Philip Roth (“O teatro de Sabbath”). Você admite essas influências colaterais ou elas são apenas especulações do leitor?
Sanches Neto: Não li nenhum destes dois livros, e a cena me veio de um episódio autobiográfico e de uma notícia de jornal. Numa matéria qualquer, vi a foto de uma casa habitada por uma senhora que juntava todo tipo de lixo e não descartava nada. Era uma versão do inferno moderno. Depois, fui visitar a casa da Cecília Meireles no Rio de Janeiro, uma casa que tinha ficado abandonada por anos, e que ainda guardava os móveis e os livros da poeta no meio do lixo acumulado. Foi um choque esta visita, e a casa de Pedro, em boa medida, é uma versão da casa da Cecília.
Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso (1930-2008)
June 25, 2008
Lamento.
Privatizar já!
June 24, 2008
Mais um excelente artigo no site Ordem Livre.
Desta vez, o professor Alexandre Barros faz uma lúcida avaliação sobre a economia brasileira.
A seguir, dois trechos, só para degustação:
Bem-vindos ao Brasil novo, em que o pobres ficaram ricos e o governo não aprendeu que tudo o que deu certo foi resultado do capitalismo. Mas, ainda assim, não acredita no que vê a ainda acha que o estatismo vai dar certo.
(...)
Os setores que menos nós tiveram foram os privatizados mais cedo: telefonia, mineração, indústria aeronáutica, indústria automobilística e rodovias (só as privatizadas). Os nós foram maiores e mais embaraçados nos setores em que o Estado não só permaneceu, como pouco ou nada fez: saúde, educação pública, transportes urbanos, rodovias não-privatizadas, transporte aéreo e infra-estrutura.
(...)
Leia o texto completo aqui.
Quem?
June 23, 2008
(Para Tomás, filho do meu amigo)
Quem acendeu o Sol?
Quem esculpiu a Lua?
Quem assoprou o vento
que bate frio na rua?
Quem é que salgou o mar?
Quem agendou as marés,
que ora nos deixam secos
e ora nos molham os pés?
Quem amassou a montanha?
Quem é que tingiu a amora?
Quem construiu o dia
com um punhado de horas?
Quem escreveu o verbo,
o nome e a preposição?
Quem ficou em silêncio
contemplando a criação?
Quem não fecha os olhos
mesmo por um segundo
– cujo trabalho pesado
é carregar o mundo?
Quem é que molhou a chuva?
Quem contou os teus cabelos?
Quem adoçou a uva?
Quem escutou teus apelos?
Quem rimou estes versos
antes mesmo de lê-los?
Da Terra, quem fez o norte?
Da guerra, quem fez a paz?
Quem fez morrer a morte?
Quem fez nascer o Tomás?
*****
Acorda aquele que ama. E com ele acorda o mundo. Menos um silêncio na manhã: aquele que ama acordou. É dia.
Acorda aquele que ama. E com ele acordam as memórias temíveis, o refluxo dos pensamentos, os pedaços de sonho, as primeiras horas do tempo.
Aquele que ama já estava acordado. Ele é uma vigília constante. Deita-se, mas não dorme nunca. Finge. Ou melhor: silencia. Durante a madrugada, vigiou nosso sono.
Todos acordam quando aquele que ama já acordou. Eis o milagre da manhã. O Sol é uma fornalha atômica. Aquele que ama é tão maior do que o Sol.
Canção do coração
June 21, 2008Toda minha vida
trabalhei a esmo,
como um farol
noite inteira aceso
sem achar resgate
no cais do relento.
Nas horas de calma,
nas de desespero,
fui a tua alma
e o teu corpo inteiro.
A cada segundo
eu batia à porta,
conduzindo o mundo
pela tua aorta.
(Assim fiz o fundo
de tua vida torta.)
Se amor e trabalho
fazem tua essência,
fui o teu milagre,
fui tua ciência.
Amei, trabalhei,
como a pedra cala,
como o homem pensa.
Só trabalha e ama
quem dentro da carne
bate e não reclama,
pura conseqüência.
Para tua lavra
Deus por sorte fez-me
- e, se fui escravo,
fora de mim mesmo.
Até o último minuto
June 20, 2008Você não precisa ter medo. Estarei ao seu lado até o último minuto da minha vida. Não sei quando esse minuto acontecerá; pode ser daqui a uma hora, pode ser daqui a 50 anos. Não sei o tempo, só sei o lugar: ao seu lado.
E não farei isso só porque prometi ao padre; não farei nisso porque é meu dever, ainda que ele exista; não farei isso por amor, ainda que ele seja incomensurável; farei isso porque não existe outro caminho. Partir longe de você está fora de questão.
Desculpe, mas agora terei que usar o bordão de Sérgio Mallandro: “Você tá triste? Não fique triste!” Não acho muita graça no Mallandro, mas admiro essa conexão imediata, quase xamânica, entre a melancolia e a felicidade. Você tá triste? Não fique triste!
E se digo com todas as palavras – até o último minuto da minha vida – é porque certamente você vai viver algum tempo depois de mim. Fique sossegada; estou bem; nunca me senti tão bem. Respiro, como, bebo, durmo, trabalho. Só precisaria caminhar mais um pouco.
Não fique triste quando eu partir. No dia em que isso acontecer, basta me procurar nos esconderijos da natureza, nos quintais abandonados, nas churrasqueiras, nas casas do outro lado da rua, no mínimo arbusto, no cachorro sem-noção. Você então lembrará que nasci pouco depois do ocaso, e nessa hora eu sentia uma combinação de desespero e tranqüilidade, de distância e presença, de pensamento e intuição. Você lembrará que, no final de uma tarde, eu pensei que todas as coisas visíveis e invisíveis, absolutamente todas, sem tirar nenhuma, estavam presentes no minuto da Criação. Aquela árvore é filha da primeira árvore. Aquela pedra é filha da primeira pedra. Aquela nuvem é filha da primeira nuvem. A sua sombra é filha da primeira sombra. O coração do homem desconhecido que cruzou a rua é filho do primeiro coração. E você é filha da primeira mulher e do primeiro homem, assim como estas palavras são filhas da primeira Palavra.
E se caminho na rua, e se dou uma cochilada no ônibus, e se leio um poema do Bruno Tolentino, e deito a seu lado e durmo, vejo as repúblicas que freqüentei; escuto as músicas dentro da noite; sento-me à beira de um riacho; piso a areia alva e quente de uma praia; desapareço no escuro de uma festa; converso com meu avô; tomo cerveja com meu pai; perco-me nos corredores de uma biblioteca interminável; procuro um livro no sebo; olho para um ipê que nunca mais floriu; ouço os latidos do meu cachorro que morreu há 12 anos e os galos das mais remotas manhãs.
Ouça bem. Estamos presentes, agora, no minuto da Criação. Você tá triste? Não fique triste!